As chuvas virão. Tragédias também. E ninguém fala em adaptação

O noticiário de hoje sobre as chuvas já consegue causar irritação, sentimento bem próximo  à consternação e impotência pelos prejuízos causados a tanta gente. Não é possível que se continue não cobrando do governador Sergio Cabral uma atitude madura, consciente e responsável sobre a adaptação do estado às chuvas. Tive o cuidado de rever a última entrevista que ele deu para falar da questão dos royalties que tem chance de perder, e em nenhum momento o governador disse que este dinheiro poderia ser usado para tirar as famílias das áreas de risco e construir outras casas para elas. Não. Ele diz que sem os royalties não terá condições de fazer os eventos internacionais que todos esperam ávidamente. Diz ainda que não terá dinheiro para pagar os servidores. E ponto. Nenhuma menção ao que deveria ser uma das prioridades de seu governo, já que ele administra um estado onde chove muito e vai passar a chover mais intensamente por causa dos efeitos causados pelas mudanças climáticas. Isso é real, não é ficção. Mas Sergio Cabral não vai aos jornais e televisões dizer que sem o dinheiro dos roylaties ele não terá como levar adiante seu plano de adaptação aos desastres naturais porque esse plano, se existe, não é prioridade. Tampouco a mídia se lembra de cobrar isso dele, a menos que esteja sob o impacto da tragédia que vem sempre, entra ano, sai ano.

Estive na Holanda em 2011, a convite do governo, que queria mostrar ao mundo o que está fazendo como adaptação às mudanças climáticas e, para isso, chamou representantes da imprensa de vários países. Não, eu não estou comparando alhos com bugalhos. Sei perfeitamente que a Holanda é um país muito menor e com muito mais dinheiro do que o nosso, e que a realidade é outra.  Mas a consciência, não só dos governantes como da população, de que é preciso fazer algo para enfrentar as águas do Mar do Norte, que certamente subirão a ponto de causar alagamentos quanto maior for o degelo do Ártico, é de dar inveja. Já que não dá para ter tanto dinheiro, me dou o direito de sonhar em perceber por aqui,  pelo menos, esta noção de cuidado que eles têm.

Só para se ter uma ideia: numa pequena cidade chamada Arnhem há 50 casas lindas, daquelas que parecem casinhas de boneca, que quando estive lá estavam prestes a serem demolidas para ampliar o leito do rio iJssel quando suas águas aumentarem por causa do degelo. E mais: uma barreira gigante, com dois portões em forma de arco com 22 metros de altura por 220 de comprimento foi construída desde 1997 para se fechar diante de qualquer ameaça de enchente  à cidade e ao Porto de Roterdã. Custou US$ 700 milhões e exige uma equipe de dez pessoas que ficam ali, em turnos, apenas para fazer a manutenção e tomar todas as providências porque o único que consegue fechar o portão é o computador. Alguém terá que telefonar para o prefeito se acontecer.

Vejam bem: isso não quer dizer que a Holanda seja o país padrão exemplar no tema das mudanças climáticas. Não é. A própria Roterdã é uma das cidades que mais emite carbono do mundo. O que está acontecendo ali é que eles estão cuidando muito bem do quintal deles. O convite à imprensa mundial para conhecer as iniciativas que estavam sendo tomadas veio justamente numa época em que estava para ser aprovada no Parlamento uma lei permitindo a criação de um fundo – de cerca de 1 bilhão de euros por ano – para as obras de adaptação. Não consegui saber se foi ou não aprovada a tal lei.

Voltando à nossa realidade, o que fica claro é que depois que a chuva passa, literalmente, os assuntos prioritários passam a ser outros.  Os candidatos ao governo também não tocam no assunto. Sustentabilidade, mudanças climáticas, desastres naturais, são temas que não dão voto. E isso é impressionante porque mostra uma desconexão com a realidade não só dos candidatos como dos eleitores, que não se acostumaram a cobrar isso deles.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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