A sustentabilidade é um mito?

Quem já passou por uma redacao de jornal na hora do fechamento sabe como é. Um momento unico, indizível. Em questáo de minutos, os jornalistas têm que fazer o melhor titulo, uma legenda criativa, não cometer erros ortograficos. E o tempo correndo, o editor avisando que está na hora, que o prazo está se esgotando. Às vezes alguém empaca em uma palavra e grita:
— Fórum tem acento?
A criatura nem espera resposta, até porque sabe que  ninguém está conseguindo, de fato, dar atenção naquele momento. Mas o  simples  falar alto já  ajuda a descobrir o caminho das pedras.
Pois foi nesse ambiente solidário, isolacionista, inquietante, caótico, criativo, ensandecedor,  que resolvi passar grande parte da minha existência. E foi também nesse cenário que comecei a me aprofundar no tema da sustentabilidade, como editora do caderno Razáo Social, suplemento do Globo extinto em julho do ano passado. Lembro-me perfeitamente quando, num dia de fechamento, resolvi pedir à diagramadora (profissional de importancia relevantissima dentro de uma redação, pois é quem vê e desenha o jornal na tela do computador), pela primeira vez, para `fazer caber` a palavra sustentabilidade no título da matéria que eu estava escrevendo. Para quem nao está familiarizado com o termo, `fazer caber` significa usar as ferramentas disponíveis na internet para espremer uma palavra. E ela retrucou:
— Ah, Amelia, nem pensar, nao cabe. E depois, cá entre nós, né? Quem vai ler uma materia com um nome complicado desses no título?
Estávamos em meados de 2005, eu já editava o Razão Social desde 2003 e, de fato, eu mesma não estava lá muito convencida de que deveria usar sustentabilidade no título. Afinal, fora `educada` desde o primeiro número do Razão a usar o termo responsabilidade social, talvez um pouco mais palatável. Assim, disse `ok, você venceu` e troquei o título.
 A diagramadora exultou, eu encasquetei. Como é que poderia falar sobre um movimento sem usar o nome dele? Será que um jornal diário não comportaria esse tipo de reflexão?
Seis anos se passaram, e veio a Rio+20. Evento glamuroso, cheio de pompa, com a presença de 120 chefes de estado, convocado pela ONU para se discutir a transição do mundo para uma Economia Verde 40 anos depois de Conferencia de Estocolmo em 1972.  Fiz parte do time que cobriu a Conferëncia e uma noite, na Redação,  enquanto tentava o tal título criativo, percebi que estava vivendo um momento totalmente diferente daquele lá atrás, no in[icio do Razao Social. Ali, naquele momento,  o dificil  era driblar o uso das expressões  sustentabilidade ou verde.  Todo mundo falava nisso o tempo todo.
O que aconteceu nesse período de tempo para provocar uma mudança tão significativa?
 Aqui vale um registro histórico que pode ajudar a refletir. Em junho de 2006 fui chamada pela entáo diretora da Philips, Flavia Moraes, para uma entrevista coletiva em Manaus em que a empresa reuniu jornalistas para contar que a partir daquele momento estava se colocando num outro patamar, que não o de somente uma corporação socialmente responsável. Percebendo o
 esgotamento desse modelo, a Philips queria passar a ser inserida na lista de empresas sustentáveis. Ela entendia que, assim, estaria envolvendo toda a corporaçáo num caminho sem volta, atenta aos pilares econmico, social e ambiental.
Ato contínuo à publicação da reportagem, o então presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social (ao qual a Philips se mantinha como sócia) Oded Grajew, enviou-me uma carta pedindo que publicasse. Era uma dura resposta a polêmica surgida em torno do conceito responsabilidade social por causa da atitude da Philips: `Nào é importante saber se o nome mais adequado é responsabilidade social, sustentabilidade, boa governança corporativa ou outra denominação qualquer. O mais importante é entender que estamos falando de absolutamente todas as ações da empresa e mais importante ainda é praticar este conceito`.
A discussão ainda está em aberto. E este blog pretende  acompanhar passo a passo, atualizando o tema,  sem verdades, n em certezas, mas convidando à reflexão.
 No livro `Corporação 2020` (ainda sem tradução no Brasil), recentemente lançado pelo economista indiano Pavan Sukhdev ,  ele chama atenção para uma questão importante: pressionadas pela opiniao pública, que foi sendo alimentada desde a primeira Conferencia  em 1972, as empresas passaram a desenhar para si próprias um cenário bem cuidadoso onde todos ganhariam se tomadas algumas iniciativas sustentáveis.
Segundo a resenha do livro publicada no jornal `Valor Econômico` do dia 18 de dezembro passado pelo jornalista Ricardo Abramovay, `a grande virtude do novo livro de Sukhdev  é que ele se distancia da visão complacente e apologética de que a resposta empresarial aos grandes  desafios socioambientais de nosso tempo é sempre ganha-ganha. Ele reconhece, é  claro, a conquista de riqueza, a melhoria da formação dos trabalhadores e a própria ampliação dos horizontes de circulação dos bens, dos serviços e das pessoas, como resultados do funcionamento das empresas modernas. Mas o traço central das atividades corporativas dominantes a partir de 1920 (em oposição ao que deve ocorrer com a “Corporação 2020”) é a obtenção de ganhos cada vez mais apoiados em perdas, tanto para os ecossistemas como para o próprio mundo social.`
O nosso desafio, portanto, como cidadãos comuns, é enorme. Pensar num novo modelo civilizatório que envolva as empresas, com cuidado para que elas, acostumadas que são a tomar sempre atitudes estrategicas, nao transformem tudo em  preço. Que envolva os movimentos sociais sem esquecer que a cultura é importante. Que envolva os movimentos ambientalistas sem descolar da realidade, ja que não existe  meio ambiente sem gente.
Não existe fórmula mágica, mas acredito que a filosofia pode ajudar. Sobretudo os filósofos franceses da decada de 60, como Felix Guattari (que criou o termo Ecosofia) e Gilles Deleuze. Juntos, eles pensaram e criticaram  um sistema construído com base no pensamento aristotélico do julgamento, do bem e do mal, dos viloes e mocinhos. Entender a sustentabilidade exige, sobretudo, que se abandone um pouco visões tão rígidas.
Para terminar esse `post de apresentação`, convido os leitores a `visitarem` o reino da Kakania, idealizado por outro filosofo, Robert Musil, menos conhecido porque so escreveu uma obra – O Homem sem Qualidades – publicada post mortem nos anos 50. Em poucas palavras ele consegue por o dedo na ferida de uma civilização da abundância, da ganância. Pois não são eles, notoriamente, os dois males que mais nos enlaçam em direção a uma vida insustentável, seja lá qual for o significado deste conceito?  Reparem nesse trecho:
`Na Kakania, esse pais desaparecido, incompreendido, em tantas coisas exemplar mas não reconhecido, havia dinamismo, mas não demais. Naturalmente também corriam automóveis nessas estradas, mas não muitos.  Também ali se preparavam para conquistar os ares, mas não com muita ênfase… Não se tinham ambições de economia mundial, nem potencia mundial… Gastavam-se imensas somas com o exército, mas só o suficiente para continuar sendo a penultima das grandes potencias. Tamb-em a capital era um pouquinho menor do que todas as demais maiores cidades do mundo, mas um pouquinho maior do que são as meras grandes cidades`. E agora, a cereja do bolo que Musil nos oferece, com a qual eu termino esse post, prometendo que os próximos não serão tao longos: `E na Kakania so se tomava um genio por patife, nunca se tomava um patife por genio, como acontecia em outros paises`.
Pretendo postar dia sim, dia nao. Ou a qualquer momento, em edição extraordinária. Portanto, até sexta-feira! E obrigada pela visita.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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27 respostas para A sustentabilidade é um mito?

  1. Maria Cristina Valente disse:

    Amélia, sexta-sim, sexta-não (ou em edições extraordinárias) estarei aqui bebendo da fonte de sua sabedoria. Fico feliz pelo blog e a oportunidade de continuar aprendendo com você.

  2. Tina Almeida disse:

    Sempre grandes viradas, Amélia!!! Vou ler o blog e sei que logo terei grandes notícias suas. Vem me visitar. Estou na Gávea. Vou adicionar vc à página da loja. Feliz 2013. Mil beijos, Tina

  3. Denise disse:

    Amelia muito bom ter este seu blog para ler- parabéns e sucesso nesta nova empreitada.

  4. Carmen disse:

    Oi Amelia, gostei muito. Você escreve muito bem sobre as nossas responsabilidades sociais.

  5. solange55 disse:

    Tem super interessante, atual e necessário, e tudo muito bem colocado em texto, que, aliás, está EXCELENTE! Adorei!

  6. Cristiane de Cássia disse:

    Amélia, foi você quem me ensinou o significado dessa palavrinha “sustentabilidade” e é claro que vou ser uma de suas assíduas leitoras, viu? Sucesso, sempre!

  7. Ana Alvarenga disse:

    Muito bom… vou acompanhar as reflexões!

  8. Ana Branco disse:

    Que bacana Amelia, já curti e compartilhei no Facebook.

  9. Marcus Veras disse:

    Bem pensado, bem escrito.

  10. veras666 disse:

    Bem pensado, bem escrito!

  11. Renato Grandelle disse:

    Muito bom texto, Amelia! Só que me deixou a dúvida: fórum ainda tem acento? Bjs!

  12. Querida Amélia, SUCESSO, SUCESSO! Conte conosco para o que der e vier. Você faz TODA diferença no diálogo sobre sustentabilidade. Estamos certos que sua nova etapa também será muitíssimo bem sucedida. Nos escreva dando notícias. Queremos dar um bom registro divulgando seu novo blog! Bj, Sônia Araripe e Equipe Plurale (soniaararipe@plurale.com.br)

    • Obrigada, querida!!!! Estarei por aí, estreando nessas redes sociais, e neste primeiro dia, sinceramente, estou gostando bastante de receber notícias de pessoas de toda parte que eu nem tinha ideia. Saí do Globo no dia 31 de dezembro! Depois de 26 anos de casa. Mas é interessante, bem interessante entender que as redes podem sim servir para uma nova possibilidade de a gente divulgar esse tema tão importante para as pessoas quanto (ainda) distantes do dia a dia delas. Um beijo grande. Meu email é o ameliagonzalez848@gmail.com. Qual o seu?

  13. Julia disse:

    Amei, Amelia!! Seguirei acompanhando. Bjs!

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