A humanidade frente a seu maior desafio: união

Quase tão certo quanto o fato de termos Natal todos os anos é o vazamento de informações confidenciais contidas nos relatórios feitos pelos cientistas do IPCC (Intergovernmental Panel of Climate Change). São estudos publicados a cada seis, sete anos, muito aguardados porque costumam traçar uma espécie de perfil do que podemos esperar das mudanças do clima nos próximos anos. O quinto e último relatório foi divulgado em 2014 e trouxe importantes insumos para o Acordo de Paris assinado um ano depois. Agora os milhares de cientistas espalhados pelos 195 países membros das Nações Unidas estão trabalhando (voluntariamente, diga-se de passagem) sobre o Sexto Relatório, que deveria ficar pronto até o início da próxima Conferência das Partes sobre o Clima (COP) 26 que vai acontecer em novembro, em Glasgow, na Escócia.

Ocorre que o relatório não ficou pronto a tempo, mas os cientistas decidiram fazer, no próximo dia 9 de agosto, o anúncio de uma espécie de melhores momentos do estudo para ajudar os debates na COP. E, como eu disse acima, tão certo como o Natal, parte desses highlights vazaram para a imprensa. São dados que impressionam, como sempre são surpreendentes os anúncios do IPCC. O jornal britânico “The Guardian” foi um dos que publicou o vazamento.

“É provável que os impactos sejam muito mais próximos do que a maioria das pessoas imagina, o que irá remodelar fundamentalmente a vida nas próximas décadas, mesmo que as emissões de gases de efeito estufa sejam controladas”, dizem os jornalistas do “The Guardian”, concluindo com uma das frases que, ao que tudo indica, foi pinçada do relatório vazado: “A vida na Terra pode se recuperar de uma mudança drástica no clima evoluindo para novas espécies e criando novos ecossistemas … os humanos não podem.”

Acompanho há algum tempo os debates em torno dos impactos das atividades humanas sobre o clima, e posso lhes garantir que nunca o anúncio dos cientistas foi tão forte. Certo é que eles se assombraram com as informações colhidas que fazem parte das quatro mil páginas do relatório ainda em segredo. O Guardian ouviu Simon Lewis, professor de Ciência da Mudança Global na Universidade College London, que ressaltou a subida de tom dos cientistas.

 “Nada no relatório do IPCC deve ser uma surpresa, já que todas as informações vêm da literatura científica. Mas, em conjunto, a mensagem nítida do IPCC é que ondas de calor, incêndios, inundações e secas cada vez mais graves estão vindo em nossa direção, com impactos terríveis para muitos países. Além disso, há algumas mudanças irreversíveis, muitas vezes chamadas de pontos de inflexão, como quando as altas temperaturas e as secas significam que partes da floresta amazônica não podem persistir. Esses pontos de inflexão podem então se ligar, como derrubar dominós.”

Lewis mencionou a Floresta Amazônica, parte que nos cabe intensamente. E, sim, os dados mostram aquilo que mais tememos: é bem provável que a Floresta perca sua vegetação natural e vire savana, bioma que tem como característica arbustos pequenos, não árvores frondosas. O último relatório sobre desmatamento na Amazônia, feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), mostrou que, nos últimos 11 meses, foi 51% maior do que o registrado no período anterior, de agosto de 2019 a junho de 2020, quando o bioma apresentou 5.533 km² de devastação. Portanto, não é devaneio pensar que tudo pode ser diferente daqui a algum tempo.

O mundo estaria em queda livre?

Nicholas Stern, ex-economista chefe do Banco Mundial e especialista em mudanças climáticas, quando soube do vazamento do relatório do IPCC, disse à AFP:

“O mundo está confrontado com um conjunto complexo de desafios entrelaçados. A menos que você os enfrente juntos, não vai se sair muito bem em nenhum deles”.

Este é o ponto. Enfrentar juntos, como sugere Stern, significa deixar de lado querelas políticas, respeitar a multidiversidade, todas as culturas, costumes, focar seriamente no que interessa e ajudar quem já está sendo mais atingido. Dito assim parece um sonho, sobretudo para uma humanidade que há séculos vem se acostumando a tratar seus semelhantes com diferença.

No cargo desde 2013, a primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, não parece comovida com a causa. Tampouco dá sinais de que deseja se unir a seus pares, como sugere Stern, para enfrentarem juntos o problema. Em declaração recente feita à reportagem do jornal “Financial Times”, Solberg disse que seu país vai continuar explorando petróleo e gás.

“Há uma grande mudança acontecendo, e isso vai acontecer de qualquer maneira. A questão é quão rápido isso vai acontecer”, disse ela à reportagem. Importante dizer que Solberg está em campanha para sua reeleição, o que nos permite especular que, com esta declaração, ela vai angariar votos dos empresários de óleo e gás noruegueses. A questão é saber onde está, nessa altura, o sentimento de solidariedade tão necessário.

Enquanto escrevo este texto, o evento de abertura dos Jogos Olímpicos, em Tóquio, emociona todo mundo que teve tempo para assistir. Na fila dos atletas, na bela criação de drones iluminados, nas trilhas sonoras, no discurso do “banqueiro dos pobres” Muhammad Yunus, a palavra reintegração foi muito ouvida. Assim como paz, união.

Vamos ter que transformar discursos em prática. E não vai dar para esperar muito não.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Do amor aos pets ao bife sangrento: é a nossa era dos paradoxos*

Vamos imaginar, num exercício de ficção, qual será a imagem que a nossa era deixará para o futuro? Eu digo futuro mesmo, daqui a uns cem anos. E, é claro, contando com a possibilidade de a humanidade permanecer como espécie no planeta.

Os shih tzus Bidu e Fred correm soltos na grama. A foto é de 2005 e o flagrante foi conseguido por Nena

Algumas imagens me veem à mente, mas pensando sobre o paradoxo que nos rodeia, um retrato se destaca. Nele, um homem acaricia docemente seu cão com uma das mãos enquanto, com a outra, segura um garfo que o ajuda a levar à boca um naco sangrento de carne de boi.

Sem julgamento. O convite aqui é para a reflexão.

Alguns sites dão conta de que a pandemia fez crescer ainda mais o afeto dos brasileiros aos bichos de estimação.  Quem já tinha, passou a dar mais atenção, a pesquisar mais sobre seu comportamento, a tentar melhorar sua qualidade de vida. Atualmente, o Brasil tem a segunda maior população de cães, gatos e aves canoras e ornamentais em todo o mundo, e é o terceiro maior país em população total de animais de estimação. São 54,2 milhões de cães, 23,9 milhões de gatos, 19,1 milhões de peixes, 39,8 milhões de aves e mais 2,3 milhões de outros animais. O total é de 139,3 milhões de pets (dados do site da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação – Abinpet).

É possível que o primeiro lugar em número de pets fique com os Estados Unidos, que tem mais de 83 milhões só de cães. Em toda a Europa estima-se que haja 75 milhões de cães.

E adivinhem quem farejou esse crescimento como uma oportunidade e tanto para seguir à risca um dos mandamentos do capitalismo, acumular? O mercado, claro. O mercado pet já representa hoje 0,36% do PIB brasileiro, à frente dos setores de utilidades domésticas e automação industrial. Em 2018, a indústria de produtos para animais de estimação faturou R$ 20,3 bilhões. Em 2006, esse número era de R$ 3,3 bi. Num recentíssimo pronunciamento, o presidente Bolsonaro garantiu que, em 2020, o faturamento do setor passou para R$ 40 bilhões.

Há exageros, consumismo. E nem sempre é divertido, para o cão, ser vestido como gente, usar sapatos (eles PRECISAM pisar no chão, na grama, na terra) e ser medicado em excesso. Roupinhas para ocasiões especiais, brinquedos de último tipo, tapetes, travesseiros, colchas, quitutes dos mais variados… e o dono do pet pode acabar deixando na loja uma soma em dinheiro que, no fim das contas, pode pesar no orçamento. Resultado direto disso: a relação com o bicho começa a ficar desgastada. E o bicho nem pediu aquilo tudo…

 O problema é humanizar os animais:

“Tratar seu cachorro como um bebê não é bom para ele, nem para você”, dizem os especialistas. E, vamos combinar, com razão.

Existem algumas boas sugestões que podem ajudar na relação com os pets. A mais importante é que, antes de adotá-lo, ou comprá-lo, o humano pense bastante, pese prós, contras e, sobretudo, converse com todos que vão conviver com o bichinho em casa. Se tudo der certo, esta relação vai durar cerca de dez a 15 anos. E o pet existe para dar alegria, não para trazer problemas e discussões. Sendo assim, o contrato entre os humanos para receber o bicho em casa é fundamental.

Quando a pessoa mora sozinha e trabalha fora, tem que levar em conta a quantidade de horas que o bicho ficará sozinho em casa. E deve abrir mão da vontade de ter um pet, caso não possa fazer companhia a ele. Um apartamento, ou mesmo uma casa, é confinamento para qualquer animal.

Mas, no geral, os cuidados exagerados são melhores, para o bicho, do que ser abandonado à noite numa rua escura e deserta por donos covardes que se justificam dizendo que não podem mais cuidar dele.

Mesmo evitando os excessos, porém, o que ocorre é que os preços de remédios veterinários, por exemplo, sobem muito e, aparentemente, sem regulação. De um mês para o outro, o medicamento que precisa fazer parte da rotina de um cão idoso, pode subir sem que você tenha sido avisado. A surpresa aparece na hora de pagar a conta. O mesmo com os preços das consultas, exames e tais.

Numa entrevista bem interessante que deu ao jornalista Breno Altman, do site OperaMundi (assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=amE253akFd0) , a também jornalista Silvana Andrade, presidenta da Associação de Noticias sobre o Direito dos Animais (Anda) (https://anda.jor.br) lembra que dar atendimento adequado aos animais que se tutora é uma questão de cidadania, portanto os governos deveriam ser instigados a ajuda, fornecendo, por exemplo, saúde pública para os bichos:

“Muitas pessoas me dizem: ‘Silvana, vc é louca! Não há saúde nem para as pessoas, quanto mais para bichos’. Mas é preciso exigir. Uma pessoa em situação de rua deve ter o direito de cuidar de seus animais, por exemplo”, disse ela, lembrando que em São Paulo já há quatro hospitais desse tipo e que a luta é para que se abram farmácias populares.

Já que começamos o texto com lembranças sobre nossa era dos paradoxos, não custa lembrar que cobrar coerência nessa hora – “não tem nem para pessoas, quanto mais para animais” – é mais uma contradição. Sabemos a importância dos bichos, valoramos sua companhia, mas na hora de oferecer-lhes lugar em nossa civilização, eles acabam ocupando um degrau abaixo. Sem medo de estar sendo exagerada, digo que esta atitude corrobora a onipotência do homem, que sempre considerou a natureza como algo a ser dominado.

Sempre? Não, nem sempre com relação aos bichos. No pequeno vilarejo chamado Saint-Julien, no século XVII, seus habitantes abriram um processo contra uma colônia de gorgulhos – espécie de besouros – que teria invadido vinhedos causando estragos consideráveis na colheita. O pedido, feito ao vigário-geral, era para que ele prescrevesse medidas convenientes para “aplacar a cólera divina e a proceder dentro das regras, por intermédio da excomunhão ou qualquer outra censura apropriada”, à expulsão definitiva dos insetos.  Foi, como lembrou Luc Ferry, provavelmente a primeira ocorrência de um “contrato natural, de um pacto com seres da natureza”.

(P.S.) – Enquanto escrevia este texto li a notícia de que o ator Alan Cumming pediu que os organizadores da próxima cúpula do meio ambiente, COP-26, que vai acontecer em novembro na Escócia, não sirvam carne de animais aos participantes. Para ele, seria o mesmo que servir cerveja numa reunião de Alcoólicos Anônimos. Ponto para Cumming. Assim podemos ir aparando as arestas do nosso retrato de paradoxos.

*Este texto foi publicado originalmente no site da Revista Entrenós.

Em dupla é sempre mehor, sobretudo para raças pequenas e que ficam em apartamento
Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Lições sobre como combater a fome de um povo*

Corria o ano de 1993 e o Brasil ainda vivia a sua primeira infância como sociedade democrática. Na presidência, Itamar Franco, vice que inaugurou a nefasta e estranha saga dos vices que assumem a cadeira principal, elencou como prioridade de seu governo a fome a miséria que grassavam no país. Éramos então 156 milhões de brasileiros, dos quais 32 milhões começavam e terminavam o dia sem terem se nutrido, nem com a quantidade de alimento necessária para se manter em pé. Resultado de políticas econômicas erradas, que consideraram muito mais o progresso (para quem?)  do que o bem estar das pessoas, essa situação vergonhosa começou a incomodar a sociedade civil.

Herbert de Souza, o Betinho, sociólogo . Foto do site da ONG Ação da Cidadania, que ele criou

Eram tempos profícuos. Amordaçada durante os vinte anos de regime militar, a sociedade civil se via, finalmente, capaz de falar, pensar, agir de acordo com tudo aquilo em que acreditava. Sobretudo, em prol dos desvalidos. Entre as pessoas que tinham voltado para casa depois de um exílio forçado, Betinho, o irmão do Henfil, já vinha se articulando e debatendo a questão da fome com o novo governo. Numa famosa reunião, em que o presidente Itamar dedicou seu tempo para ouvi-lo, junto com Dom Mauro Morelli, Betinho expôs o Mapa da Fome e desenhou seus planos para acabar com ela.

Nascia, assim, o Programa de Combate à Fome que, segundo seu idealizador, só teria sucesso se, além da ação do governo, contasse também com ampla mobilização da sociedade.  Na sequência, Betinho criou uma ONG,  Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria. E veiculou sua ideia aos quatro cantos do Brasil. “Quem tem fome, tem pressa” era a frase que mais se ouvia e que se tornou uma marca. Conseguiu a adesão de políticos, empresários, jornalistas, artistas, sim, a sociedade civil. E, no fim do primeiro ano de campanha, já existiam cerca de três mil comitês em funcionamento no país.

“O Ibope foi a campo pesquisar o fenômeno de adesão e registrou que 68% dos brasileiros tinham conhecimento da existência da campanha, notadamente através da televisão. Do total dos entrevistados, 32% declararam alguma forma de participação ou contribuição para a campanha e 11% afirmaram participar ou trabalhar em algum comitê. Isto significa dizer que, em dezembro de 1993, a Ação da Cidadania envolvia aproximadamente 2,8 milhões de brasileiros e brasileiras, todos mobilizados para contribuir com a doação de alimentos e roupas”, diz um trecho do livro “Ação da Cidadania – 25 anos”.

A rede de mobilização lançada por Betinho, mais as políticas públicas lançadas pelos governos sociais de 2002 a 2015, foram responsáveis por tirar o país do Mapa da Fome (da ONU) em 2014. Na época, houve muita comemoração. O Mapa da Fome é um instrumento criado no início do século XXI para mostrar para todos, de forma gráfica, os países que estão sendo atacados pela fome.

A boa notícia é que ainda não voltamos ao Mapa da Fome. A má notícia é que estamos prestes a voltar, embora longe das condições agudíssimas de países africanos como Iêmen ou Madagascar. Dados do IBGE publicados em setembro do ano passado mostraram avanço da fome no país, que atingia 5% da população brasileira em 2018, ante 3,6% em 2013, alcançando mais de dez milhões de pessoas.

Hoje este número cresceu: são 19 milhões de pessoas que têm fome no Brasil. Uma vergonha. Ou, como diria Betinho:

“A fome é exclusão. Da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação, da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, é porque tudo mais já lhe foi negado. É uma espécie de cerceamento moderno, ou de exílo. Exílio da terra.”

A ONG de Betinho continua ativa, e hoje, 27 anos depois daquele distante 1993, contabiliza 35 mil toneladas de alimentos arrecadados pelos mil comitês que se espalham pelos 26 estados mais DF. Quatro milhões de famílias foram atendidas, e seria muito bom que, hoje, a Ação da Cidadania estivesse em outro lugar, auxiliando de outro jeito, mas não. Ainda precisa lutar para acabar com a fome, a pobreza, a miséria, e para dar cidadania aos cidadãos brasileiros excluídos.

Acima de tudo, a Ação dá uma lição aos atuais governantes, pessoas sem nenhuma intimidade com o tema fome. Com a pandemia, o desemprego se alastrou e agravou o quadro da indigência no país. A modesta sugestão é que se ouça quem sabe fazer por ter  aprendido com o mestre de todos os mestres.

Há, sim, um desperdício enorme de alimentos no mundo, no Brasil. O último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), publicado em 2019, deu conta de que em apenas um ano o Brasil desperdiçou 26,3 milhões de toneladas de alimentos. Mas a maioria desses produtos se perde na produção, ou seja, desde o momento em que é colhido até chegar à ponta da cadeia. A FAO esclarece que o desperdício no final da cadeia alimentar está mais associado às nações desenvolvidas.

Portanto, não faz sentido, nem com uma visão pragmática, a sugestão do atual ocupante da pasta do Ministério da Economia, para que as pessoas de classe média dividam seus, digamos, excessos de alimentos, com os pobres. O que resolve na emergência, para combater a fome, é fazer campanhas de mobilização, é se juntar a organizações que estão empenhadas (como no caso da Ação), é convocar artistas, políticos, estudantes, donas de casa. E é, sobretudo, criar políticas públicas voltadas para o combate à fome. Não estou falando em auxílio emergencial apenas. Há vários programas que podem ser resgatados.

Todos os dados sobre a campanha de combate à fome eu tirei da publicação lançada em 2013 pela própria Ação da Cidadania. O site da ONG está atualizado e tem várias informações. Disponível para quem quiser ler e aprender. Não custa sugerir.

*Este texto foi publicado originalmente no site da Revista Entrenós e da Casa Monte Alegre

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

A arte de rua em tempos de confinamento social*

A vizinhança já sabe. Toda quinta-feira, lá pelas oito da noite, um nome ecoa forte na redondeza. O som vira esquina, entra em ruela, em beco, na praça. Até as árvores rebatem o nome que é dito com força, de maneira intensa:  “Pauuuulo Freeeeire”! A voz é do ator  Richard Riguetti, também conhecido como Palhaço Café Pequeno, mestre em gestão cultural. Desde que o mundo entrou em modo lento para se defender do Corona Vírus, Richard teve que trocar a rua e o palco de um teatro pela sala de sua casa. Em vez de aplausos, Richard ganha sorrisos e muitos comentários, que vê pela telinha plana de seu computador.

“É deste jeito. É o que se tem para hoje”, diz Riguetti, entrevistado no dia 9, exatamente poucos minutos antes de sair para comemorar o nono aniversário da Lei municipal dos Artistas de Rua. Depois da promulgação da lei 5.429/2012, Richard e tantos outros profissionais que espalham sua arte pelas calçadas, praças, becos, ruas e avenidas das cidades puderam ter o direito de trabalhar sem ter que pedir autorização. É só avisar que vai fazer, e pronto. Uma vantagem de primeira grandeza.

Mas agora… infelizmente…. a pandemia… pois é…

 A arte de rua também está cerceada, isolada. Mas, longe de se sentirem injustiçados pelo destino cruel, os artistas de rua, ou pelo menos alguns deles, como Richard, buscam uma nova maneira. Como diz a geração millenial… é preciso se reinventar. No caso de Richard, ele encena seu monólogo “Paulo Freire, o Andarilho da Utopia” no palco montado num território com cerca de três metros quadrados: a sala do apartamento que habita.

 Até chegar a este momento e se considerar pronto para o desafio, porém, Richard tentou um outro modo de continuar trabalhando: lançou cursos de gestão cultural online.

“Utilizei uma dessas plataformas que se criaram na pandemia. Mas, quando acabei de dar a primeira aula, eu chorava. Pedi desculpas à turma. E parecia que eu tinha acabado de carregar um piano de cauda às costas. Os alunos, porém, disseram que eu não tinha que pedir desculpas porque a aula tinha sido muito boa. Aí fiz uma segunda vez e, quando acabei, a sensação era de que eu tinha carregado um piano de sala. Então, dei a terceira aula e, quando acabou, parecia que eu tinha carregado um acordeom. Na quarta aula, mudou para um violino. Foi quando percebi que era possível promover encontros, mesmo entre as pessoas que estavam em isolamento”, explica Richard.

O artista experimentou um voo mais alto ainda. Fundador da Escola Livre de Palhaços – Eslipa, ele decidiu abrir um curso de palhaço também online. E o curso foi muito bom. Foi então que ele disse a Luiz Antonio Rocha, parceiro na jornada da peça sobre Paulo Freire: “Estou pronto para fazer ‘Paulo Freire’ online, vamos lá!”.

O palco de Richard, montado na sala de seu apartamento

Aqui, vale a pena relembrar: “Paulo Freire, o Andarilho da Utopia”, é um monólogo que trata da vida do educador, filósofo, considerado o Patrono da Educação Brasileira.  Está em cartaz desde 2019 e já rodou praças, teatros, escolas, quilombolas… É, como diz Riguetti, “uma peça que foi feita para ser encenada em todos os lugares: no palco do Theatro Municipal ou em cima de um caixote de rua”. Quando ele disse isto numa entrevista logo no início de sua turnê, não contava ainda com a hipótese de encená-la dentro de sua própria casa. E sozinho.

“Não foi nada criado, foi acomodado. A rua realmente é meu mestrado, é meu doutorado. Aprendi na rua a criar relações, vínculos, cumplicidade. E, a partir da cumplicidade, aprendi a aguçar a pessoa na sua sensibilidade e, ao mesmo tempo, a estimular sua potência. Começamos a fazer isso pela plataforma, online. Nosso ato de cenopoética não começa antes de eu estabelecer essa conversa com as pessoas. Fica todo mundo com o vídeo ligado e eu vou recebendo, vou conversando, como se eu estivesse na praça, no nosso local de encontro. Somos seres gregários, todo mundo gosta de se revelar e de ver os outros se revelando. Então é muito interessante quando, por exemplo, eu pergunto para uma pessoa: ‘Você está em qual cidade’? Uma responde: ‘No Amazonas’, a outra responde que está na Irlanda, e começa esse imaginário a ampliar. E quem está no isolamento social amplia as paredes da arquitetura física para uma arquitetura imagética, poética. E isso acontece ali na hora”, explica o artista.

E aí entra a poesia. Não. Na verdade, a poesia está desde o momento em que o artista decidiu encenar a peça em meio à pandemia, quase um ato de resistência diante das agruras que nos rodeiam nos dias de hoje. Ou, como ele prefere dizer, “é o que tem para hoje”. Mas o que é melhor é que Riguetti achou, sim, a arte na tela plana e fria do computador.

Foi logo no início que houve o encontro da tecnologia avançada com a essência da arte. Quando as pessoas não conseguiam se conectar, e ficava aquela história de transmissão intermitente, de vozes picotadas, Richard  lembrou-se de tempos atrás, quando ouvia partidas de futebol no rádio, sentado no colo de seu avô.

“Não tinha televisão, a gente se sentava na sala e o rádio ficava fazendo aquelas ruídos característico de quando perdia as ondas, e aí criava uma certa necessidade corpórea de uma atenção maior porque a imperfeição do som fazia com que eu tivesse que ouvir mais atentamente. Aí, aqui em casa, durante a peça, em alguns momentos da transmissão, quando aconteciam os engasgos de som, eu me transportava para aquele menino no colo do avô, ouvindo a partida do Ponte Preta contra o Palmeiras. O locutor falava, de repente cortava…. “e a bola saiu pela lateral”… E eu tinha que imaginar e completar o trecho que não ouvi. Tinha que completar com a minha imaginação.”, disse Riguetti.

É nisto que o ator aposta. A imperfeição da transmissão vai aguçando mais, ampliando a qualidade humana de cada um, ampliando a escuta. Vivemos, como diz Riguetti, numa era “de informação e de opinião”. Isto quer dizer que todo mundo tem informação e todo mundo quer dar sua opinião sobre a informação que acabou de obter. Impossível não se identificar nessa fala.

“Poucos entram no estado de sustentação. Não há pausa, não há reflexão. Você recebe a informação e tem que dar logo a opinião. Mas, se você perceber, poucas pessoas falam de si. E o convite da peça é, justamente, este: falar de si. Depois que acaba, convidamos a audiência a conversar, a falar de si”.

E dá certo. Seja de um jeito ou de outro. O que importa é levar a arte adiante.

Para quem quiser assistir “Paulo Freire, Andarilho da Utopia”, o caminho é este. Na página inicial da internet, no provedor escolhido, copie e cole este endereço: https://www.sympla.com.br/a-peca—paulo-freire-o-andarilho-da-utopia—10062021__1237458. Ali vai aparecer a aba certa para você escolher a contribuição consciente que deseja dar. Depois, é só chegar, às oito em ponto, quando começa o espetáculo. Divirtam-se!

* Este texto foi publicado originalmente no site da Revista Entrenós e da Casa Monte Alegre

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Impactos das mudanças climáticas. Desde quando? Até quando?*

Há quem defina o ano de 1988 como uma espécie de data de nascimento das ações climáticas. Mais especificamente, se assim preferirmos, o dia 23 de junho daquele ano, quando o então diretor da Nasa James Hansen, hoje um octogenário ativista ambiental, discursou a uma audiência lotada de parlamentares que suavam muito por conta do calor excessivo àquela época do ano, sobre o aquecimento global. Hansen foi taxativo: as mudanças climáticas são consequência das atividades humanas. Mais tarde, num artigo para o jornal “The New York Times”, Hansen escreveu que já era tempo de “parar de tagarelar” sobre a Ciência e enfrentar seriamente a questão.

Muro no Japão contém ondas de Tsunami. Foto Reuters – 2018

Foi também naquele ano, 1988, a primeira reunião dos cientistas do United Nation´s Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), atualmente nosso quase velho conhecido. Já no ano seguinte, uma pesquisa feita entre a população norte-americana mostrou que 79% tinham ouvido falar dos efeitos produzidos pelos gases poluentes na nossa atmosfera.

Ponto para Hansen por ter conseguido espalhar a ideia. No entanto, a história registra que bem antes disso já havia estudiosos preocupados com a relação da humanidade com a natureza. Hoje já se sabe: ela é complexa. O homem se sente superior em todos os momentos, certo de ter o poder de devastar o ambiente onde vive, mesmo assistindo a degradação ao redor.  Já percebendo a delicadeza dessa relação, por exemplo, Victor Hugo, o grande escritor, escreveu em 1840:

“Fico triste quando penso que a natureza fala e a humanidade não escuta”.

Sem precisar ir tão longe no passado, podemos definir outra data, 1972, ano em que ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo: a primeira conferência mundial a fazer do meio ambiente uma questão importante. No Edifício Folkets Hus, Centro da capital sueca, os líderes mundiais aceitaram o convite feito pela ONU e se reuniram de 5 a 16 de junho para “inspirar guiar os povos do mundo na preservação e valorização do ambiente humano”.

“Por ignorância ou indiferença podemos causar danos massivos e irreversíveis ao meio ambiente terrestre, da qual nossa vida e bem-estar dependem”, escreveram os líderes então reunidos na ensolarada e fria Estocolmo. Há exatos 49 anos.

Por que lembrar disso agora?

Porque visitar a história é importante, sobretudo quando a humanidade insiste em fechar os olhos e negar o que é óbvio e que a Ciência mostra com tanta exatidão. Aliás, quanto a isso, gosto sempre de lembrar que há estudiosos que recordam aos negacionistas um fato notório: quando a Ciência serve para nos dar conforto e aliviar dores (como no caso das tecnologias usadas na Medicina), ela não é negada.

Nossa situação atual é bem diferente daquela que, já na metade do século XIX, preocupava Victor Hugo. Está pior, muito pior. Incêndios, secas, tormentas graves têm se alastrado com mais força e violência. Alertas de desmatamento na Amazônia, em março deste ano, foram os maiores já registrados para o mês desde o começo da série histórica, segundo dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). É, portanto, um sinal mais do que claro e evidente que não estamos escutando o que a natureza vem nos dizendo. Exceção feita, com mesuras e reverência necessárias, aos indígenas, povos que conseguem manter suas terras com o menor impacto.

Neste sentido, um relatório lançado em janeiro deste ano pela organização alemã  Germanwatch, muito conceituada e que há anos tem se dedicado a fazer estudos sobre os impactos das mudanças climáticas, não colabora para nos deixar otimistas. Mas é necessário como estudo para políticas públicas e registro histórico.

O relatório se chama Global Climate Risk Index e traz dados  estarrecedores. Mais de 475 mil pessoas morreram, no mundo todo, entre 2000 e 2019, por conta de eventos extremos – tempestades, inundações, onda de calor e seca. Foram mais de onze mil desses eventos, que resultaram na perda de US$ 2,56 trilhões.

Jogando para a frente, os estudos mostram que até 2030 as estimativas dão conta de que serão perdidos entre US$ 140 e US$ 300 bilhões anualmente. Já quando a estimativa é feita até 2050, estes números sobem para US$ 280 e US$ 500 bilhões. Considerando apenas os países emergentes, as estimativas de perdas financeiras de hoje até 2030 estão entre US$ 290 e US$ 580 bilhões.

Entre 2000 e 2019, Porto Rico, Myanmar e Haiti foram os países mais afetados  pelos impactos dos eventos extremos. O relatório mostra ainda que a pandemia que estamos vivendo desde que fomos atingidos pelo Corona Vírus reitera o fato de que riscos e vulnerabilidade são sistêmicos e estão interconectados.  

É isto.

*Publiquei este texto na Revista Entrenós e no Blog da Casa Monte Alegre

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Dalai Lama e Papa Francisco fazem apelo que o Brasil não poderá atender

Em 2015, o mundo se surpreendeu com a Encíclica do Papa Francisco, chamada “Laudato Si – Sobre o cuidado da Casa Comum”.  O Sumo Pontífice decidiu escrever sua carta aos fiéis tendo em vista a “deterioração global do ambiente”. Convocou-os a “unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável”, afirmou que estamos vivendo uma era de mudanças climáticas que “desnudam a terra das suas florestas naturais”. E atestou, também, aquilo que alguns líderes negam: os humanos estão contribuindo para a mudança climática. Naquele ano, os líderes mundiais, reunidos em Paris, assinaram o Acordo que se propõe a baixar as emissões a ponto de não permitir que o aquecimento global fique acima de 1.5º até o fim do século.

Foi um bom momento para a causa ambiental. Considerando que o Papa Francisco é um líder que fala para cerca de 1,3 bilhão de fieis, muita gente parou para pensar a respeito.

Cinco anos depois, outro líder religioso lançou uma mensagem que se assemelha à do Papa Francisco. Dalai Lama, o líder espiritual do Tibete, região com cerca de três milhões de pessoas, escreveu “A Nossa Única Casa – Um apelo ao mundo pela necessidade urgente de cuidarmos da Terra”, lançado no Brasil pela Editora Leya. O livro é feito em parceria com Franz Alt, cientista político que já trabalhou como jornalista e se especializou em ecologia e preservação ambiental.

Além de reproduzir uma conversa, em que Franz Alt faz perguntas ao Dalai Lama, o livro registra também os pensamentos do líder religioso sobre meio ambiente e mudanças climáticas. Assim como o Papa Francisco, ele exorta todos a construir “um ambiente mais saudável”.  E diz que “a ecologia deve se tornar a economia mais inteligente. Só então seremos capazes de viver de forma sustentável”.

“Já nos descrevi como egoístas, é verdade. Mas devemos ser egoístas sábios, em vez de egoístas tolos. Pensar menos em “eu” e mais no bem-estar dos outros. Assim se obtém o benefício máximo. Então isso é o egoísmo sábio”.

 Não custa trazer aqui os pensamentos de pessoas célebres que têm sensibilidade, responsabilidade, são bem-informados e acreditam na Ciência. Às vezes é preciso ir beber nessas fontes, sobretudo quando estamos vivendo uma espécie de realidade paralela aqui no Brasil, um governo que não leva em consideração essas verdades.

Agora que já nos banhamos em águas sábias e tranquilas, portanto, precisamos enfrentar a nossa dura realidade. A Câmara dos Deputados aprovou, no último dia 12, o texto substitutivo do projeto de lei 3.729/2004, que flexibiliza o processo de licenciamento ambiental. A proposta está sendo chamada de “tratorada” pelos ambientalistas, uma alusão à boiada que o ministro Salles, do meio ambiente, prometeu deixar passar.

Flexibilizar o processo de licenciamento ambiental é permitir mais obras e desmatamentos, é não respeitar a necessidade de baixar emissões de gases do efeito estufa. É não fazer nada daquilo que o país prometeu fazer na última reunião de cúpula, há três semanas, convocada pelo presidente Biden, dos Estados Unidos. Tudo isso, para se dizer o mínimo.

O projeto de lei libera ainda uma inusitada forma de auto licenciamento. Funciona mais ou menos assim: a empresa entra no computador, vai ao site e diz ao governo brasileiro que sua obra não vai causar impacto algum ao meio ambiente. Não vai sujar rio, não vai matar as árvores, não vai poluir o ar, não vai deslocar famílias. Vai, só, ajudar a desenvolver o país. E estará, assim, permitida. É como se dissessem: “empresário, venha, faça o que quiser, porque o Brasil precisa de você”.

Listo aqui apenas três pontos que demonstram quão distante estaremos, a partir de agora, da tão necessária mudança de paradigma que Papa Francisco exorta em sua Encíclica e que o Dalai Lama sugere em seu livro que faz apelo ao mundo para cuidarmos da Terra. Não será possível obedecer a um e a outro, já que privilegiaremos o lucro, o desenvolvimento, a qualquer custo. Eu disse, qualquer custo.

1 – Estamos no meio da maior crise sanitária do século. Estudos foram feitos e já constataram que o desmatamento pode contribuir para novas pandemias, por um motivo bem simples: quando se mata árvores o solo é mexido, remexido. Segundo a ONU, as florestas são o lar de mais de 80% de todas as espécies terrestres de animais, plantas e insetos. Assim como, de 1,6 bilhão de pessoas que dependem das florestas para viver. Quando o trator derruba árvores, lá se vão arbustos “e os animais selvagens que levaram milhares de anos para criar esse ecossistema”, como diz Soledad Barruti no artigo “Nuggets e morcegos, como cozinhamos as pandemias”. Flexibilizar a legislação ambiental significa abrir caminho para mais e mais desmatamento.

2 – Ao flexibilizar a legislação ambiental, o Brasil não está dando nem um passo para mudar paradigma em prol de um novo modelo civilizatório, como é preconizado por dez entre dez estudiosos dos efeitos da pandemia e do modus vivendi pós-pandêmico.  É preciso sair do padrão econômico para o padrão ecológico, como demonstram os analistas da nossa era. “O contrato social no qual se baseia a governabilidade de nossa sociedade deve ser complementado por um contrato natural”, disse o filósofo e acadêmico francês  Michel Serres.

3 – Há, no Brasil, segundo o censo do IBGE de 2010, 818 mil indígenas, de 305 etnias diferentes. É bom lembrar que essas pessoas já estavam aqui no país quando chegaram os portugueses, o que lhes dá o direito de ter terras delimitadas. Hoje há 632 desses locais, muitos deles em solos ricos, o que atrai grileiros. Ontem mesmo vimos o que aconteceu com os Yanomami, um dos maiores povos indígenas da América do Sul, vítimas do ataque de grileiros. Ficamos sabendo. Mas, imaginem quantos outros eventos como este podem acontecer, agora que a lei está mais flexível e permite, até incentiva, empreendimentos até em terras indígenas?

Encerro aqui este texto, sem qualquer conclusão possível. São palavras e informações que vão contribuir para refletirmos. E que nos alimentem.

Publicado em Uncategorized | Marcado com | Deixe um comentário

Mensagem do Corona vírus para a humanidade: cuidem-se!

Paulo Gustavo me fazia rir. Eu tinha o hábito de acompanhar um de seus programas depois de um dia muito encrencado, quando tudo o que minha mente pedia era relaxar, distrair. E dava certo. Acabava a noite mais leve, ia me deitar com um sorriso no rosto, pensando naquele jeitão meio irônico, meio sarcástico, mas sempre muito engraçado. O personagem Paulo Gustavo.

Depois de sua morte fiquei sabendo que ele também era uma pessoa generosa. Doou milhões de reais para causas que necessitavam. E vai dando uma tristeza que cola na gente. E raiva desse vírus, da pandemia, de tudo o que anda nos cercando nesses tempos sombrios.

Mas ter raiva não é uma emoção razoável num momento desses. Estamos no meio de uma crise grave, que vai ficar para a história, e eu quero reagir de outra forma. É preciso, por exemplo, exercitar a escuta profunda, como ensina o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, um dos pensadores mais importantes da atualidade, em seu livro “O futuro começa agora – da pandemia à utopia”, que acaba de ser lançado pela Editora Boitempo.

Boaventura escreve que a humanidade decidiu criar metáforas para tentar entender melhor o Corona Vírus. Uma dessas metáforas é “vírus mensageiro”, e é óbvio que isso quer dizer que é preciso entender a mensagem que o vírus está tentando nos transmitir. Uma delas está transparente, mas apenas para alguns: não é possível continuar numa relação tão devastadora com o ambiente que nos cerca. Destruir habitats de bichos e plantas significa que eles precisarão se transmudar, criar outras plataformas, e que novos vírus poderão surgir a partir dessas mudanças. Isto, para não falar do desmatamento, que também deixa sem casa tais seres minúsculos, carentes de hospedeiros.

As vacinas, tantas forem, são uma das soluções, mas não o único caminho para enfrentarmos a era das pandemias (assim mesmo, no plural) que, segundo Boaventura e vários outros analistas, passará a ser nossa dura realidade daqui por diante. E, nessa trajetória que nos convida a escutar mais profundamente, também está a linha que segue o médico Mauricio Tatar, que se formou na escola tradicional de Medicina e depois, por perceber tamanha distância entre a Saúde que buscava e as doenças que aprendia a ver em seu curso, agregou os ensinamentos de outra Medicina, a oriental, mais ampla e conectada com a saúde integral.

Tive a sorte de auxiliar Mauricio Tatar a reunir em texto os seus pensamentos, o que resultou no livro “Cuidar de Si”, também recentemente lançado pela Mauad Editora. Mauricio e eu começamos a pensar o livro antes do anúncio da pandemia. Praticávamos, então, uma rotina de encontros semanais, nos quais ele falava, eu ouvia e anotava. Quando o Corona Vírus se apresentou, nosso hábito mudou, e nossos encontros passaram a ser virtuais. O que não mudou, muito antes pelo contrário, foi a nossa certeza de que refletir sobre saúde integral, sobre mudanças de hábitos tendo como meta a saúde, provocações que o leitor vai encontrar no livro, são absurdamente oportunas nesse tempo. Mauricio Tatar reitera, a cada vez, que: “Saúde vem de dentro para fora, não se compra em farmácias”.

O livro ensina bastante, sobretudo, como o título demonstra, a que as pessoas possam se organizar melhor, respeitar mais seu corpo. Isto quer dizer muita coisa. Isto nos obriga, sobretudo, a encarar de forma adulta, e sem rodeios, nossas escolhas . Uma, de tentar escutar o que o vírus nos transmite como mensagem, outra, de tentar mudar nossa relação com a natureza e nosso estilo de vida, de consumo.

São tarefas árduas, às vezes muito difíceis, mas necessárias. E prazerosa, se levarmos em conta que o movimento de transformar faz parte da saúde e da vida. Convido vocês, caros leitores, a comemorem conosco o lançamento do livro numa live nesta sexta-feira, dia 14, às 20h. Mandarei notícias com o endereço da live mais adiante. Será um espaço para refletirmos juntos sobre nossos caminhos, sobre nossos desafios, sem uma postura derrotista, mas com uma proposta de caminhos e soluções. Até lá.

Publicado em Uncategorized | Marcado com | Deixe um comentário

‘Água não é recurso, é elemento sagrado’, diz jovem ativista que discursou para líderes nos EUA

Xiye Bastida tem 19 anos. Nasceu na cidade mexicana de San Pedro Tultepec e pertence ao povo indígena Otomi-Tolteca, um dos mais antigos do mundo. Hoje mora em Nova York, para onde precisou migrar depois que uma forte inundação arrasou sua cidade, em 2015. Bastida tornou-se uma ativista ambiental quando foi informada, por cientistas, que a tragédia que aconteceu em San Pedro, e que obrigou toda a sua família a abandonar suas raízes, é culpa do aquecimento global. E que, se não houver uma tremenda mudança na forma como o homem lida com o meio ambiente, no modo como produz e consome, a tendência é acontecer eventos extremos cada vez mais severos.

Água, o elemento sagrado. Foto Getty Images

Xiye esteve ontem na Conferência sobre o Clima convocada por Joe Biden, presidente dos Estados Unidos. Foi anunciada pelo secretário de estado  Anthony Blinken, que contou uma parte da saga da família da jovem para fugir e encontrar um pouso. Blinken lembrou que a nação mais rica do mundo também já foi afetada por eventos extremos, como o furacão Sandy, em 2012.  Para deixar sua mensagem aos líderes mundiais, Xiye teve os mesmos seis minutos que os 40 chefes de estado que foram convidados para a reunião.

A jovem ativista fez um discurso crítico. Lembrou que, em sua maioria, estavam naquela Conferência líderes de países ricos do Hemisfério Norte, e denunciou a ausência de pessoas de comunidades pobres, aquelas que são, verdadeiramente, alvo dos eventos extremos. Alertou para o fato de que o mercado “verde” pode funcionar com o mesmo modelo do mercado tradicional. E que, por conta disso, ali poderiam estar sendo apontadas soluções orientadas por uma ordem econômica global  também predadora.

“Além de falar sobre as mudanças climáticas, os líderes mundiais precisam aceitar que a era dos combustíveis fósseis acabou”, disse Xyie. A jovem indígena estava ali também representando o movimento “Fridays for Future”, alavancado pela jovem sueca Greta Thunberg, também ativista, que já mobilizou centenas de milhares de jovens mundo afora na luta contra a crise climática.

Foi muito bom ouvir o que Xiye tinha para dizer. Busquei, em suas redes sociais, parte de outros discursos, e vi que ela se preocupa com tudo o que envolve o ecodesenvolvimento. A frase que elenquei para título desse artigo é dela:

“Água não é recurso, é elemento sagrado”, faz parte da sabedoria indígena da qual ela descende, e é uma realidade também de nossa humanidade ocidental. Mas parece que a gente se esquece disso.

Foi bom, também, poder recordar outros jovens levados para Conferências globais sobre o Clima nos anos passados, possivelmente com o objetivo de tornar mais críveis, sensíveis e, na medida do possível, mais concretos, tais encontros.  A primeira aparição semelhante foi em 1992, quando o Rio de Janeiro sediou a Eco-92. Naquela reunião, a jovem Severn Suzuki, então com 12 anos, conseguiu a atenção dos líderes reunidos ali com uma mensagem, à época, bastante apocalíptica. Mas que, infelizmente, hoje se torna usual.

“Estou aqui para falar por todas as gerações que virão. Estou aqui para falar – falar em nome das crianças famintas em todo o mundo cujos gritos não são ouvidos. Estou aqui para falar pelos incontáveis ​​animais que estão morrendo neste planeta, porque eles não têm para onde ir. Estou com medo de sair ao sol agora, por causa dos buracos em nosso ozônio. Tenho medo de respirar o ar, porque não sei quais são os produtos químicos nele”, disse a menina Suzuki, hoje ambientalista, mãe de dois filhos.

Esta é a maior preocupação: o tempo passa, as cobranças se alternam apenas de intensidade (à exceção do buraco na camada de ozônio, cujo tema saiu da urgência com a redução nas emissões de gases CFCs). Greta Thunberg lançou ontem, no Dia da Terra e primeiro dia da Conferência do Clima, um vídeo com mensagens aos líderes.

No vídeo, que pode ser visto nas redes sociais,  a jovem sueca não poupa críticas aos discursos e promessas dos participantes da Conferência, “feitas numa escala fantasiosa”. E se pergunta: “O que nós precisamos continuar trapaceando para fingir que essas metas estão alinhadas com o que é necessário fazer, de verdade, a favor do clima?”.

Boa pergunta, Greta. Vou lhe dar um subsídio a mais para seu caldeirão de críticas: no dia seguinte ao discurso cheio de promessas que fez na Conferência, o presidente Jair Bolsonaro usou a caneta para cortar recursos do setor do governo que lida com as mudanças climáticas.  

Entre os discursos dos líderes, o que mais me chamou a atenção foi do presidente do México, López Obrador. Não pelas promessas que fez, seguindo o modelo da cúpula, mas porque levou uma proposta concreta, de um projeto que já está instalado em seu país. “Sembrando Vida” é um esforço de reflorestar e, ao mesmo tempo, dar trabalho e renda. Segundo ele, já existem 450 mil agricultores, no Sudeste do México, com a tarefa de plantar árvores. Obrador convidou Joe Biden a ampliar o programa, e incluir migrantes entre os plantadores de árvores.

No fim das contas, pode ser uma boa ideia. Com prazo para terminar, claro.

Publicado em Meio ambiente | Deixe um comentário

O Coronavírus, a Conferência de Biden e o nosso papel nisso tudo

Passado o tempo do negacionista Donald Trump no comando da nação mais rica do mundo – e a segunda mais poluidora –, a população global observa agora o resgate da preocupação com as mudanças climáticas. Joe Biden, que substituiu Trump, imediatamente pôs os Estados Unidos de volta no Acordo de Paris. O tratado foi um compromisso assinado durante a Conferência das Partes sobre o Clima (COP) de 2015, cujo mote principal é fazer o possível por manter o aumento das temperaturas globais abaixo de 1,5 graus Celsius. Donald Trump havia retirado os Estados Unidos do Acordo, o que causou uma espécie de efeito de contágio, revelando ao mundo outros líderes negacionistas que estavam, até então, se omitindo.

Foto tirada por mim em evento pela despoluição da Baía de Guanabara em agosto de 2015

Segunda providência de Biden: convocou uma reunião de cúpula sobre o clima que vai anteceder a COP-26, que acontecerá em Glasgow, na Inglaterra, em novembro. E esta reunião vai acontecer quinta-feira agora, dia 22, quando se comemora o Dia da Terra. O encontro, para o qual foram convidados 40 chefes de nação (o presidente Bolsonaro já confirmou presença) vai se estender até o dia seguinte.

Congo, Colômbia, Chile, Gabão, Índia, Bangladesh, Ilhas Maurício, Noruega, Polônia estão entre os que já confirmaram presença. Rússia ainda é dúvida. Mas a China estará lá. Para azeitar as negociações entre os dois mega poluidores, já houve uma prévia entre China e Estados Unidos e uma declaração conjunta foi anunciada. Por ela, fica-se sabendo que as duas nações estão “firmemente comprometidas em trabalhar juntas e com outras Partes para fortalecer a implementação do Acordo de Paris”. Alvíssaras.

Mas, quem está na estrada há muito tempo como eu, há de se lembrar que China e Estados Unidos já protagonizaram outro momento bem parecido e que foi bem comemorado pela parte da população preocupada com as mudanças climáticas. Foi em 2014, quando o então presidente Barack Obama reuniu-se com Xi Jin Ping, também previamente à COP de 2015, e os dois anunciaram ao mundo que estavam assinando um pacto a favor do clima.

De lá para cá, bem… como se sabe, tudo o que não se esperava aconteceu. E hoje estamos à mercê de um inimigo ainda mais letal do que os eventos extremos, de tamanho diminuto e que está difícil de ser rendido. Seu nome: Corona Vírus.

Fato é, caros leitores, que mesmo com a boa vontade dos dois maiores poluidores do planeta, a realidade tem nos mostrado que são muitos os desafios para se manter compromissos de baixar as emissões.  E não me refiro apenas aos entraves geopolíticos, a questões diplomáticas. É sobre o meio ambiente que estamos falando. E é sobre a relação que construímos, como humanidade, com bichos, plantas, terra, rios, mares. Como se tudo isso fosse, desde sempre, apenas um pano de fundo para facilitar nossa vida. Nós, os humanos racionais. Nós, os mais poderosos. Só que não.

Tornamo-nos mais frágeis quando descobrimos, no início dos tempos, que podemos usar ferramentas e meios para vencer distâncias e praticar a força. Ficamos à mercê à medida em que descobrimos o conforto de não sentir muito frio, muito calor, de proteger os pés e mãos. Para cada avanço nos refrigérios que fomos criando, mais precisamos avançar sobre o meio ambiente. E nem estou mencionando a ganância, o acúmulo, descobertas unicamente racionais.

Aqui estamos, portanto. Com a industrialização, passamos a soltar gases poluentes que impedem que o calor do sol volte à atmosfera. Dessa forma, com o planeta mais quente, os mares ficam mais atormentados, os ventos mais fortes, a terra, muitas vezes, mais ressecada. A cada um desses tormentos, muitos de nós se vai. Como agora, quando o vírus está tirando muitas vidas. Segundo o xamã e filósofo Aylton Krenak, a Terra está “apagando os humanos”. E vai continuar, se não conseguirmos parar e ouvir o que ela está dizendo.

Parar, como? Se estamos imbricados até a medula num processo de desenvolvimento que nos obriga a avançar sobre o meio ambiente, mesmo quando tentamos diminuir a força do nosso impacto.

 Estive pesquisando, por exemplo, sobre o lítio. Ele faz parte do grupo químico dos metais alcalinos e, ultimamente, tem sido foco de disputa porque é a base da bateria dos carros elétricos. Só a China fabrica dez mil carros elétricos por mês, todos com bateria de lítio. Os carros elétricos têm sido vistos como a solução, ou parte dela ao menos, para diminuirmos o apetite sobre os combustíveis fósseis.

Aqui, vale um parêntese. Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, acumulou fortuna, justamente, vendendo carros elétricos. Não é uma economia sustentável, mas faz parte do paradigma que vivenciamos no sistema econômico vigente.

Bolívia, Chile e Argentina são os países que formam o chamado Triângulo do Lítio*, sendo que o Chile tem a posição mais alta. Mas é importante saber o seguinte: uma coisa são os recursos do lítio e outra são as reservas. Só as reservas são exploráveis. O que quer dizer que um país pode ter muito lítio, como no caso da Austrália, mas não ter reserva, ou seja, que ele não seja explorável.

Um dos problemas é que explorar lítio requer muita água: são necessários 500 mil galões de água para produzir uma tonelada de lítio. Além disso, no processo de separação do lítio são empregados muitos químicos tóxicos. Tudo isso cria, como se pode esperar, grande revolta entre as pessoas que moram próximo às minas de lítio.  Recentemente, na Argentina, na mineração Jujuy, houve um protesto, com cartazes que diziam:

“Água tem mais valor do que o lítio”.

Ninguém pode discordar disso. Eis portanto, um dos muitos imbróglios que temos pela frente no caminho em busca de uma economia com menos emissões de carbono. Se, por um lado, os carros elétricos podem ajudar a baixar as emissões, seria, no mínimo, um desatino, apostar as fichas no lítio e aumentar o risco, que já é grande, de ficarmos sem água.

Outro exemplo de nossa era de paradoxos, incertezas e da necessidade de tomada de decisão em prol de nossa saúde é a Emenda Kigali, um adendo ao Protocolo de Montreal, do qual o Brasil faz parte. Trata-se, basicamente, de proteger a camada de ozônio, evitando que os ares-condicionados emitam um gás que pode ser ainda pior do que o carbono. A Emenda está há um ano e meio esperando que a presidência da Câmara dos Deputados mande para ser aprovada no plenário. Quando isso acontecer, a indústria nacional de ar condicionado e geladeiras terá acesso a cerca de US$ 100 milhões do Fundo Multilateral para a Implementação do Protocolo, a fundo perdido. E promete usar o dinheiro para que as fábricas brasileiras produzam equipamentos mais eficientes e menos poluentes.

Quando penso a respeito, e me sinto envolvida nessa teia labiríntica entre desenvolvimentismo e preservação, gosto de ler autores que me levam a refletir sobre outras possibilidades, que não essas, usuais da economia verde. São chaves que podem abrir caminhos diferentes. E que vão exigir uma mudança bem forte de hábitos, costumes, de consumo e de relação com a natureza.

Cito o Papa Francisco. Com uma visão panorâmica de todo o cenário, o Sumo Pontífice, líder da comunidade católica do mundo, fez uma radiografia da origem de nossos problemas em Laudato Si, sua Encícilica de 2015. Na carta ele adverte, de maneira clara, que é preciso repensar nosso modo de consumir e de produzir. Não é simples assim como pode parecer, mas é um caminho.

*Os dados foram obtidos na excelente reportagem do site Dialogo Chino. Aqui: https://dialogochino.net/pt-br/

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Uma era das incertezas

Às vezes fico pensando sobre como os historiadores do futuro vão conseguir explicar esta nossa era. É um tempo de incertezas, um tempo de paradoxos, um tempo em que muitos ainda não se deram conta de que o homem não pode continuar se sentindo superior a tudo, porque desse “tudo” depende a sua própria vida. É um desrespeito global. Complexo? Então deixe eu exemplificar a teoria:

Rio Amazonas em foto tirada em 2015, viagem que fiz ao Arquipélago do Bailique: a natureza precisa deixar de ser o ‘entorno’

Há pouco estava caminhando com meus cães (dois shih tzus), quando uma menina de seus 4 anos veio por trás e deu um chute no Beto. Claro que foi um chute tranquilo, Beto não sentiu nada, mas o gesto foi horroroso. A mãe ficou consternada. Mas eu amansei a bronca porque um detalhe na cena havia passado despercebido da mãe: a menina tinha arrancado um galho bem grande, bonito, novo, da árvore da calçada, coisa que a mãe não notou. Nem registrou como ato tão horrível quanto o chute no meu cãozinho. É também a isso que me refiro quando falo sobre o desrespeito do homem pela natureza.

Vivemos um tempo de muitos erros, mas que também pode servir para refletir. A natureza precisa deixar de ser o “entorno” e passar a ter um papel principal em nossas vidas. É no que acredito. E, para ajudar nesse processo tão importante, de análise, é preciso informação.

Busco, então, nutrir-me diariamente, procurando informações em vários veículos, sobretudo no tema ao qual me dedico há quase duas décadas: o ecodesenvolvimento. Ou desenvolvimento sustentável. Mais recentemente, também chamado de conceito ASG (Ambiente, Social, Governança) ou ESG (Environmental, Social and Governance). Resumindo muito tudo isso, busco atualizar-me em tudo o que diz respeito ao nosso sistema civilizatório. E não, não é simples. Na maioria das vezes, é angustiante.

Ontem, duas notícias chamaram minha atenção. A primeira, no portal G1, traduzido do site da BBC, na verdade é um artigo escrito pelo cientista Piers Forsters, professor de física das mudanças climáticas e diretor do Centro Internacional Priestley para o Clima da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Ele contou que sua equipe da universidade fez uma pesquisa com o objetivo de avaliar se o lockdown quase global que o mundo enfrentou em março de 2020 teria, realmente, sido benéfico para as questões climáticas. Lembram-se como isso foi comentado há cerca de um ano?  

Resumindo a conclusão do estudo, que usou dados de mobilidade do Google e da Apple, “tanto no curto quanto no longo prazo, a pandemia terá menos efeito sobre os esforços para combater as mudanças climáticas do que muitas pessoas esperavam”.

“Apesar do céu claro e tranquilo, a pesquisa de que participei mostrou que o lockdown teve, na verdade, um leve efeito de aquecimento na primavera de 2020: conforme a indústria estagnava, a poluição do ar diminuiu e o mesmo aconteceu com a capacidade dos aerossóis, micropartículas produzidas pela queima de combustíveis fósseis, de resfriar o planeta refletindo a luz do Sol para longe da Terra”, escreveu o professor.

Quando fizeram uma projeção para dez anos à frente, os pesquisadores concluíram que o vírus Corona contribuirá para baixar apenas 0,01º grau. Muito mais do que este resultado seria conseguido caso os países decidissem levar a sério os esforços para baixar as emissões, dizem os estudiosos.

Mas, parece que baixar emissões ainda é uma proposta que não pegou. Pelo menos não em políticas públicas de larga escala.  No mesmo dia em que foi divulgado esse artigo, uma reportagem comemorou o “superciclo de commodities”. Na conjuntura atual, acreditam economistas ortodoxos, uma forte recuperação de Estados Unidos e China seria uma janela de oportunidades para o Brasil sair da crise. Na avaliação deles, esta expectativa impulsiona “a valorização de produtos como minério de ferro, soja, açúcar, petróleo e outras commodities que têm forte peso na balança exportadora brasileira”.

Considerando que cada uma dessas commodities citadas tem seu peso nas emissões de gases do efeito estufa, e não é peso leve, reparem bem no tamanho do paradoxo. Precisamos de aquecimento na economia? Sim. Precisamos de mais empregos? Sim. Precisamos que o ar esteja mais limpo e o clima não nos submeta a eventos extremos que matam centenas de pessoas a cada passagem de furacões e tempestades? Sim, também.

Precisamos ainda que a agricultura não use tantos agrotóxicos, que as águas não sejam contaminadas por resíduos, que os peixes possam ter tempo para se reproduzir antes de serem pescados… nossa, a lista é grande, viu? Para viver com saúde e causar menos impactos aos bens comuns, a lista é grande.

E ainda tem o Corona vírus. Vários estudiosos já relacionaram o surgimento do nosso maior inimigo atual à maneira pouco respeitosa com que se andam tratando animais silvestres e a terra. Se você, caro(a) leitor(a), prefere acumular mais razões para crer nessa teoria, vale ler o que diz o sociólogo Boaventura de Sousa Santos em seu livro “O futuro começa agora – da pancemia à utopia” (Ed. Boitempo), recém-lançado:

“O modo como o vírus emerge, se difunde, nos ameaça e condiciona as nossas vidas é fruto do mesmo tempo que nos faz ser o que somos. São as nossas interações com animais, e sobretudo com animais selvagens, que o tornam possível. O vírus espalha-se no mundo à velocidade da globalização. … Descobriu os nossos hábitos e a proximidade social em que vivemos uns com os outros para melhor nos atingir. Gosta do ar poluído com que fomos infestando as nossas cidades. Aprendeu conosco a técnica dos drones e, tal como estes, é insidioso e imprevisível onde e quando ataca… Prefere as populações empobrecidas, vítimas de fome, de falta de cuidados médicos, de condições de habitabilidade, de proteção no trabalho, de discriminação sexual ou etnoracial”.

E, agora, a cereja do bolo para concluir minhas reflexões de hoje neste espaço: “Considerar o vírus como parte da nossa contemporaneidade implica ter presente que, se quisermos ver-nos livres do vírus, teremos de abandonar parte do que mais nos seduz no modo como vivemos”.

Ou isto, ou vamos ser vítimas de um apocalipse latente, silencioso, caso nosso conceito de desenvolvimento continue a contemplar números, não o bem-estar de pessoas.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário