As árvores certas para o ambiente urbano

Quem se importa com árvores urbanas não consegue ficar indiferente quando vê troncos que um dia foram árvores frondosas em várias esquinas da cidade. Sou uma dessas pessoas.

A foto é de Custódio Coimbra, que cedeu gentilmente ao blog. As árvores são Oitis, da Rua Santa Clara, em Copacabana

Por isso estranhei o anúncio, de dois meses atrás, dando conta de que a cidade do Rio de Janeiro foi considerada, pela organização das Nações Unidas para alimentação e agricultura – FAO – e pela ONG norte-americana Fundação Arbor Day, uma “cidade amiga das árvores”. A notícia não recebeu muita repercussão, possivelmente porque tem sido difícil, nos dias de hoje, ganhar a atenção dos leitores com uma novidade boa.

 Mas pode ser também que as pessoas tenham tido uma atitude cética diante do anúncio. Com tantos troncos abandonados, será mesmo que a cidade merece este elogio?

Há muitas perspectivas que podem ser analisadas nesta situação. E, para fazer uma análise sem tendências, precisamos de boas informações.

Tempos atrás ouvi de um ambientalista que árvores urbanas têm um ciclo de vida que deve ser respeitado. Como qualquer outro ser vivo, elas nascem, crescem e morrem. Como estão em locais de grande movimento, sua morte pode causar enormes transtornos e, dependendo do seu tamanho, pode ser até muito perigoso para a vida dos humanos. Depois disso, aprendi a respeitar as tosas e até mesmo parei de interferir no trabalho de equipes que cortam uma árvore. Eles podem estar prestando um serviço à comunidade.  

Mas… árvore morta, árvore plantada, certo? Infelizmente, nem sempre. Os troncos espalhados por vários bairros mostram que há uma lacuna de tempo entre o corte e o replantio, e às vezes a árvore que se foi não é nem substituída. Em seu lugar cresce o cimento.

É importante falar mil vezes: árvores urbanas não têm só o efeito estético. Elas servem para reduzir a poluição sonora, do ar, fornecem sombra e moradia para os pássaros, além de alimentos. E, ainda por cima, oferecem sua beleza, seu esplendor, para quem acredita na meditação como possibilidade de fortalecer o sistema imunológico. Ou seja: árvore é tudo de bom, não só na floresta, como também nas cidades.

Porém…

Sim, tem um “porém” que precisa ser destacado.

Não é qualquer árvore que pode ser plantada em ruas da cidade. Tubulações de água e esgoto estourados, calçadas levantadas, problemas na rede elétrica e frutos pesados que podem machucar quando caem são alguns dos problemas que uma árvore plantada num local inadequado pode trazer.

Isso quer dizer que, por mais que a pessoa tenha muito boa vontade, não deve sair plantando árvores perto de casa sem consultar profissionais. E as prefeituras – sobretudo aquelas que recebem selos de garantia, como aconteceu com o Rio de Janeiro – têm obrigação de contratar tais especialistas, pessoas que estudam a biodiversidade.

Pois bem. No site da Prefeitura do Rio há uma informação que faz toda a diferença. É que a cidade não produz ainda suas próprias árvores urbanas: tem que importar de Minas Gerais ou de São Paulo.

Mas, aparentemente, esse quadro vai mudar. No mês passado, foi inaugurado um viveiro de árvores urbanas na Fazenda Modelo, em Pedra de Guaratiba. Segundo informações do site, a ideia é produzir ali dez mil mudas por ano para serem usadas em arborização do município. Foram identificadas áreas, principalmente nas zonas Norte e Oeste, que devem receber a maior parte das mudas.

“Um diferencial do viveiro será o cultivo de mudas de alto padrão, grandes, e que se destacam na paisagem, entre elas pau-brasil, pau-ferro, sibipiruna, escumilha, paineira, ingá, mangueira, oiti, jequitibás, ipês e palmeira-imperial. Além de preservar o meio ambiente, o projeto pode melhorar a saúde da população. Segundo pesquisas, morar em locais arborizados reduz em 36% o risco de desenvolver depressão e doenças cardíacas e do sistema circulatório”, diz a notícia publicada no site.

Ôba! Talvez a iniciativa tenha sido influenciada pelo selo de “amiga das árvores”, dado pela ONU. Se for, valeu. Estamos aqui à espera dos resultados.

Agregando mais informações sobre o tema: o primeiro estudo realizado sobre o número de árvores que o planeta pode suportar foi publicado pela revista científica Science e no site da BBC em 2019. A notícia traz informações que corroboram nossa preocupação com as árvores.  Antes de mais nada, calcula-se que o planeta tenha, no total, cerca de três trilhões de árvores. Mas ele precisa de 1,2 trilhão de novas árvores para conter o aquecimento.

“Seguramente podemos afirmar que o reflorestamento é a solução mais poderosa se quisermos alcançar o limite de 1,5 grau [de aquecimento global], disse Thomas Crowther, cientista e ecólogo britânico, à reportagem.  

O estudo concluiu que há ainda um total de 1,8 bilhão de hectares de terra no planeta em áreas com baixíssima atividade humana que poderiam ser transformadas em florestas. 

Como se vê, soluções existem, e muitas estão mesmo ao alcance dos cidadãos comuns e preocupados. Uma das grandes vantagens de se plantar árvores, segundo estudiosos, é manter viva a relação entre as pessoas. É uma atividade que agrega e faz bem.

Nossa sugestão é olhar em volta para tentar descobrir, no seu bairro, pessoas com quem se juntar para adotar a iniciativa. Aí sim, nosso selo de cidade amiga das árvores será justo. Por enquanto, é só uma promessa.

Neste site há uma lista de árvores que podem ser plantadas nas cidades sem causar problemas.

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Novo relatório da Oxfam denuncia falta de solidariedade dos países ricos com os pobres

Acaba de ser lançado um relatório da Oxfam dando conta de que os países ricos, maiores responsáveis pelos impactos ao meio ambiente que causam as mudanças climáticas, não estão doando dinheiro para os países pobres lidarem com os efeitos dos eventos extremos. Para cada US$ 2 necessários, os países doadores estão fornecendo apenas US$ 1. E hoje a quantidade de dinheiro necessária para cumprir a obrigação de salvar os países pobres é vinte vezes maior do que fora há vinte anos.

A fazendeira Sanfo Ramata em Burkina Faso, um dos países mais pobres do mundo. Foto de Gery Barbot/Oxfam

Para contextualizar o relatório “Footing the Bill”: em cada Conferência das Partes sobre o Clima (COP), os países ricos presentes são instados a ajudar os países pobres para que estes consigam construir uma infraestrutura que os ajude a enfrentar secas e tempestades. O princípio básico é que, como são mais industrializados, os países ricos são também os maiores responsáveis pelas emissões de carbono, em consequência, pelas alterações do clima.

Segundo o relatório, “Quênia, Somália, Sudão do Sul e Etiópia – onde mais de 24,4 milhões de pessoas agora enfrentam níveis severos de fome e insegurança alimentar – são responsáveis ​​por apenas 0,1% das atuais emissões globais”.  Pelo menos dois deles – Somália e Sudão do Sul – estão entre os países mais pobres do mundo.

Diretora executiva da Oxfam, Gabriela Bucher lembra que o alerta está sendo dado há tempos:

“Não se pode esperar que os países pobres paguem a conta, e aumentar a ajuda – embora seja uma atitude útil – não é a única resposta. Pagar o custo das perdas e danos causados ​​pelo clima deve ser baseado na responsabilidade – não na caridade. Países ricos, pessoas ricas e grandes corporações responsáveis ​​por causar as mudanças climáticas devem pagar pelos danos que estão causando”, disse ela.

O debate, como diz Bucher, está na mesa não é de hoje. Ocorre que os países ricos replicam. Para eles, não é obrigação ajudar os mais pobres, já que estes também se beneficiaram de sua industrialização. Se são mais “desenvolvidos” do que antes é porque o “progresso” dos mais ricos bate à sua porta.

Como todos sabem, não é de hoje que estudo e pesquiso a questão do desenvolvimento sustentável. Assim que recebi o conteúdo do relatório da Oxfam eu me lembrei da entrevista que fiz com a ex-primeira ministra da Noruega Gro Brundtland em 2007, quando ela esteve no Brasil. Gro Bundtland ajudou a criar o termo desenvolvimento sustentável.

Um dos temas abordados na entrevista foi, justamente, a ajuda que os países ricos deveriam dar aos mais pobres. Brundtland foi enfática ao dizer que estava na hora de rever esta postura. Para ela, alguns dos mais pobres já não eram tão pobres assim – e ela citou Índia, China e Brasil – o que os alçava à condição de poderem participar também da partilha.

“Nos anos 90 pensávamos que os deveres e as obrigações deveriam recair sobre os países desenvolvidos, já que eles é que produziam o problema. Agora, com o tempo, outras nações estão ficando mais industrializadas e elas estão aumentando o problema”, disse ela.

A ex-primeira ministra não se opunha à doação de dinheiro para os mais pobres. Mas questionava quem seria beneficiário. Ao mesmo tempo, à minha pergunta sobre se seria conciliável crescimento e desenvolvimento sustentável, ela também foi veemente em defesa da necessidade de se lançar mão das tecnologias para isso.

Ocorre que tecnologias custam caro. Quem pode pagar por elas?

Reproduzi aqui um pouco da conversa que tive com Gro Brundtland porque creio ser o cerne da questão que vai para a mesa de debates. Mas o relatório da Oxfam traz dados bem atuais, que consolidam um novo cenário:

“Os países ricos e industrializados contribuíram com cerca de 92% do excesso de emissões históricas e 37% das emissões atuais. As emissões atuais da África são de apenas 4%”.

Ou seja, diferentemente do que previra Brundtland há quinze anos, durante a entrevista que me concedeu, os ricos continuaram ricos e muito ativos, emitindo gases poluentes. Por conta disso, “o custo econômico de eventos climáticos extremos em 2021 foi estimado em US$ 329 bilhões globalmente, o terceiro ano mais alto já registrado. Isso é quase o dobro da ajuda total dada pelas nações ricas ao mundo em desenvolvimento naquele ano”.

Estamos num ano de efemérides nas questões ambientais. Acaba de acontecer a Estocolmo+50, Conferência que comemora o aniversário do primeiro encontro mundial para debater o meio ambiente. Ali já estava posto o imbróglio entre desenvolvimento e conservação ambiental. Ali já estava posto o impacto à saúde dos humanos que causa o excesso de CO2. No relatório final de 1972, compilado em livro chamado “Only One Earth”, no entanto, já estava claro também que os países ainda não levavam a sério os sinais que o meio ambiente já mandava: os bens naturais que podem ser usados pelos humanos para terem mais conforto são finitos.

E estão acabando.

Hora de os próprios líderes se levarem a sério. Vale registrar um dos dez princípios elencados pelo Relatório atual, da Conferência Global de Meio Ambiente que acabou no dia 3 de junho na capital sueca:

“Adotar uma mudança sistêmica na forma como nosso atual sistema econômico funciona para contribuir para um planeta saudável, por meio da definição e adoção de novas medidas de progresso e bem-estar humano, apoiadas por políticas econômicas e fiscais que considerem o valor do meio ambiente; investindo em infraestrutura, desenvolvendo políticas eficazes e incentivando um diálogo para promover o consumo e a produção sustentáveis; e promovendo a eliminação dos combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que fornece apoio direcionado aos mais pobres e mais vulneráveis, de acordo com circunstâncias nacionais e reconhecendo a necessidade de apoio financeiro e técnico.”

A torcida é para que esta não seja uma retórica inútil.

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Sobre alimentos orgânicos e a fome no mundo

Levei um susto, ontem pela manhã, quando li o artigo publicado no “O Globo” sobre a fome no mundo. Já na primeira frase, quando diz que “uma crise alimentar está se aproximando”, o autor, um dinamarquês, se equivoca.  Basta fazer uma pesquisa rápida na internet para se descobrir um número que ele nos poupou de informar. Dados recentes de um relatório das ONGs Ação Agrária Alemã (Welthungerhilfe, em alemão) e Concern Worldwide, publicado no ano passado, mostram que o número de pessoas que passam fome, mundialmente, está na casa dos 800 milhões.

Mamão comprado hoje, no ônibus-sacolão, por R$ 4,90. Não é orgânico, mas é caro, o que inviabiliza o acesso aos mais pobres. Foto: Amelia Gonzalez

 Isto já não é uma crise instalada?

Na sequência, o dinamarquês escreve verdades. Sim, a epidemia, a guerra e o impacto causado pelas mudanças climáticas são fatores que colaboram para fazer crescer este número. Outro relatório recente, publicado pela Oxfam, mostrou que o número de pessoas vivendo em condições de fome estrutural aumentou cinco vezes desde o início da pandemia. Ou seja: desde a pandemia, no mínimo mais 520 mil pessoas foram jogadas no time dos famintos.

Mas o artigo prossegue. E, sem pedir licença, o autor Bjorn Lomborg decide declarar que “a agricultura orgânica não tem condições de alimentar o mundo”.  Como se, em algum momento, esta fosse a missão dos agricultores que produzem sem aditivos químicos em suas terras.

Lomborg, que faz parte de um grupo, o Consenso de Copenhague, está resgatando a Revolução Verde. Para ele, o incremento da expansão de fertilizantes, de pesticidas, a modificação genética das sementes, é o caminho para se conseguir acabar com a fome no mundo. Rachel Carson, a bióloga que nos anos 60 denunciou o mal que tais produtos – na época, o foco era o DDT – causam à saúde de qualquer ser vivo do planeta em “Primavera silenciosa”, deve ter se virado no túmulo.

Sou vegana, compro produtos orgânicos quando o preço deles está razoável. Já participei de várias mesas de debate sobre sustentabilidade que incluíam a segurança alimentar na discussão. E nunca ouvi qualquer produtor orgânico se imbuir da tarefa de acabar com a fome no mundo. Até porque essa é uma questão muito mais profunda.

Impossível trazer aqui todos os pontos necessários ao debate. Pincei alguns autores que podem ajudar a ampliar o pensamento. “A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho” (Ed. Vozes), escrito por Jean Ziegler há duas décadas, por exemplo, traz dados que merecem atenção. Jean Ziegler é professor de Sociologia e ex-vice-presidente do Comitê Consultivo para os Direitos Humanos das Nações Unidas, entre outros atributos. Escreve ele:

“Em 1990, havia 822 milhões de pessoas severamente afetadas pelo flagelo da fome”.

Ou seja: o quadro não mudou muito. O número de flagelados vai aumentar, sim, por vários motivos.  Por causa da epidemia;  por causa dessa guerra absurda, que vai gastar 813 bilhões de dólares, em armamentos pesados num mundo com pessoas passando por tantas privações; por conta das mudanças climáticas, que têm causado seca e tempestades devastadoras. Mas, por enquanto, estamos quase no mesmo patamar do fim do século passado, quando ainda éramos cerca de 6 bilhões no mundo.

Hora de trazer Ladislau Dowbor, economista, escritor, ex-conselheiro técnico das Nações Unidas, cujo site disponibiliza livros que merecem ser lidos.  Sobre a fome, Dowbor escreve:

“Hoje temos 820 milhões de pessoas passando fome, quando há comida sobrando por toda parte: só de grãos o mundo produz mais de um quilo por dia por pessoa, sendo que o Brasil produz 3,5 kg, isso sem contar tubérculos, frutas, legumes etc. Não há nenhuma razão econômica ou técnica para faltar alimento para ninguém. O mundo produz, com um PIB da ordem de 85 trilhões por ano, o equivalente a 18 mil reais de bens e serviços por mês, por família de quatro pessoas. No Brasil, o PIB de 2019, 7,3 trilhões de reais, equivale a 11 mil reais por mês por família de quatro pessoas. É dizer que no mundo não faltam recursos. Nosso problema não é econômico, é de organização política e social”.

Em resumo: o problema da fome no mundo não é de falta de alimento, e isto põe em xeque – para dizer o mínimo – inclusive a necessidade de tantos fertilizantes e agrotóxicos. O problema é a distribuição de alimentos. Esta dedução lógica faltou ao raciocínio do autor dinamarquês.

Poderia trazer outros tantos autores para clarear ainda mais o debate. Mas vou me restringir para não ser prolixa.

Para fechar, recomendo a leitura desse artigo publicado na Revista Galileu, que reflete também amplamente sobre a fome no Brasil. A questão, diz o artigo, não é de falta de alimentos, mas de falta de vontade política de acabar com a fome. Nos governos sociais, mais claramente no governo do presidente Lula, tais políticas foram abundantes e eficazes.

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Mudanças climáticas, um tema ainda espinhoso

Dia desses participei de um encontro, também chamado de Oficina, organizado pelo Instituto BVRio  que tinha o nobre objetivo de reunir jornalistas e debater o assunto que sempre nos ocupou, a nós que passamos a exercer a profissão de informar sobre questões do ecodesenvolvimento. Ou, se preferirem, desenvolvimento sustentável. Ou, se preferirem ainda, podemos resumir: meio ambiente.

A foto foi tirada por Pedro Alles, fotógrafo e, atualmente, dono da Pousada Caraúbas, na Praia do mesmo nome, no Rio Grande do Norte (https://www.instagram.com/cabanas.caraubas/) . É uma foto conceito, uma natureza ainda bela e saudável

O assunto que sempre nos ocupou é: como fazer chegar aos leitores a mensagem que queremos, sem que eles nos julguem ecochatos ou catastrofistas ou utópicos…

Como eu disse na live – o encontro, infelizmente, foi virtual, este legado da pandemia – esta é a pergunta de um milhão de dólares. Se eu soubesse responder, ah se eu soubesse…

Mas penso nisso há tanto tempo, que pude tentar dividir algumas reflexões, que trago aqui. Uma delas eu extraí do livro “As Três Ecologias” (Papirus Editora), escrito por Félix Guattari em 1989. Lá, o pensador francês fala em uma “resingularização individual ou coletiva, ao invés de ir no sentido de uma usinagem de mídia, sinônimo de desolação e desespero”.

 O bom de se ler um texto filosófico é fazer a nossa própria leitura, com base em nossa própria experiência. Assim fiz eu. E me permiti pensar, com base na denúncia feita por Guattari, sobre essa necessidade feérica, cada vez mais feérica, de que todo mundo leia e todo mundo se engaje em causas. Preferir poucos e bons é estar na contramão, eu sei. Mas foi assim que me permiti interpretar a “usinagem de mídia” que Guatarri acusou há quase quatro décadas. Para que tantos seguidores?

Uma outra chance de reflexão eu peço emprestado a Anthony Giddens, que escreveu em 2009 “A política da mudança climática” (Ed. Zahar). Logo no início do livro, ele cria o “paradoxo de Giddens”:

“Visto que os perigos representados pelo aquecimento global não são palpáveis, imediatos ou visíveis no decorrer da vida cotidiana, por mais assustadores que se afigurem, muita gente continua sentada, sem fazer nada de concreto a seu respeito. No entanto, esperar que eles se tornem visíveis e agudos para só então tomarmos medidas sérias será, por definição, tarde demais”, escreve Giddens.

A reflexão de Giddens foi feita há treze anos. De lá para cá, os perigos se tornaram visíveis e agudos, mais do que nunca. E as consequências, não só para a saúde dos humanos, como para o dia a dia da civilização, estão sendo sentidas cada vez mais gravemente. Para perceber isto, é só fazer os links, outro tema que foi recorrente na live.

Fazendo, pois, os links:

Sábado, dia 7 de maio, foi um dia de chuvas intensas no Rio de Janeiro. Como sempre, os noticiários deram conta de um volume de chuvas inédito para aquela época do ano. Este é um gatilho para se pensar que sim, é um evento extremo causado pelas mudanças climáticas. Ocorre que naquele dia, a feira livre que existe aos sábados na minha rua, ficou mirrada. Poucas barracas, já que a maioria dos feirantes mora na Zona Norte do Rio, onde a chuva foi mais intensa.  Qual o link possível? Além de transtornar socialmente a vida dos cidadãos, pagantes de impostos, que ficam submetidos à doença por conta do lixo que se acumula numa rua, a economia local também fica combalida. Os feirantes perderam um dia de seu trabalho, o que num orçamento já irrisório é muita coisa.

Domingo, dia 28 de maio, foi um dia de chuvas intensas no Nordeste do país. Como sempre, os noticiários deram conta de um volume de chuvas inédito para esta época do ano. Este é um gatilho para se pensar que sim, é um evento extremo causado pelas mudanças climáticas (repeti o texto de propósito). As notícias ainda estão chegando, mas já se sabe que mais de oitenta pessoas perderam suas vidas. Isso quer dizer que mais de oitenta famílias estão enlutadas, precisando lidar com a perda de pessoas que, talvez, fossem até mesmo a única que trazia dinheiro para casa. Aliás, que casa?

O argumento trazido por Giddens é que há décadas, quando se começou a informar sobre mudanças climáticas, os estudiosos imprimiram um caráter anódino às informações. Os eventos aconteceriam “no fim do século”, o que fez as pessoas lançarem mão do processo alavancado pelo pensamento, incontestável, de que há coisas mais urgentes que precisam ser resolvidas aqui e agora.

Mas se olharmos o debate com outras lentes, voltando a atenção para o poder público, este sentido de urgência toma uma nova perspectiva. O volume das chuvas é surpreendente, sim, mas não deveria pegar ninguém desprevenido se tivéssemos governantes com um olhar cuidadoso para as questões climáticas. Mais do que os cidadãos comuns, são eles que podem fazer a diferença de caráter secundário para emergencial.

Ruas precisam ser limpas, bueiros têm que estar desentupidos, não se pode permitir construções em lugares de alto risco, árvores, muitas árvores precisam ser plantadas em toda a cidade. É preciso ter campanha para conscientizar pessoas de que lixo não pode ser jogado de qualquer jeito em qualquer canto. São algumas providências que podem dar resultado mais imediato do que mudar hábitos arraigados, como tomar banho quente e demorado, reaproveitar água do ar-condicionado para molhar plantas ou andar sempre com uma sacola para evitar as de plástico.

É, portanto, uma questão de escolha. No caso, em regimes democráticos, a escolha é do melhor candidato. Mudar a agenda é importante. A herança de políticos que debatem assuntos não ligados à mudança climática deve ser repensada. Já estamos no meio da crise climática. E é preciso dar importância a tudo que se pode fazer para ameninar os impactos nas pessoas mais vulneráveis.

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Dia Mundial da Reciclagem: bom gatilho para reflexão

Dia 17 de maio foi o Dia Mundial da Reciclagem. A efeméride foi instituída pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). A despeito da crítica que se possa fazer com relação à serventia de se criar uma data para celebrar a reciclagem, pode valer como uma chance de suscitar reflexões. É o que nos interessa aqui.

A foto é de Custodio Coimbra, em reportagem feita na Baía de Guanabara para relatar o trabalho de pescadores que perderam condições de viver de sua pesca por causa do acúmulo de lixo. Eles agora vivem de ‘pescar’ lixo, conforme mostra a reportagem que foi publicada no Globo do dia 22

Minha primeira observação é crítica. Como atestam dez entre dez ambientalistas, é preciso sempre lembrar que qualquer objeto reciclado também vira lixo. Ou seja, a reciclagem apenas adia a ida do plástico, por exemplo, para o oceano. Mesmo que ele vá em novo formato, ainda assim ele irá.

Segundo a ONG Ocean Conservancy , cerca de 80% do lixo despejado nas águas resultam de atividades realizadas na terra, tanto produzido pelas indústrias quanto resultado de despejo de esgotos. O restante é proveniente da economia marítima, como a pesca e o transporte. Anualmente, cerca de 13 toneladas de lixo são despejadas no mar.

Portanto, para além da reciclagem, a questão do lixo – tanto nos mares quanto em terra – exige uma atitude realmente mais transformadora por parte dos humanos. É preciso parar de acumular coisas. E isto, para muitos, não é nada fácil.

O historiador Erick Hobsbwan lembra em sua admirável obra “Era dos Extremos”, que de 1947 a 1973 o mundo viveu o que ele chama de Era de ouro. Um espantoso período, lembra Hobsbawn, que “assinalou o fim dos sete ou oito milênios de história humana iniciada com a revolução da agricultura na Idade da Pedra, longa era em que a maioria esmagadora da raça humana vivia plantando alimentos e pastoreando rebanhos”. Na era do ouro, a ordem foi aquecer a combalida economia – por conta da II Guerra – instigando o consumo. Ir às compras era um programa, como ainda hoje é para muitos de nós.

E aqui estamos nós. De novo numa Guerra, que alguns já chamam de Terceira, mas agora sem muita chance de consumir, pelo menos no Brasil, porque está tudo muito caro e a inflação corrói o salário. No entanto, é só decidir organizar aquele armário-cônsul, onde se joga todos os objetos e roupas para “pensar depois” o que fazer com eles, para perceber como nos tornamos acumuladores.

Foto de Custodio Coimbra que embalou a reportagem sobre lixo. Um sofá na Lagoa da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Agora, eu me pergunto: não há política pública para ajudar essa pessoa a destinar seu sofá?

Annie Leonard fez um bruta sucesso em 2010 quando lançou o vídeo “A História das Coisas”, depois transformado em livro editado aqui no Brasil pela Ed. Zahar. Ela é ambientalista, foi ensinada desde cedo a ter carinho pelas coisas que compra e, como norte-americana, vive num país altamente consumista. Mas arregaçou as mangas para contar a história por trás das coisas que nos cercam e que adquirimos, mesmo quando há volatilidade financeira mundial. E mesmo quando somos alertados de que o planeta já está exaurido de seus bens naturais, mais do que pode aguentar.

“O problema básico não é o comportamento individual e as más escolhas de estilo de vida, mas o sistema falho – a máquina fatal do extrair-fazer-descartar… Convido o cidadão que existe em você a falar mais alto do que o consumidor que também existe em você, e a iniciar um diálogo rico e aberto com a sua comunidade”, escreve ela.

No meu caso, estou justamente na fase de me surpreender com a quantidade de lençóis e fronhas que acumulei durante esses anos. Sim, estou tentando organizar o armário-põe-na-cônsul aqui de casa, e começo a refletir, com a ajuda de Annie Leonard.

A ambientalista está longe de ser radical. Em alguns momentos, como sói acontecer, ela enaltece as boas qualidades da reciclagem, embora sempre alerte para a necessidade de se diminuir o consumo (por consequência, a produção) das coisas. A reciclagem de papel, por exemplo, tem levado a uma boa mudança, inclusive no modo de produção. Hoje já se recupera mais papel descartado através do processo de reciclagem do que há dez anos.

“Estamos perto de fechar o ciclo e produzir papel a partir de papel, não de árvores”, conta ela.

Esta é uma boa notícia.

Por outro lado, em outro trecho do livro, a autora cita o vinil, o PVC (cloreto de polivinila), muito perigoso em todos os estágios da vida. Presente em sapatos, bolsas, capas e botas, aventais, toalhas de mesa, cortinas de banheiro, mobília de varandas e mangueiras, recipientes e embalagens de alimentos, escorredores de louça, esquadrias e tubos, além de marcar presença também em sondas usadas pela medicina, artigos de escritório, brinquedos e roupas de crianças, ele pode fazer um tremendo mal ao nosso organismo.

No caso do PVC, o recurso da reciclagem não é solução. “Apenas aumenta o problema, porque reciclar um veneno faz perpetuar o perigo. A única resposta é parar de produzir PVC e tirar o existente da circulação”, escreve Annie Leonard.

O perigo é tão grande que alguns governos já proibiram ou obrigaram a restrição de produtos de plástico em seus territórios. União Europeia, Japão e México estão entre eles.

É uma das soluções, não a única, evidentemente. Não se pode pôr sobre os ombros do cidadão comum – que as corporações gostam de chamar de consumidor – a total responsabilidade de parar de consumir. E aqui estou focando especificamente no plástico, mas é possível pensar dessa forma com outros produtos também.

A ideia é que haja políticas públicas, que as empresas obedeçam a tal regulação e que o cidadão comum seja bem-informado. A reciclagem, então, funcionaria como uma espécie de cereja do bolo, não como o condão mágico que vai nos livrar do mal maior. Lembrando sempre que o mal maior são os eventos extremos que atingem muitos cidadãos, ceifam vidas e desorganizam economias.

Não são tempos fáceis. Mas as efemérides serão sempre bons gatilhos para reflexão.

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Os bastidores de uma história contada aos quatro cantos

No domingo dia 1, a capa do jornal “O Globo” de domingo estampou uma foto onde um grupo de botos saltava da água, no mar de Ilha Grande, formando um mosaico de rara beleza. Assinada pelo fotógrafo Custódio Coimbra, aquele flagrante exigiu uma produção, como todos devem imaginar. Fui além da imaginação. Trabalhei com Custódio no mesmo jornal, anos atrás, e decidi procurá-lo para ouvir a história desses bastidores que trago aqui para vocês.

Foto de Custodio Coimbra: botos em festa na Baia de Ilha Grande

“Os botos que avistamos, depois de três dias, eram os botos cinzas. São mais arredios e fogem na aproximação dos barcos. A técnica é ir a uma distância, com o motor desligado, seguindo o caminho deles. De tempos em tempos eles sobem para respirar, e é neste momento que se tenta fazer o foco. Quando eles afundam, fica um rastro na água, que serve como referência. Os pulos (como da foto) são raros, mas acontecem. Eu dei a sorte de ficar acompanhando mais de 200 deles. Em alguns momentos, fiquei cercado pelos botos, e a sensação é incrível. O som da respiração deles, em meio ao silêncio, é emocionante. Mas vi muitos pulos sem estar com a máquina preparada. É bem difícil porque, além da rapidez necessária para flagrar aquele instante, tem o balanço do barco dificultando o enquadramento”, contou-me.

Na reportagem, assinada por Ana Lucia Azevedo, o leitor é informado de que, por conta das péssimas condições de sujeira das águas, já não chegam a 30 os botos da Baía de Guanabara. Já a Baía de Ilha Grande, com superfície duas vezes maior do que a da Guanabara, é ainda um lugar que a espécie pode ter alguma tranquilidade para viver, procriar e se alimentar.

A conversa com Custódio Coimbra, no entanto, levou-me a outro personagem dos bastidores da reportagem. O ambientalista Jose Lailson é um dos fundadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua), da Uerj, e foi quem levou a equipe do Globo até os botos. Conversar com José Lailson foi fazer uma espécie de viagem no tempo, já que o Maqua foi criado em 1992, ano da Conferência do Meio Ambiente que se realizou aqui no Rio e ficou sendo conhecida como Rio-92.

De lá para cá, os botos sofreram mais? Sim, com certeza, por causa da industrialização que levou sujeira às águas que são seu habitat. Mas, e então? Como fica a luta dos ambientalistas?

“Existe uma perda efetiva de qualidade ambiental que não é reposta com as medidas de compensação que a legislação exige das empresas. O que se precisa é garantir que fique mais difícil que os danos ambientais aconteçam novamente. Hoje temos uma estrutura que faz com que sejamos consultados para qualquer empreendimento que vá acontecer na Baía de Guanabara. E nossas colocações são incontestáveis. Conseguimos evitar muitos impactos.”, disse ele.

Os trinta anos do Maqua foram de muito trabalho, estudo, pesquisa e, sobretudo, de relação com os pescadores, com as pessoas das comunidades cujo saber é respeitado pelos cientistas.

“O Maqua é uma construção coletiva, um ser vivo. Nunca nos fechamos na caixinha, nunca nos empoleiramos, temos um respeito muito grande pelos saberes tradicionais. E quando eu falo da Baía, eu falo com experiência, porque tenho também horas de mar. Não ficamos trancados em escritórios ou salas de aula”, disse José Lailson.

Estamos em ano de efemérides ambientais. Aniversário de 30 anos da Rio-92 e comemoração do aniversário de meio século da primeira Conferência Mundial do Meio Ambiente, à época chamada de “ambiente humano”. Com tudo isso, ainda é difícil tornar o tema popular. A falta de políticas públicas que sejam capazes de coibir, por exemplo, o garimpo ilegal e destruidor na Amazônia, é resultado direto desse não envolvimento aqui no Brasil. Por quê?

“A questão da consciência das pessoas com relação ao meio ambiente é difícil. Evoluímos para melhor nesses últimos trinta anos sim, sem dúvida, mas não na intensidade necessária. Isso tudo tem relação com a falta de informação de qualidade. Aqui na região metropolitana do Rio de Janeiro, por exemplo, precisamos cuidar muito de como passar essa informação. Há muitas pessoas que vivem em situação de muita privação. Você dizer para alguém que vive com o esgoto na porta de casa, que ainda vai ter mais desgraça, não vai resolver”, disse José Lailson.

Por isso, o Maqua decidiu inverter um pouco o discurso. E isso quer dizer: fazer com que as pessoas conheçam os oceanos, identifiquem os personagens que habitam o mundo submarino, para criar empatia e, aí sim, gerar o desejo de que tais criaturas sejam conservadas.

“Antigamente nós falávamos muito sobre a morte dos botos, sobre o risco que eles estão correndo com tanta poluição em seu habitat natural. Hoje falamos mais sobre a resiliência deles e reforçamos que nós precisamos ajudá-los nessa briga. É para criar uma parceria. Outra coisa que fizemos foi dar nome de pessoas humanas a eles, isto tem um efeito maravilhoso. Os humanos precisam muito dessa identificação. Nós demos o nome de Acerola a um botinho, certa vez. E quando Acerola morreu, teve até inquérito da Policia para apurar o motivo”, conta José Lailson.

O site do Maqua tem muitas histórias. E pode servir como auxílio a professores que quiserem embarcar nessa energia. Estimular o positivo, sem esconder a realidade, sempre será um bom caminho para passar adiante informações de qualidade. Além disso, os “meninos do Maqua”, que hoje já têm cinco décadas de vida, trilharam uma vida acadêmica que lhes dá, acima de tudo, credibilidade.

É uma história feliz.

P.S.: Este texto foi publicado originalmente no site da Casa Monte Alegre, creche em Santa Teresa

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O carnaval das boas reflexões

O estranho carnaval fora de época – e sem Quarta-Feira de Cinzas – deste ano não passou em branco. Foram para as ruas aqueles que estavam com um grito parado no meio da garganta. Oprimidos por tantos desmandos, com medo de tantas doenças. E eu sou capaz de apostar que essas pessoas tiveram, como diz o poema-canção de Lenine, “um pouquinho de saúde/um descanso na loucura”.

Um afluente na Bacia Amazônica: a água, no Brasil profundo, muitas vezes é a única estrada existente. Foto de Amelia Gonzalez em 2014

Foram para os sambódromos do Rio e São Paulo aqueles que  gostam do espetáculo – realmente muito bonito – de carros alegóricos, fantasias exuberantes e sambas-enredo com mensagens que nos representam. Com a dose certa de humor misturado a críticas severas. Momentos de desobediência civil explícita. E lá vamos nós, gritando com os autores dos sambas as dores que nos rodeiam e invadem.

A “Mancha Verde”, escola vencedora em São Paulo, ganhou o prêmio com um alerta sobre a água. O enredo “Planeta Água” refletiu sobre a importância e valorização do bem comum. Como não podia deixar de ser, a escassez de água foi parte da letra, assinada por onze autores: Marcio André Filho, Marcelo Lepiane, Lico Monteiro, Rafael Ribeiro, Richard Valença, João Perigo, Solano Mota, Leandro Thomaz, Telmo JB, Lanza Muniz Moraes e Rosali Carvalho.

“Tantos caminhos pra um dia voltar
À Terra, deixando um clamor pra humanidade
A nobre missão de preservar
Nosso futuro, nosso lar!”

Vale a pena, mesmo, refletir sobre este elemento essencial para a existência de qualquer ser vivo no planeta.

“Salvar as nascentes que hoje se encontram em risco assegura uma boa qualidade das águas, fortalece a produção de alimentos saudáveis e garante a vida dos rios, indispensáveis para a manutenção da vida não só no campo, mas também nas cidades”, diz o texto no site do Museu do Cerrado.

O Cerrado, que ocupa 25% do território brasileiro (se estende por 12 estados), segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), é considerado o berço das águas. Ele tem 19.864 nascentes, 23,6% de todas as nascentes brasileiras, possui três grandes aquíferos (o Guarani, o Bambuí e Urucuia) que beneficiam oito entre as doze bacias hidrográficas brasileiras.  Como está localizado na porção central do país e em uma região de elevada altitude, o Cerrado distribui recursos hídricos a todo território nacional, num fenômeno que recebeu o nome de “efeito guarda-chuva”.

Mesmo assim, com toda essa grandeza de bens, o Cerrado está sendo devastado. Em 2018, participei de um encontro no Museu do Amanhã, organizado por entidades da sociedade civil, cujo tema essencial era, justamente, a espoliação daquele bioma para dar lugar a pasto e plantações de monocultura. E, quando se espolia o berço das águas, a escassez de água será o resultado iminente.

Uma das palestrantes naquele encontro, a assessora da ONG Fase – Solidariedade e Educação,  integrante dos Núcleos Executivos da Articulação Nacional de Agroecologia – ANA e do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, Maria Emilia Pacheco, lembrou o lado talvez mais cruel da crise hídrica:

“Nós, aqui da cidade, estamos nos esquecendo de que os alimentos que temos hoje na mesa vêm do trabalho que continua sendo feito pelas comunidades tradicionais”, disse ela.

Preservar os aquíferos para que não nos falte água é, em última instância, garantir alimentos para todos. 

A devastação do Cerrado tem, em parte, origem nas mudanças do clima. E, em parte, no modelo de produção agressivo do agronegócio. Ainda há tempo para fugirmos disso?

O jornalista Joel Bakan lançou, em 2020, o livro “New Corporation”, ainda sem tradução no Brasil, em que chama a atenção para o fato de estarmos transferindo para as empresas o papel de controlar os bens comuns. Como a água.

Bakan lembra que no início do século, em Cochabamba, na Bolívia, houve uma revolta popular para tirar do comando privado a empresa de água da cidade. Foi uma batalha acirrada que durou alguns meses até que o contrato de serviço público firmado com a empresa Bechtel, que deveria valer por longos 40 anos, foi desfeito. Depois desse acontecimento, mais de 200 cidades mundo afora fizeram o mesmo.

Será a única solução? Não. Mas, uma delas, pelo menos, pode ser. A questão é que as empresas privadas são compelidas a priorizarem os interesses financeiros sobre tudo o mais. E isto as leva, muitas das vezes, a desconsiderar as necessidades da população.

 Por outro lado – e aqui estamos falando apenas dos regimes democráticos – os governos são eleitos pelo povo e precisam responder ao público. Temos pedras nesse caminho, sabemos bem. Mas sempre será mais fácil detectá-las do que tentar decifrar a caixa preta das grandes corporações e regulá-las.

Em paralelo, podemos rever nossas próprias pegadas nessa crise hídrica e das mudanças climáticas. Aqui no Brasil, país da abundância, só agora é que começamos a pensar mais seriamente na questão da economia de água. Não é o consumo doméstico que mais impacta, como querem fazer crer os movimentos de apoio às grandes corporações. Mas, certamente, o controle em casa, ensinado inclusive para as crianças, pode adubar um comportamento mais econômico que será necessário cada vez mais.

Como se vê, uma festa popular e pagã pode servir até para reflexões mais profundas sobre nossa civilização.

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Uma breve história sobre o microcrédito no mundo

Entre as medidas do governo federal para tentar aquecer a economia e ganhar a reeleição está a concessão do crédito consignado para as 17,5 milhões de pessoas que recebem R$ 400,00 como Auxílio para sobreviverem.  A medida já tinha sido proposta anteriormente, mas a Câmara dos Deputados vetara, por julgar polêmico o endividamento das famílias de tão baixa renda.

A notícia é, de fato, polêmica. E inspira reflexões. No meu caso, lembrei-me de rever o início do microcrédito, lançado pelo economista Muhammad Yunus em Bangladesh em 1977, portanto há quase meio século. Há uma diferença, claro, entre empréstimo consignado e o microcrédito. Mas ambos lidam com pouco dinheiro para os muito pobres. E, neste sentido, são muitas as semelhanças.

Tanto que não seria demais pensar que os técnicos do governo que estão pensando a este respeito poderiam visitar os livros e a história de Yunus. E tirar de sua experiência algum proveito para ajudar, realmente, os que necessitam de dinheiro.

Yunus conta, em seu livro “Banqueiro dos pobres” (Ed. Atica), que escreveu com a ajuda de Alan Jolis em 2004), como tudo começou. Foi na aldeia Jobra, em Bangladesh, país que acabara de viver um período de fome violenta. Já como pesquisador e professor da Universidade de economia, ele resolveu visitar o local para conversar com as pessoas. E reproduz o diálogo com uma artesã:

Muhammad Yunus em palestra no balcão da Ação da Cidadania em maio de 2013. Foto Amelia Gonzalez

– Como a senhora se chama?

– Sufia Begum

– O bambu é da senhora?

– Sim

– Como a senhora o obtém?

– Eu o compro

– Quanto ele custa?

– Cinco takas (na época, representava 22 cents de dólar)

– A senhora tem esses cinco takas?

– Não, eu peço emprestado dos paikars

– Os intermediários? O que a senhora combina com eles?

– Eu preciso vender para eles meus tamboretes de bambu no fim do dia para devolver o dinheiro emprestado. O que sobra é meu lucro

– Por quanto a senhora vende o tamborete?

– Cinco takas e 50 paisas.

– Então a senhora tem um lucro de 50 paisas? (na época, representava 2 cents de dólar)

– Mas a senhora não poderia tomar emprestado o dinheiro e comprar os materiais?

– Poderia, mas me cobrariam um absurdo. E as pessoas que apelam para eles empobrecem mais depressa ainda

– Com quanto o agiota fica?

– Depende. Às vezes ele fica com dez por cento por semana. Eu mesma tenho um vizinho que paga dez por cento por dia!

– E é tudo o que a senhora ganha fabricando esses belos tamboretes de bambu, 50 paisas?

– É.

O então jovem Yunus, que hoje tem 81 anos, decidiu dar dinheiro para Sufia e suas vizinhas poderem se livrar do intermediário. Isto foi possível com US$ 27. E foi ali que nasceu o Grameen Bank, que hoje tem 2.565 agências, presta serviços em mais de 81 mil aldeias, cobrindo 97% do total da área rural de Bangladesh, ainda um país muito pobre. Um detalhe importante: os empréstimos são oferecidos para as mulheres, e os funcionários do Grameen Bank são capacitados a irem aos locais, conversar com as pessoas. A preferência é oferecer o benefício a grupos de trabalhadores, a juros que vão de 12 a 16% ao ano.

E mais: segundo Yunus, o empréstimo deve ser dado, preferencialmente, a um grupo, estimulando que o dinheiro seja usado para comprar algo que possa ser vendido, por exemplo. O grupo dá uma sensação de segurança. O Grameen Bank criou uma forma de pagamento diária, mais fácil de controlar. O tomador do empréstimo se sente, assim, estimulado porque, mesmo pagando centavos, consegue ver outros centavos ficando em seu bolso.

No caso do Brasil, o valor da prestação será retirado do Auxílio no mês seguinte, o que pode ser muito difícil para os tomadores. É preciso ter campanhas avisando sobre isso o tempo todo.

Estamos falando de pouco dinheiro chegando nas mãos de quem precisa muito. E de quem está, há muito tempo, excluído do sistema. A situação é delicada e não pode ficar nas mãos de bancos que, por motivos óbvios, terão sempre, por princípio, que buscar o lucro. E somente o lucro.

*Este texto foi originalmente publicado no site da Escola Monte Alegre

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Homeopatia ou alopatia? O que importa é a relação de confiança entre médico e paciente

A primeira viagem que fiz ao Arquipélago do Bailique, que fica no Amapá, quase na fronteira com a Guiana Francesa e a 200km da capital Macapá, foi em 2014. Naveguei pelo Amazonas, dormi algumas noites numa rede instalada num barco, e vivi dias mais intensos do que quando peguei dois aviões e desembarquei em Shangai, na China, anos antes. Conheci o Brasil profundo, percebi suas agruras,  mas sobretudo aprendi a respeitar a capacidade que nós, humanos, temos de transformar e criar.

Eu estava ali, como repórter e, na época, colunista do site G1, para registrar o processo de produção do primeiro Protocolo Comunitário brasileiro. Na época, o Arquipélago tinha cerca de onze mil pessoas (hoje são cerca de treze mil) que, sob orientação do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), estavam prestes a determinar limites de acesso a recursos genéticos, uma das exigências do Tratado Internacional de Nagoya, que o Brasil assinou em 2011, e só ratificou no ano passado, dez anos depois.

Ouvi muitas histórias, claro. Para fechar o pensamento que quero trazer hoje, pinço o depoimento da parteira Elza Pereira, inesquecível para mim. Mulher alta, bonita, Elza foi a  primeira a falar no último dia do Encontro das comunidades do Bailique porque precisava seguir viagem mais cedo para aproveitar a maré. Elza morava numa das ilhas mais distantes, perto mesmo da Guiana Francesa, explicando-se assim o fato de falar também o francês fluentemente.

Elza Pereira no encontro, no Bailique, para debater sobre acesso a recursos genéticos. Foto Amelia Gonzalez, 2014

 Elza encantou a plateia com uma fala assertiva. Afirmou conhecer as barrigas de mulheres grávidas e perceber, no olhar, sehá algo errado com a gravidez. E lamentou o fato de que seus remédios, considerados caseiros, não terem valor algum para a medicina tradicional:

‘Hoje tem Posto de Saúde na minha comunidade, mas lá não tem os remédios que a gente sabe que dá resultado. Casca de andiroba contra diabetes; folha de chicória para dor de cabeça; argila contra dor de dente… Por que a gente não pode dar esses remédios?”

A pergunta de Elza ecoou, ganhou aplausos das pessoas que estavam ali corroborando seus pensamentos. O saber tradicional dos povos das florestas não pode, não deve, ser menosprezado. Nem pela Ciência.

Minha memória é uma peça. Os pensamentos vão chegando e costurando, formando às vezes o mosaico que eu estava buscando. Na última semana, circulou um artigo da cientista Natalia Pasternak em que ela afirma que a homeopatia é nada. Adepta da medicina com base científica, de quebra, em seu artigo, ela menospreza o saber tradicional. Daí eu ter me lembrado de dona Elza, a parteira.

Meu instinto de jornalista funcionou. E além de me lembrar de Elza, quando li o artigo busquei saber a opinião de meu médico, homeopata e acupunturista, Mauricio Tatar (autor do livro “Cuidar de Si”, escrito por mim). Mandei-lhe o artigo, e achei que ouviria dele um argumento radical. Mas me surpreendi:

“Se fosse em outro momento, eu responderia com irritação. Mas aprendi que não vale a pena, que não é preciso convencer ninguém. O que importa mesmo é a relação do médico com o paciente. E o que precisamos, de fato, hoje, é melhorar essa relação. Não se pode substituir o médico por uma máquina, e esta é a tendência”.

Mauricio Tatar contou-me sua experiência, assim que se formou médico, no Instituto Weizman de Ciência, em Israel. Ali ele tinha todas as ferramentas necessárias para fazer pesquisa. Estudou, escreveu o projeto, saiu de lá e voltou para o Brasil com a certeza de que o que mais queria era lidar com pessoas, não com bichos de laboratório. Por isso buscou a homeopatia, especialidade médica que, segundo ele, dá uma atenção especial à história das pessoas.

“Precisamos restabelecer essa relação, como existia antigamente, o médico de família. Acabou sendo substituída por pílulas salvadoras, isso não é bom. A homeopatia não nega os avanços da Ciência para tratar as pessoas, mas insiste na relação com o médico. Até porque o Brasil tem muita gente que não tem acesso a exames, remédios sofisticados. Como elas se tratam?”, pergunta o médico.

Tatar conta ter observado em seu consultório, não poucas vezes, que o paciente consegue se sentir melhor somente ao contar sua história e ser ouvido com paciência e carinho.

“Eles falam: ‘estava com uma dor de cabeça ali na sala de espera, mas passou durante a consulta’. Isto não é milagre, é a atenção que eu dou, as pessoas precisam disso. E mais: quando o paciente confia no médico, é mais fácil que o medicamento dê resultado”.

Mas Mauricio entende que hoje as pessoas têm pressa. Querem se livrar logo dos sintomas. Por isso usam medicamentos que prometem mais rapidez. Por isso usam tantos medicamentos: “Se a dor não passa com 5mg, então aumenta-se a dose”, disse ele.

Quanto mais eu penso sobre tudo isto, mais encontro similaridade com as questões climáticas, meu foco de estudo. Mais especificamente, com a complexidade que envolve a relação do homem com a natureza, o que vem causando mais intensidade dos eventos extremos. Não temos tido a escuta necessária, o carinho necessário com nosso entorno.

 Estamos extraindo do meio ambiente mais do que necessitamos, justamente porque temos pressa e queremos infalibilidade, conforto, segurança, riqueza, saúde etc, etc. Sem levar em conta que o tempo da natureza é outro, que seus bens são finitos. Sem considerar, nem mesmo respeitar, o conhecimento adquirido pelos povos que acatam este tempo e, por isso mesmo, têm uma relação mais reverente com a natureza.

Talvez seja este o caminho que precisamos trilhar.

No livro “One planet”, uma espécie de súmula do que foi debatido na primeira Conferência Mundial do Meio Ambiente convocada pela ONU, há exatos 50 anos, em Estocolmo, os autores Barbara Ward e René Dubos já traçam aquele como um momento crítico do planeta. O debate da época, nos países ricos, girava em torno da intervenção do homem sobre a Terra e sobre a necessidade de se preservar uma unidade e, ao mesmo tempo, respeitar tradições, crenças e diversidade.

A tarefa deixada pela ONU para os pouco mais de noventa países que participaram da reunião era definir o que deve ser feito para manter o planeta Terra um lugar adequado para a vida humana não apenas naquela época, mas também para as gerações futuras.

Ainda estamos devendo, como vemos frequentemente.

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O caminho do ativismo ambiental desde a ‘Rio-92’ à ‘Rio+30 Cidades’ que vai acontecer em outubro

Outubro vai ser um mês intenso para os cariocas. Não bastassem as eleições, que prometem concentrar uma carga feroz de posições polarizadas, teremos na cidade a Conferência Internacional Rio+30 Cidades, que acontecerá nos dias 17, 18 e 19. O evento é, em parte, comemorativo: em 1992 sediamos a primeira Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que se chamou Rio ou Eco-92, convocada pela ONU. Ao final daquela reunião, ficou estabelecido que haveria uma outra cúpula mundial, nos mesmos moldes, dez anos depois, o que aconteceu na cidade de Johanesburgo, na África do Sul. Em 2012, o encontro voltou a ser no Rio de Janeiro, no Riocentro, e recebeu o nome de Rio+20.

Foto de arquivo pessoal de Severn Suzuki divulgada na edição do Razão Social de abril de 2012, pouco antes de acontecer a Rio+20, em reportagem de Camila Nobrega

Já se passaram dez anos, portanto. (O tempo passa sem pedir licença, não acham?). E na quarta-feira, dia 30 de março, estive no Museu do Amanhã, a convite da Prefeitura do Rio, para o lançamento da Conferência atual, que agrega o nome Cidades no título.

A plateia do auditório do Museu estava bem cheia, e era possível perceber que a grande maioria dos presentes representava organizações da sociedade civil. Uma pessoa entregou ao prefeito o prêmio de inimigo da natureza. O prêmio foi recebido com ironia por Paes, que assegurou que já estava “com saudades desses prêmios”.

Por que Paes mereceu a premiação? Talvez a ferida causada pela remoção de 340 árvores de um terreno na Tijuca para construir um prédio não esteja fechada, embora tenha acontecido no ano passado. A gestão passada de Paes foi marcada também pela construção totalmente inadequada de uma ciclovia na orla, que caiu duas vezes e causou a morte de um homem. Atualmente, Paes acumula ainda algumas agruras ambientais, como a falta de árvores urbanas: a Prefeitura tira muitas árvores, mas nada costuma ser plantado em seu lugar.

Enfim, sempre haverá motivos para se criticar autoridades governamentais versus descaso com o meio ambiente, e sempre haverá quem menospreze tais motivos, tanto quanto quem os escreva com cores fortes.  Para quem está nessa estrada há duas décadas, como eu, não é mais novidade.

Importante, então, é aproveitar esse tempo de comemoração para transformar a efeméride em uma data produtiva, que possa alimentar o debate sobre meio ambiente. Seria injusto dizer que nada foi feito de trinta anos – data da primeira Rio – até agora. Mas, considerando os últimos relatórios lançados pelos cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês), muito ainda precisa ser feito pelo meio ambiente. E, considerando os últimos relatórios que a ONG Oxfam lança anualmente, nos quais a desigualdade social está sempre em ascensão, o desenvolvimento continua privilegiando apenas alguns.

A Conferência Rio+30 Cidades terá tudo aquilo que já estamos habituados a ver em outras conferências do Meio Ambiente. A diferença geográfica desta para a Rio+20 é para melhor: enquanto há dez anos os encontros ficaram concentrados no Riocentro, ou seja, um local de difícil acesso, desta vez o Museu do Amanhã, no Porto, e o Museu de Arte do Rio (MAR), que fica em frente, serão os locais mais utilizados. Haverá também eventos paralelos em três armazéns portuários. O encontro das organizações da sociedade civil, que costuma ser palco para eventos culturais, deve acontecer na Praça Mauá. É bom para estudantes, por exemplo, que terão mais facilidade para chegar.

Outra coisa boa: de forma simultânea, vai acontecer o 8º Fórum Global do Pacto de Milão, que debaterá as políticas locais para o aumento da segurança alimentar. Tema indispensável. Ainda não foi divulgada a lista das celebridades estrangeiras aguardadas, mas certamente vão agitar o debate.

Aqui, é importante fazer uma distinção: há diferença entre Rio-92 e COP (Conferência das Partes), embora ambas sejam convocadas pelas Nações Unidas. A Rio-92 fala sobre desenvolvimento e meio ambiente, enquanto a COP foca nas mudanças climáticas, nos efeitos provocados pelos gases poluentes que, como se sabe, têm sido emitidos cada vez mais e mais desde a Revolução Industrial. Resultado de desmatamento e da industrialização acelerada.

Os organizadores do evento prometem que a agenda da Rio+30 cidades será focada no desafio de se tentar diminuir as desigualdades sociais. A premissa, dita por Paes, é que só haverá crescimento econômico se a desigualdade diminuir. Esperamos que o documento final trace novas ideias de políticas públicas eficazes nesse sentido.

Haverá também, quase certamente, um ou uma personagem/símbolo da geração mais nova para mandar um recado contundente que será replicado milhares de vezes até… bem, até cansar. Sem resultado prático.

Na Rio-92, essa personagem foi Severn Suzuki. Lembro-me muito bem dela porque, na época, eu trabalhava como subeditora da Editoria Rio do jornal O Globo, ou seja, fiquei nos bastidores, editando páginas que iriam para as bancas no dia seguinte. Ainda era assim que funcionava o jornal. A estudante canadense Severn, na época, tinha 12 anos. Meio descabelada e com um vestido simples, ela subiu ao púlpito reservado às autoridades, deu seu recado: pediu aos líderes que fizessem algo para reduzir o impacto ambiental, diminuir desigualdades e erradicar a fome.  E ficou famosa.

Dez anos depois, já como editora do caderno “Razão Social”, dei à repórter Camila Nóbrega a tarefa de encontrar Severn Suzuki para a nossa edição especial da Rio+20. Camila entrevistou a canadense, que já virara uma bióloga, tinha um filho e continuava uma ativista ambiental (veja aqui a reportagem).

Busquei, hoje, mais informações sobre Severn. E descobri que a frase que ela fez ecoar – “Eu sou apenas uma criança e não tenho todas as soluções” – acabou virando o título de um filme de animação – “Only a child” – baseado em seu discurso (veja aqui o trailer). Ou seja: a menina que calou os líderes da Rio-92 continua lutando por melhorias no meio ambiente.

Vamos aguardar a Rio+30. E, só para registro, acho bom que entre o tema “cidades” no título. Amplia o debate para que se possa pensar numa urbanização mais inclusiva e voltada ao bem viver.

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