A obra do século, sete décadas depois

Era uma vez… um tempo em que a humanidade ainda não tinha delegado inteiramente para a tecnologia o seu poder de descobrir e de criar coisas.

O ano era 1967, e uma questão se impunha fortemente aqui no Rio de Janeiro: a falta de água. Sobretudo na Zona Sul, que na época recebeu o apelido de “polígono das secas”. Talvez por ser uma região frequentada por pessoas do andar de cima, esse incômodo foi ganhando as páginas dos jornais diariamente. E uma providência se impunha.

Mas só tinha uma solução: era preciso levar água, levar muita água, da Estação de Tratamento do Guandu, situada em Nova Iguaçu, até a Gávea, Zona Sul. Para isso seria preciso escavar túneis nas rochas, considerando que a região era marcada por maciços rochosos. Através desses túneis, e usando apenas a força da gravidade, seria possível fazer chegar a água na casa das pessoas.

Mas, como eu lembrei aí em cima, os tempos eram outros. A tecnologia ainda não estava tão avançada. Assim mesmo – e aí está a grande evolução humana – o feito foi conseguido.

A obra do século, como foi chamada na época a construção da Elevatória Lameirão, escavou túneis de grandes diâmetros por cerca de 43 quilômetros. Dizia-se que esta extensão era a soma de todos os túneis construídos no Brasil.

Num determinado trecho do longo caminho, por exatos 11 km, a água precisaria de pressão para seguir adiante, já que não havia declives, a gravidade não colaboraria. Assim foi feito. E a Estação de Tratamento, em Santíssimo, foi então ligada ao reservatório dos Macacos, na Gávea.

A grande construção empregou 45 mil operários, gastou sete milhões de sacos de cimento e custou ao governo 129 bilhões de cruzeiros, moeda da época. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) emprestou 40 bilhões. O resto foi dinheiro do contribuinte.

É este portento, que ainda hoje é a maior elevatória subterrânea de água tratada do mundo, que fui visitar na semana passada. Tirei algumas fotos, que posto aqui junto com esse texto. Fui num comboio de jornalistas levados pela Cedae, que hoje é uma empresa privatizada e dividida.

As estruturas hidráulicas ficam a 64 metros abaixo do nível do terreno, em Santíssimo. É uma sensação estranha, sobretudo para quem é claustrofóbica, mas dá para suportar. Vale a visita. A Cedae está começando a abrir a Elevatória de Lameirão para visitação, e acho bem interessante levar lá, inclusive, as crianças. Pode ajudar a ampliar o contato – por consequência, o respeito – a todas as coisas que nos cercam.

Não é um milagre, não acontece do nada. Para que a água jorre no momento em que se abre a torneira de casa – para a parte da população que tem esse direito – é necessário uma estrutura projetada por homens. É bom conhecê-la. E a visita pode ter um valor agregado: será possível, também, conhecer detalhes da origem do Sistema Guandu e ver de perto toda a maquinária que o envolve.

Olhar as fotos da construção, expostas na recepção da construção, nos leva a refletir sobre o quanto já fomos capazes de obras imensas, mesmo sem a tecnologia de hoje, tão decantada como a “grande solução” de todos os nossos males.

Amplio o pensamento para o mundo do trabalho.

Não há registro sobre número de operários mortos durante as escavações, mas as fotos mostram que,  naquele tempo, os equipamentos de proteção individual, hoje obrigatórios, não eram respeitados. Muitos operários sem camisa, sem capacete, foram capazes de abrir caminho entre as pedras. Hoje seriam substituídos por máquinas, será?

Um relatório divulgado em 2017 pela consultoria McKinsey Gobal Institute dá conta de que entre 400 e 800 milhões de pessoas em todo o mundo serão afetadas pela automatização. Essas pessoas terão que encontrar uma outra forma de ganhar a vida até 2030.

Numa reportagem publicada por Ana Paula Evangelista em EPSJV/Fiocruz no dia 5 de julho de 2018 há ainda um outro estudo, desta vez feito por brasileiros e apresentado no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, naquele mesmo ano. Nos países cobertos pelo estudo, diz o documento, as tendências atuais podem levar a um impacto líquido de mais de 7,1 milhõespostos de trabalho perdidosentre 2015 e 2020 – dois terços dos quais estão concentrados em funções rotineiras de escritório e administração.

Em contrapartida, ainda segundo o texto, haverá um ganho total de dois milhões de empregos nas áreas de computação, matemática, arquitetura e engenharia. O relatório resulta de uma pesquisa feita pelos 300 maiores empregadores do mundo, responsáveis por 13 milhões de empregos no planeta.

Ou seja: noves fora, vamos sair perdendo. Tempos difíceis.

*Este texto foi publicado originalmente no site da Casa Monte Alegre

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Sobre a COP e os direitos humanos

Tenho estado longe aqui do blog nessa época de COP 27 porque estou escrevendo para o site #Colabora.

Vou indicar aqui os dois textos que já estão publicados:

e

Mas hoje preciso escrever sobre o discurso do presidente eleito Lula da Silva na COP27. Não consigo deixar de compartilhar aqui com os meus leitores uma fala histórica.  Desde 2003, quando comecei a estudar o tema do desenvolvimento sustentável eu acompanho essas conferências, fóruns e encontros que têm o clima como foco. Algumas delas conseguiram acordos, quase todos cumpridos apenas em parte ou descumpridos totalmente.

O Egito foi o palco da volta do Brasil à cena internacional. Trazendo  para o debate o cerne da questão climática. Não se trata apenas de salvar as árvores para que elas possam fazer seu benfazejo trabalho de sequestrar o carbono que nos faz tão mal. Não se trata apenas de salvar as vidas de animais que precisam ter seu habitat salvo.

Trata-se de tudo isso, mais além: é de vidas humanas que se está falando. É de desigualdade social, é de fome, de miséria e de uma tremenda vulnerabilidade à qual estão submetidos milhões de seres humanos.

Lula mencionou os países insulares. São 43 pequenas nações no Pacífico, muitas que são apenas uma grande faixa de terra, e que por causa da elevação do nível do mar vão desaparecer. Isto não é pouco.

Segundo o relatório norte-americano Climate Science Special Report, desde 1993 o mar já se elevou sete centímetros. Desde 1900 são 18 a 20 centímetros. Pode parecer pouco, mas sobretudo quando há ressaca, este pouco torna-se muito.

Lula fez o link necessário: entre os eventos climáticos e a pobreza. Entre o paradoxal gasto de trilhões de dólares com a guerra enquanto há 900 milhões de pessoas em todo o mundo que não têm o que comer.

Falou sobre paz e mencionou bem estar. Não se esqueceu de valores civilizatórios e de respeito aos direitos humanos. E disse que estará a postos, como líder que hoje é ouvido e aclamado pelo mundo, para cobrar os compromissos assumidos.

Por causa do discurso de Lula, portanto,  a COP27 não será uma retórica inútil, como denuncia a jornalista e ativista ambiental canadense Naomi Klein.

Por falar em Naomi Klein, outro assunto importante da COP, que abre a primeira matéria que escrevi para o Colabora, é a greve de fome do preso político Abd El-Fattah, cidadão britânico-egipcio. O fato põe às claras questões sérias de violações de direitos humano no Egito. A tal ponto que Naomi Klein, ativista ambiental, decidiu fechar seu twitter para qualquer assunto que chegue por parte das lideranças que estão nos debates da COP. Ela só noticia a manifestação de Abd El-Fattah e dá conta da existência de cerca de 700 presos políticos no país.

Não vivemos tempos fáceis.  

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Tormenta com mortes no Paquistão e gastos com guerras aumentam a frustração no ano das efemérides sobre o meio ambiente: quem paga a conta?

No início deste ano, os ambientalistas – e as pessoas que, como eu, trabalham e estudam o ecosociodesenvolvimento – esperavam grandes comemorações. Afinal, meio século atrás acontecia, na capital sueca, a primeira grande reunião organizada pelas Nações Unidas que se concentrou em questões de meio ambiente. E trinta anos atrás fora convocada a Rio-92, também pelas Nações Unidas. Mega incensada pela mídia, a Rio-92 consagrou o termo “desenvolvimento sustentável” que tinha sido cunhado dois anos antes, quando foi publicado o relatório Brundtland, ou “Nosso Futuro Comum”.

A foto mostra a plenária da Conferencia de Estocolmo em 1972. Foi tirada do site Conselho Regional de Biologia da 7ª Região – Paraná

Ocorre que nada disso chegou a mobilizar muito. Em junho, uma tímida reunião lembrou os 50 anos da Conferência de Estocolmo. Debaixo de ombrelones, para se protegerem da chuva fina que caía, algumas autoridades se reuniram para comemorar a data e, como sói acontecer, lembrar que o “mundo ainda vive grandes desafios para se livrar dos combustíveis fósseis”. Seguiram-se quatro sessões plenárias, três diálogos de liderança, centenas de eventos paralelos, webinars e a criação de um site. 

Aqui no Rio, a Prefeitura preparou um evento chamado Rio+30, fez lançamento no Museu do Amanhã, mas em julho decidiu cancelar, segundo o site, “para evitar que um evento dessa magnitude interfira no processo eleitoral deste ano”.

Não sei quanto a vocês, mas eu esperava ocasiões em que, de fato, o tamanho do problema ambiental que estamos enfrentando fosse debatido com a urgência que merece.  Como se não bastasse, eis que surge uma notícia alarmante: o novo governo – conservador – da Suécia anunciou esta semana o fim do Ministério do Meio Ambiente na formação do Executivo.

“Desde 1987, o país nórdico tem um ministério separado para tratar dos temas ligados ao meio ambiente. Esse legado agora é posto em xeque depois de o primeiro-ministro Ulf Kristersson decidir que a nova responsável pela agenda ambiental, Romina Pourmokhtari, de 26 anos, se reportará ao Ministério de Negócios e Energia, sob comando da vice-primeira ministra Ebba Busch”, diz a reportagem da Bloomberg publicada no site do jornal O Globo do dia 19 de outubro.

Vou poupá-los de mais comentários a respeito desta iniciativa do conservadorismo em destruir o ícone do meio ambiente e tudo o que isto representa.

No momento, estamos às vésperas de mais uma Conferência das Partes sobre o Clima, a COP27, que vai acontecer na cidade de Sharm El Sheikh, no Egito, de 6 a 18 de novembro. Naomi Klein, a ativista ambiental canadense que já apontou como “retórica inútil” – não sem razão – alguns dos debates que recheiam as COPs, acaba de divulgar um artigo no jornal britânico “The Guardian”, em que denuncia: “O Egito de Sisi (atual presidente daquele país) está fazendo um grande show de painéis solares e canudos biodegradáveis ​​antes da cúpula climática do próximo mês – mas, na realidade, o regime prende ativistas e proíbe pesquisas”.

Para deixar claro o tamanho do problema que não está sendo resolvido, sequer atenuado, conferências após conferências, Naomi Klein cita as inundações que deslocaram 33 milhões de pessoas no Paquistão e mataram 1,2 milhão um mês atrás.

Enquanto isto, e aí o comentário é meu, as nações ricas estão envolvidas em guerras de territórios, de quem tem mais poder, e sobre qual cultura vai prevalecer entre as demais. Bilhões de dólares estão sendo investidos em armas, munições e infraestrutura que poderiam aliviar a tragédia em países pobres alvos de eventos extremos.

Este é o tamanho da minha frustração. Alguém compartilha?

Publicado em Uncategorized | Marcado com | Deixe um comentário

Sobre natureza e política

Morreu Bruno Latour. A amiga Luciana Medeiros perguntou-me, logo cedo pelo WhatsApp, se eu o conhecia. Busquei na estante o livro “A política da natureza”, escrito por ele em 2004, que chegou ao Brasil, editado pela Unesp, em 2019.  Reli alguns pedaços e, à medida que o dia foi passando, fui me aproximando novamente do pensamento do antropólogo francês, conhecido  como o filósofo da ecologia política. Latour ofereceu ao mundo, enquanto esteve por aqui, chances inauditas de reflexão sobre nosso modelo de bem viver, inclusive durante o isolamento provocado pela pandemia da Covid19:

“Estamos dentro da terra, não em um espaço infinito. É algo que sabíamos, mas havíamos esquecido”, disse ele em entrevista.

Não se sabe ainda o motivo da morte de Latour.

Estranhamente, ao mesmo tempo que, enquanto fazia as tarefas cotidianas, a memória do que eu havia lido sobre Latour ia se ampliando, outro pensador passou a me rodear: Baruch Spinoza. O filósofo holandês escreveu um tratado sobre a Ética, no século XVII. Ainda tão atual.

Spinoza foi anatemizado pela forma como compreendia Deus: “Compreendo um ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consiste de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita”.

Vou ousar resumir: para Spinoza, Deus “é” todas as coisas. Não “está” em todas as coisas. A natureza, portanto, é Deus. Os seres, que agora conhecemos como biodiversidade, todos, são Deus. E isto muda muita coisa. Porque nos empodera, nos põe num lugar responsável. Ética, para Spinoza, é relação com todo o nosso entorno.

Talvez por ser domingo, por estar chovendo, talvez por estarmos vivendo um período extremamente delicado, sensível, da política, fixei-me numa frase inicial de “Políticas da natureza”, o qual recomendo a leitura. Diz Latour: “Não existe, de um lado, a política e, de outro, a natureza”. É, portanto, uma questão de relação. Ou, como queria Spinoza, de ética.

Nos últimos quatro anos, sabemos bem que este princípio não foi, nem de perto, preservado pelos ocupantes do poder em Brasília.  O saque à natureza foi de tal maneira que até mesmo as Unidades de Conservação têm tido sua vegetação alterada, segundo estudo feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado hoje no G1. Sob o leite derramado, não se chora. Sendo assim, vamos adiante.

Fiquei satisfeita quando li, no programa de governo do ex-presidente Lula, a menção a “produzir e consumir de forma sustentável e mudar o padrão de produção e consumo de energia no país, participando do esforço mundial para combater a crise climática”. Fiquei satisfeita também quando a senadora Tebet, agronegocista que está apoiando a candidatura Lula, chamou de “tese equivocada” , aquela que diz que agronegócio e meio ambiente são opostos. Tebet afirma: “sem chuva não há safras”. Portanto, há prejuízo.

Estamos falando sobre política, meio ambiente e economia, tudo num pacote só. Se não for retórica inútil – perdão a todos, mas temos o direito de desconfiar – o momento pode estar corroborando o pensamento de Latour:

“Agora que os movimentos ecológicos nos anunciam a irrupção da natureza na política, será necessário imaginar, o mais das vezes com eles e algumas vezes contra eles, o que poderia ser uma política enfim livre desta espada de Dâmocles: a natureza”, escreveu ele.

Termino querendo agregar com o pensamento de outro ecologista, o Papa Francisco. Em sua Encíclica, publicada em 2015, chamada “Laudato Si”, ele faz uma rigorosa visita às questões climáticas e da natureza. E lembra, no primeiro capítulo, a fraqueza da reação política internacional  para assegurar a proteção dos ecossistemas.

 Papa Francisco explicita a necessidade de “construir lideranças que apontem caminhos” , garante que “não existe só um caminho de solução”.  E adverte sobre o equívoco de se pensar a biodiversidade como um “reservatório de recursos economômicos que poderia ser explorado”.

O valor real das coisas é que precisa ser considerado, diz o Papa. Estamos neste momento.

Precisamos voltar a dar valor ao ser, ao outro, àquilo que podemos fazer, no coletivo, contra o mal maior. Quer este mal esteja personificado num político anti-democrático, quer nos eventos extremos causados por danos à natureza. É nossa responsabilidade também.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

‘Ser estrangeiro’, um livro que ensina a viver o lugar do outro

Imagine-se no lugar do outro.

Imagine-se vivendo uma situação semelhante ao que o outro vive.

Imagine-se…

Convidar o leitor para viver, na ficção, o que o outro vive na real, é uma receita amorosa de escrita.

E é desse jeito que o autor João Paulo Charleaux conquista seus leitores para o livro “Ser estrangeiro” (Ed. Claroenigma, 2022). Um tema dos mais sofridos, que mostra a face mais individualista dos humanos, recebe um tratamento ao mesmo tempo didático e muito sensível.

Dá vontade de espalhar este livro entre jovens, se  assim garantíssemos alguma melhora na forma preconceituosa com que se tratam os estrangeiros.

João Paulo Charleaux tem uma vantagem sobre outros autores: observa, conversa, e tem aquele ímpeto, comum aos jornalistas, de espraiar a informação. Assim, começa o livro relatando o que vem observando, várias cenas tristes de um balé urbano que já é quase rotina em nossas vidas. O preconceito invade como peste: da senhora letã que pede esmolas sob a neve, à estupidez de um passageiro num trem de Metrô, na França. Embriagado, o sujeito ataca verbalmente pessoas negras que estão no mesmo vagão.

Combinei comigo, lendo Chalraux, nunca mais usar “que bárbaro!” como expressão alegre para enaltecer alguém ou algum feito. Não! Bárbaro, em grego, significa estrangeiro.

“Para o Império Romano, todo estrangeiro era um inimigo por sua própria natureza. Isso significa que, mesmo que não tivesse cometido  qualquer ato hostil contra Roma, ele era, mesmo assim, um inimigo, pelo simples fato de ser de outro lugar”, escreve Chalraux.

Sou, eu também, filha de estrangeiro que se exilou no Brasil e precisou se naturalizar para conseguir um emprego. E cresci ouvindo: “Minha filha, nunca queira se tornar estrangeira. As pessoas não te tratam bem”.

Desde quando? Desde o Império Romano!

Por acaso estive envolvida recentemente com a leitura de “A situação da classe operária na Inglaterra” (Ed. Boitempo), escrito em 1845 pelo então jovem Friedrich Engels (ele tinha 24 anos). Em todo o livro aparecem referências aos irlandeses, que competiam com os britânicos mesmo a péssima situação em que moravam, se alimentavam e se vestiam. Os irlandeses não gozavam de simpatia, e Engels deixa isso claro. Eram os que mais bebiam, os que menos se higienizavam e os que ensinaram aos britânicos hábitos ruins, entre eles o de andar descalço.

Já no meio do século XIX, a humanidade não suportava os estrangeiros. Mas é uma contradição porque, como lembra Charleaux,  somos seres que se movem.

 É no movimento que os humanos buscam conhecimento e novas experiências. Mas, diferentemente, das aves e dos ruminantes, que vão e voltam sempre ao mesmo lugar, nossa população busca destinos promissores. E, em geral, se junta em cidades, que ficam mais e mais superlotadas. Tudo bem, porque é desse jeito mesmo que somos mais criativos.

Só não podemos aguentar a fome, as guerras, os eventos extremos que destroem nossos lares, muitas vezes nosso país (como é o caso das nações-ilhas do Pacífico, ameaçadas de serem mergulhadas no oceano por causa do aumento do mar).

Charleaux passeia pelos conceitos de ser estrangeiro. O migrante, o exilado, o deslocado, o asilado, o refugiado. Cada um desses conceitos é esmiuçado à lupa dos Direitos Humanos assinada em 1948.

“Os ‘combinados’ assinados entre os diversos governos são, portanto, como chaves que tornam possível abrir as portas para as pessoas em necessidade. Essas chaves não são um presente, não são uma esmola. Não são dadas por pena ou por caridade. São direitos”, afirma o autor.

O ponto alto do livro de Charleaux é quando ele convida o leitor a imaginar. Imagine você vivendo num condomínio que, por circunstâncias tais que ele descreve, vítima de uma explosão, se vê inundado depois de uma chuva, sem luz, onde os vizinhos brigam entre si, onde há corrupção do síndico e, para piorar a situação, um mata outro e o corpo fica estendido no corredor.

O que fazer? Correr dali, é claro.

Imagine mais. Que, ao correr dali, você consegue  chegar ao prédio mais alto e chique, na mesma rua. Mas lá… não lhe recebem. Seguranças dizem não ao seu pedido para entrar, mesmo vendo sua situação: todo molhado, já desesperado, sem casa, sem documentos (que se perderam na água), com fome e sede.

Imagine. Só imagine. E sinta, por um tempo ao menos, enquanto está lendo o livro, o que sente um refugiado.

Em que momento a civilização humana se desapegou de sentimentos solidários, aqueles mesmo que se aprende quando criança? Em que momento as coisas passaram a ter mais importância do que as vidas?

Há uma moral na história contada por Charleaux, o que ratifica o método quase didático. Ele incita o leitor a conhecer novas culturas, e dá um exemplo simples: se você gosta de comida japonesa, é certo que essa gastronomia chegou ao Brasil trazida por migrantes.  

E mais: contra o preconceito, use informação. Não poderia dialogar mais com tudo o que se sabe, e estou cem por cento de acordo.

De minha parte, colaboro quando produzo conteúdo e espalho as notícias.

A notícia de hoje é esta: o livro de Charleaux merece um lugar na estante, sobretudo dos jovens que estão agora começando a caminhar. Eles  precisam se livrar de ideias, expulsar o ranço dos pensamentos antigos e abraçar, finalmente, o respeito ao outro, à diversidade. Sem que isto seja apenas uma retórica inútil.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

‘Festival Dia da Amazônia’: arte para celebrar e refletir sobre o impacto que provocamos na maior floresta tropical do mundo

Dois anos depois de ter levado o Maracanã à loucura com um show memorável, o roqueiro Sting encontrou-se com o cacique indígena Raoni, da etnia caiapó, em Altamira, no Pará. O ano era 1989, nascia ali uma parceria que correu mundo e décadas.  Sting se comprometeu para valer com a luta pela preservação da Amazônia e se mostrou solidário à preservação das terras indígenas, elegendo Raoni como seu parceiro. O roqueiro e o cacique percorreram mundo e conseguiram levar holofotes a uma questão que hoje, infelizmente, continua sendo emergencial.

A foto foi tirada por mim durante minha viagem em 2015 ao Arquipélago do Bailique, que fica na Amazônia profunda

Muitos anos depois da cruzada de Raoni e Sting, em 2007, a Amazônia ganhou uma efeméride para comemorar. Desde então, segundo a Lei nº 11.621, de 19 de dezembro,  o dia 5 de setembro foi instituído como “Dia da Amazônia”, já que foi nesta data, em 1850, que D. Pedro II criou a província do Amazonas.

Faltava, porém, uma comemoração em grande estilo. Não falta mais. A partir deste ano, anualmente o Dia da Amazônia será celebrado com um festival que reunirá atividades culturais, fortemente marcado com músicos que encantam com toadas bem regionais.

Quem sabe um dia Sting se junte?

 Enquanto isto, nossa celebração da Amazônia ficará por conta de nomes como Gabi Amaranto, Geraldo Azevedo, BaianaSystem, BK’, MC Carol e MC Rapadura, que se apresentarão a partir de 3 de setembro em shows gratuitos em oito cidades.  Com o nome de Festivais Dia da Amazônia 2022 (http://festivaisdiadaamazonia.com.br/), a iniciativa está sendo produzida por diversas organizações socioambientais.

O show de abertura vai ser em São Paulo, no dia 3 de setembro, com Gabi Amarantos e outros convidados. No mesmo dia vai acontecer um show em Belém, e assim vai até o dia 10 de setembro. No site tem a programação toda.

Além dos festivais, está sendo organizada a Virada Cultural Amazônia de Pé (https://virada.amazoniadepe.org.br/), conduzida pela Campanha Amazônia de Pé (https://amazoniadepe.org.br/). A programação da Virada reúne mais de 400 ações descentralizadas por todo o país, como oficinas, cine-debates, rodas de conversa e outras atividades organizadas de maneira autogestionada por seus proponentes.

É bom celebrar a efeméride com com música e arte.

Mas é importante também prestar atenção em alguns dados sobre a região:

– Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia constataram, em estudo divulgado em julho deste ano, que o desmatamento na Amazônia registrou recorde nos seis primeiros meses deste ano.

– Grande maioria do desmatamento é feito por atividades ilegais.

– A pecuária é ainda a principal responsável por 80% da destruição da cobertura florestal do bioma Amazônia, que representa 48% do território nacional, possui 4,2 milhões de km2, e é definido como um conjunto de fauna, flora, florestas úmidas, extensa rede hidrográfica e enorme biodiversidade. E são essas propriedades as principais responsáveis pelo fogo que vem transformando a floresta em pasto.

– A Amazônia Legal tem 5 milhões de km2 e inclui o bioma Amazônia, parte do Cerrado e Pantanal, todos os estados da Região Norte, Mato Grosso e parte do Maranhão. Ela representa 59% do território nacional.

– Há 50 anos, quando aconteceu a primeira Conferência Mundial do Ambiente Humano em Estocolmo, convocada pela ONU, a população da Amazônia Legal era de cerca de 7 milhões. Hoje é de 28 milhões.

Manter a floresta em pé significa, em primeiro lugar, respeito à vida dessas pessoas. Desmatamento causa mais emissões de carbono, que contribui para as mudanças climáticas. E as mudanças climáticas causam eventos extremos: no caso da Amazônia, seca – que provoca falta de alimentos, migrações em massa.

Mas, se preferirem, podemos falar em economia. Publicado em 2009, na sequência do Relatório Stern – primeiro estudo que aponta vulnerabilidades econômicas por conta das mudanças climáticas – o Economia das mudanças do clima no Brasil, custos e oportunidades mostra que poderá haver redução de 40% da cobertura florestal na região sul-sudeste-leste da Amazônia, que será substituída pelo bioma savana em 2100.

“Uma perda de 12% das espécies de vertebrados da região mais biodiversa do planeta já seria um valor expressivo, mas, quando associado ao desmatamento projetado, o impacto da mudança do clima na biodiversidade leva a um quadro catastrófico de extinção de cerca de um terço das espécies”, diz o estudo, reproduzido por Fabio Feldman em seu livro “Sustentabilidade planetária: onde eu entro nisso?”.

O custo de não se fazer nada é calculado pelos pesquisadores e alcançaria uma cifra de R$ 719 bilhões a R$ 3,6 trilhões para a economia brasileira.

Hoje temos acesso a mais informações de qualidade, o que pode ser uma alavanca para provocar mudanças. E reflexões. É para o que servem as efemérides e as comemorações.

Grupo de Manaus – Casa de Caba – foto de Divulgação
MC Carol, de Belém – Foto de Divulgação
Geraldo Azevedo vai cantar no Rio de Janeiro – Foto de Divulgação
Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

A lista vermelha das espécies em extinção na cidade maravilhosa

Com otimismo, podemos dizer que nossa era  avançou bastante em tecnologia de dados. Com pessimismo, precisamos constatar que nem sempre uma profusão de dados adianta alguma coisa para se mudar o cenário. Seja ele ambiental, humano.

Esta belíssima foto de um mico leão dourado é do fotógrafo e amigo Custódio Coimbra

Nesta semana, a Secretaria de Ambiente e Clima do Município do Rio de Janeiro divulgou a informação de que retomou a divulgação das listas das espécies nativas de fauna e flora ameaçadas de extinção na cidade. O último relato desses foi divulgado exatamente há 22 anos, na virada do século. No trabalho atual executado por uma comissão de pesquisadores e especialistas da área em outros órgãos, listaram-se 348 espécies da flora ameaçadas de extinção e 174 espécies da fauna que estão sob o mesmo risco.

Cará, Palmito Jussara, Pau-Brasil (sim! Ele, que deu nome ao país!) , onça parda, jacaré-de-papo- amarelo, o nosso velho conhecido mico leão dourado e o macaco bugio ruivo são algumas das espécies que, possivelmente, daqui a algumas gerações não serão mais visto na natureza. Diz o informe da Secretaria de Ambiente:

“Vale destacar que o Rio de Janeiro possui mais de seis mil espécies nativas registradas, dentre fauna e flora, e pode estar entre as cidades mais ricas em número de espécies no Brasil e no mundo”.

Confesso que não sei muito bem o que podemos fazer, de posse dessas informações, a não ser entristecer. O que deu errado, quando paramos de ouvir a nós mesmos, desde a primeira Conferência do Meio Ambiente, que aconteceu na capital sueca em 1972?

Tenho aqui na minha estante o pequeno livro “Only one Planet – The Care and Maintenance of a Small Planet” (“Um só planeta – o cuidado e a manutenção de um pequeno planeta”, em tradução literal), escrito por Barbara Ward e René Dubos após a Conferência de Estocolmo. Naquele tempo, em que ainda não tínhamos tanto acesso a dados como agora, o hábito era ler livros em papel.

O prefácio do relatório/livro foi assinado por Maurice Strong, secretário da Conferência, que depois se tornou diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Segundo ele, o texto é “o resultado de um experimento único de colaboração internacional”.  Quatorze anos depois, Strong ajudaria em outro relatório feito a várias mãos, que se chamou “Nosso Futuro Comum”, encabeçado por Gro Brundtland, então ministra da Noruega.

Uma leitura bem atenta dos dois textos mostra claramente a gradação da percepção humana com relação aos problemas que teríamos que enfrentar, considerando que os bens naturais não são finitos. É interessante notar que os autores, representantes de nações (no caso do texto de Estocolmo, de 58 países, e 21 na Comissão Brundtland) tinham uma visão bastante crítica à miséria, à prosperidade que só atingia algumas nações. Ainda não tinha viralizado a expressão desigualdade social, mas era do que se tratava.

A extinção das espécies, que é o que nos interessa neste texto, só entrou no radar de preocupação global em 1986, no relatório que criou a expressão “desenvolvimento sustentável”.

“Há muitas maneiras de uma sociedade se tornar menos capaz de atender no futuro às necessidades básicas de seus membros e a exploração excessiva dos recursos é uma delas. A extinção de espécies vegetais e animais pode limitar muito as opções das gerações futuras: por isso o desenvolvimento sustentável requer a conservação dessas espécies”, diz o texto do Relatório Brundtland.

E aqui estamos nós, trinta e seis anos depois, lastimando o risco de extinção, apenas na cidade do Rio de Janeiro, de 522 espécies. A lista dos ameaçados segue o critério da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN na sigla em inglês), organização criada nos anos 40, dedicada à conservação da natureza, que reconhece Maurice Strong como “líder no movimento do meio ambiente”.

No site da IUCN, há um alerta colorido que diz:

“O mundo aspira a estabilizar o declínio da biodiversidade e colocar a natureza no caminho para recuperação até 2030. A Lista Vermelha da IUCN  inclui 128.918 espécies, dos quais 35.765 (28%) estão ameaçados com extinção. Alguns grupos são reconhecidamente ameaçados: anfíbios (41%), tubarões (31%) e corais (33%) com maiores riscos de extinção desde 1990”.

Não há moral nessa história. Talvez sirva como um aviso para muitos de nós, que possamos estreitar o contato com nossa natureza ao redor, aumentando o respeito pelas coisas vivas, diminuindo o consumo de coisas mortas que só se acumulam em armários, bolsas, casas. Nem que seja para aproveitar o que ainda nos resta, e respeitar as espécies que vão surgindo. Cada um tem seu caminho, o importante é passar a perceber esta urgência.

Vou terminar este texto com um pequeno trecho do livro de David Kopenawa, o xamã yanomami que, em conversas com o etnólogo Bruce Albert, produziu o livro “A queda do céu” (Ed. Companhia das Letras). É um relato cheio de magia que dá ao leitor a noção exata do respeito que os indígenas têm pelo ambiente. Diferentemente do que pensavam os especialistas que escreveram os relatórios de 72 e 86, a ideia é que natureza e humanos são parte do planeta. Somos todos seres vivos, afinal.

“As bananas não nascem sozinhas à toa! As bananeiras são mulheres-plantas. Seus frutos nascem porque elas ficam grávidas e parem. É assim com tudo o que cresce nas roças e na floresta. As mulheres-plantas primeiro ficam grávidas. A gravidez dura algum tempo, e depois elas dão à luz. É então que seus frutos aparecem. Eles nascem como os humanos e os animais”.

*Este texto foi publicado originalmente no site da Escola Monte Alegre

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Bem Viver, o movimento que tem raízes indígenas, é apresentado em festival no Rio de Janeiro

Da direita para a esquerda: Thiago Ávila, Tucumã Pataxó e Eliane Potiguara no palco do Festival Iris

Nos dias 12, 12 e 14 de agosto, o Parque Lage, espaço verde da Zona Sul do Rio de Janeiro, recebeu o Festival Iris Pro Bem Viver. Estruturado por uma organização sem fins lucrativos, idealizado por três mulheres, o evento foi palco para ótimos pensamentos. Falou-se muito de amor, imprimindo a este sentimento tão empastelado pelo romantismo utópico, um significado diferente. Amor como respeito, não só às pessoas, mas à biodiversidade.

Falou-se também de saúde, e muito. Deu-se voz e consideração aos povos indígenas e toda a sua sabedoria milenar. Pessoas acostumadas a práticas da civilização de metrópoles fizeram contato com rituais indígenas e saíram com cheiros e cores diferentes em seus corpos.

O Festival Iris foi criado com a proposta de lançar um olhar ancestral para o futuro. Faz sentido este paradoxo. Estive lá no sábado (13), e gostei de ouvir a Eliane Potiguara, poeta, professora e embaixadora universal da Paz em Genebra, chamar a atenção dos presentes para o fato de que nada muda se cada um não proporcionar a si próprio uma experiência de mudança. Uma que seja.

“Estou na sétima década da minha vida e posso lhes garantir que a gente começa a transformação, primeiro, dentro de nós”.

Tucumã Pataxó foi o segundo indígena a falar. E definiu assim o Bem Viver, principal mote do encontro no Parque Lage:

“O Bem Viver é aprender a viver com nossos mais velhos. E a respeitá-los. Eles são livros vivos”, disse.

O socioambientalista e ativista ambiental Thiago Ávila foi o próximo palestrante. De pés descalços, calças enroladas até as canelas, sorriso eterno no rosto, o jovem Thiago, de 35 anos, apresenta-se como um socioambientalista e fala sobre desigualdade, sobre o sistema opressor, sobre trabalho explorado e degradação ambiental.

“A sociedade que explora e oprime é a mesma que causa destruição da natureza”, alerta ele.

Thiago é de Brasília, tem uma vida de luta contra a degradação ambiental e planeja construir o Poder Popular trilhando um caminho que ainda é recente para o Brasil, mas que já deu certo em alguns países, o mandato coletivo. Sumariamente, trata-se de uma forma de exercício de cargo eletivo legislativo, em que o representante se compromete a dividir o poder com um grupo de cidadãos.

Thiago conheceu o Bem Viver em 2016, na Bolívia, na posse do então presidente Evo Morales.

“É um caminho que nega a ideia de um desenvolvimento pintado de verde ou de rosa. É uma lógica contrária à forma de vida que explora a força de trabalho e a natureza, onde tudo é justificado pelo fundamento do desenvolvimento’, disse Thiago.

Já eu, fiz contato com o Bem Viver pela primeira vez através do livro de Alberto Acosta lançado no Brasil em 2016 pela Editora Elefante. Acosta é economista e foi Ministro no Equador e um dos responsáveis pelo plano de governo da Alianza País, partido encabeçado por Rafael Correa, que governou aquele país de 2007 a 2017. Acosta dirigiu os trabalhos da primeira Assembleia Constituinte do planeta que reconheceu direitos à Natureza. Ele tentou implantar no país o Bem Viver como instituição, mas não conseguiu. Distanciou-se de Correa, fazendo críticas dos desvios no processo que ajudara a instalar.

A leitura de “Bem Viver” é um mergulho num pouquinho de saúde. O conceito, que também pode ser chamado de movimento, retrata um mundo novo, ainda em construção, desenhado com outras formas de organização social e práticas políticas. A filosofia indígena é a essência do Bem Viver.

Seguem alguns pontos do livro que podem ajudar a entender melhor o conceito:

“Para obter essa transformação civilizatória (Bem Viver), é preciso inicialmente desmercantilizar a Pacha Mama ou Mãe Terra, como parte de um reencontro consciente com a Natureza. É um desafio especial para quem vive nas cidades – que se encontram, no mínimo, distantes da natureza. Os habitantes das cidades devem entender e assumir que a água, por exemplo, não vem dos supermercados ou da torneira”.

“A economia deve submter-se à ecologia. Por uma razão muito simples: a Natureza estabelece os limites e alcances da sustentabilidade e a capacidade de renovação que possuem os sistemas para autorenovar-se. Disso dependem as atividades produtivas. Ou seja: se se destrói a Natureza, destroem-se as bases da própria economia.”

“Precisamos de um mundo reencantado com a vida, abrindo caminhos de diálogo e reencontro entre os seres humanos, enquanto indivíduos e comunidades, e de todos com a Natureza, entendendo que todos os seres humanos formamos parte da Natureza e que, no final das contas, somos Natureza”.

São pensamentos simples, no fim e ao cabo. Não simplórios, com querem os economistas e pensadores ortodoxos, para quem qualquer mudança precisa trazer em si a teoria do leopardismo: mudar para que tudo continue a mesma coisa.

O Festival Iris foi uma boa oportunidade para essas reflexões.

*Este artigo foi publicado originalmente no site da Escola Monte Alegre

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Moradores de Laranjeiras se unem contra mais uma megaobra que vai causar forte impacto no bairro

Mais um empreendimento imobiliário de mega porte numa rua já tão congestionada como a Rua das Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro, está deixando inquietos os moradores. É o local onde os empreendedores imobiliários pretendem erguer seis prédios em um terreno de 50 mil metros quadrados que hoje abriga o Palacete Modesto Leal, construído entre 1904 e 1905.

 Como o palacete é tombado pela Prefeitura, ele vai ser preservado. Já não se pode dizer o mesmo com relação às árvores de seu entorno, um trecho bonito, um oásis em meio à barulheira asfáltiva do local. Um projeto de lei do Deputado Carlos Minc (PSB), que atende aos pedidos das associações de moradores de Laranjeiras (Amal) e da Rua Alice (Amaralice), se aprovado, prevê tombar o terreno todo, não só o prédio.

No sábado passado (13), os moradores fizeram um ato para angariar assinaturas e chamar atenção das autoridades. Carlos Minc esteve lá e contou mais uma triste novidade sobre o condomínio que as empresas querem erguer ali:

“Ficamos sabendo que no projeto consta uma garagem subterrânea e que isto não vai levar em conta o impacto que poderá causar no Rio Carioca, que passa por ali debaixo da terra. Ou seja: isto faz parte de uma luta mais ampla, pela preservação do verde, contra as inundações. Porque as árvores não são apenas importantes porque trazem sombra e abrigam pássaros, elas também seguram a água das chuvas. Ou seja: quem desmatar essas árvores e causar impacto no Rio Carioca está cometendo um crime ambiental”, disse o deputado.

No ato da manhã ensolarada de sábado, faixas estendidas pelos moradores pediam o fim da especulação imobiliária.

É a chave para reflexões.

Segundo a ONU Habitat, em 2050 seremos 68% da população mundial morando em cidades.

“As cidades são desiguais porque são lugares muito agradáveis ​​para ser rico e são lugares menos intoleráveis ​​para ser pobre”, escreve Edward Glaeser, economista de Harvard e renomado urbanista, autor de “Os Centros Urbanos – A maior invenção da humanidade” (Ed. Campus, 2011).

Ao mesmo tempo, como lembra a também urbanista Raquel Rolnik em seu recém-lançado “Guerra dos Lugares” (Ed. Boitempo), estamos em meio a um longo processo de desconstrução da habitação como um bem social “e de sua transmutação em mercadoria e ativo financeiro”.

O cenário, portanto, une a sanha imobiliária ao crescente número de pessoas que precisam de moradia e à também crescente miséria – o Censo de 2022 dá conta de que existem quase 185 mil pessoas morando nas ruas em todo o país. Não sobra muito espaço para achar bom morar em megalópoles, sobretudo porque há também a questão ambiental, como bem pontua Minc no caso da chácara que vai ser impactada.

Tem solução?

Criar outros espaços pode ser uma solução. Pensar em moradias mais compactas, operacionais. Que se possa privilegiar os espaços verdes deixando-os para todos, nas cidades, do que transformá-los em meros jardins que servirão apenas como enfeite a poucos.

 É uma visão diferente, mais realista, que considere o espaço urbano como um território verdadeiramente para todos. Como diz Glaeser em seu livro, as grandes cidades exercem uma forte atração sobre os humanos. É neste espaço que se consegue criar. Precisamos uns dos outros para trocar impressões, aprender, ensinar. Somos gregários.

Mas é preciso que se tenha uma visão de cidades inclusivas, com transporte público eficiente, rede de esgoto, escolas e hospitais espalhados por toda parte. É engraçado, por exemplo, ver o anúncio de que haverá uma garagem enorme no novo condomínio em Laranjeiras, talvez com lugar para dois carros para cada morador.

Alguém pensa no impacto que vai ser na malha urbana quando tantos carros saírem de sua luxuosa garagem e se tornarem apenas mais um veículo a entupir as ruas?

 Tenho a forte impressão de que o tema não é ainda prioritário, nem mesmo para os candidatos que começam agora a apresentar suas propostas.

É sempre bom, portanto, ver a sociedade civil se mobilizando neste sentido, porque pode ser um bom começo.

Publicado em Uncategorized | Marcado com | 2 Comentários

No tempo da delicadeza

A manhã transcorria pertencida daquela falsa normalidade que nos deixa com a alma aquietada.

Escolhi a ladeia para me afastar do burburinho. A foto é de Amelia Gonzalez

Não tinha caminhado nem cinco minutos, porém, quando ouvi um latido forte de cachorro angustiado, nervoso. Sou intensamente afetada por cães. Sinto a angústia deles na voz, e isto já me tirou da falsa normalidade.

“A manhã começou tensa”, pensei.

Na sequência, vejo o rapaz sair com o carrinho de sua bebê, que chamava pela mãe. Pouco atrás, a mãe, de sandálias de dedo, uma jovem bem bonita que vi grávida, equilibrava nas duas mãos suas duas vira-latas. Uma delas, a de latido angustiado.

Seguiram em frente. Estamos acostumados a nos desejar bom dia, mas achei que não seria de bom tom, naquele momento. Quando a tensão ronda a gente, fica chato ver alguém com ares de monge do Himalaia.

Bom dia? Como assim? Quais são suas fontes? Quem te garante?

Fui arrastando Beto, meu cão, que já estava prestes a arrumar treta com a vira-lata angustiada. Nem pensar, amigo. Não é hora disso.

Na esquina seguinte, alguém falava ao telefone celular. Àquela hora da manhã, já num tom de voz acima, explicava-se pelo atraso.

Eram 7h30m!

Fiquei nostálgica. Como era bom o tempo em que a gente saía pelas ruas sem ser monitorado, vigiado, seguido, por um dispositivo. Se chegasse atrasado, a situação se resolvia no instante da chegada.

Naquele tempo a gente ouvia, falava, ouvia. E fazia hiato entre um e outro momento.

Preferi o caminho da ladeira para me afastar um pouco do burburinho. Busquei ouvir o som dos pássaros, focar meu olhar nas árvores que formam um lindo rizoma lá no alto da pedra. Mas se engana quem pensa que só tem serenidade na natureza. É preciso lidar com o tempo da tensão, intercalar com a calmaria.

              “Os morros se andorinham longemente…

                Eu me horizonto”

                                         Manoel de Barros

Busco fazer conexão com a minha respiração. O ar entra pelo nariz, enche a barriga e sai pela boca. Uma, duas, três vezes… e o corpo vai se tornando pleno de uma certa tranquilidade.

Passo por um vizinho que procurou bater papo, e aceito. Jogar conversa fora, falar sobre o instante, pode ser bom para desestressar. Mas ele foi além. E me lembrou da viagem da presidente da Câmara estadunidense Nancy Pelosi – a segunda no comando da nação mais rica do planeta – a Taiwan, pura provocação à China. Como se nos Estados Unidos tudo estivesse muito bem resolvido, ah, então vamos cuidar de ampliar nossa capacidade de ter dispositivos eletrônicos (para quem não sabe, pesquise, foi esta a razão da viagem). Mais dinheiro gasto com armas do que com educação! Mais dinheiro com tecnologia do que para dar bem-estar à população!

Pronto, o efeito esponja de novo. A tal lucidez me perseguindo, como se eu não tivesse um momento que fosse próprio meu, a conversar com plantas, pedras, pássaros.

            “A voz de um passarinho me recita”

                                             Manoel de Barros

O mundo pertencido a líderes que só enxergam uma forma de vida: aquela que possui dinheiro, coisas, tecnologia. Mais, mais e mais.

O valor da vida fica em outro lugar, e nem consigo imaginar… na cabeça de um líder que investe dinheiro e paga equipe, drones, armas, para matar um único homem, chamado de “o terrorista mais procurado”. E depois vai à televisão para se vangloriar disso… não consigo imaginar o valor da vida para uma pessoa dessas.

A conversa com o vizinho, como vocês podem imaginar, não prosperou muito. Segui meu caminho, buscando na pedra, nas árvores, no canto de cada passarinho, meu desejo de me acalmar.

Na volta para casa ouvi um filho pequeno brigando com a mãe, que tentava fazê-lo abandonar a televisão para ir à escola. Ele gritava, ela gritava.

Tantas vezes vivi a mesma cena! Deu vontade de dizer a ela: “Educar é a arte do impossível, querida. Mas no fim, dá certo”.

Meu filho hoje tem 40 anos. E é um ser. Um ser sensível. Não sei se ajudei ou atrapalhei. Mas dei-lhe a vida. E ele respeita cada momento desse regalo.

Voltei para casa e recebi a notícia de uma amiga, dizendo-me que sua mãe partira. Eu acompanhei os momentos de extrema delicadeza que envolveram a despedida. É triste, é um luto, é a finitude se impondo. Mas foi gentil, foi carinhoso. Não pude abraçar a amiga. A distância se impôs.

 Senti uma tremenda vontade de ver o mar. Consultei minha agenda, o compromisso de entregar um texto, calculei o tempo e decidi ir.

Por sorte o ônibus chegou logo. Por sorte a maré estava baixa. E pude andar rápido na areia dura, molhando os pés no mar. Delícia.

Teve que ser rápido, mas como foi bom.

Na volta, peguei um táxi para agilizar.

Abri a janela, deixei o ar invernal refrescar meu rosto.

Foi quando percebi, num som baixinho, o Claudio Nucci cantando “Quem tem a viola”. Tão baixinho que precisei me aproximar um pouco do rádio para ouvir. E a música me levou embora, final dos anos 70, esperança no ar, os tempos de chumbo, da ditadura torturando amigos, tinha que acabar.

E me peguei dedilhando ao som do “Tem tom de roupa quando seca no varal”…

Até que percebi o movimento do motorista. Devagar, como se não quisesse perturbar meu enlevo, ele tocou no rádio e aumentou um grauzinho o som, coisa de nada.

Ficou mais confortável para eu ouvir.

Um gesto delicado, só isso. E, no meio daquele turbilhão que fora o início da manhã, aquele gesto me emocionou.

Estava mesmo precisando carregar minha bateria com a delicadeza que aquele desconhecido me ofereceu.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário