O vídeo do vagão superlotado e um pensamento sobre trabalhadores

Era um dia de semana comum no meio do mês de maio do ano passado. Estávamos criando  uma edição especial do Razão Social, com o foco em pessoas, quando decidi fazer aquilo que mais sei e gosto de fazer na vida profissional: apurar, conversar com pessoas. Meu mote seria a vida dos trabalhadores numa cidade grande como o Rio de Janeiro.  Queria mostrar que a vida dessas pessoas, seja no escritório ou nas ruas, muitas vezes é dura, muito dura. Comparar com os trabalhadores escravos da região rural, aqueles que ficam trancados numa fazenda trabalhando de sol a sol para não ganhar um tostão no fim do mês é demais, claro. Por outro lado, como denominar  uma jornada que começa duas, três horas antes do horário em que se bate o cartão e só vai terminar duas ou três horas depois, sem deixar um tempo mínimo para a pessoa fazer outra coisa na vida que não seja trabalhar?

Lembrei-me desse dia, da conversa que tive com essas pessoas, porque a maior queixa da maioria delas era com relação à precariedade do transporte público para poderem se locomover. E ontem circulou pelas redes sociais um vídeo absolutamente assustador,  mostrando como as pessoas penavam para entrar num dos carros do Metrô aqui no Rio, na Estação Presidente Vargas, às 18h30m.  O vídeo é assustador porque nos põe frente a frente com uma realidade cruel. Mas essa realidade cruel faz parte da rotina de milhares de trabalhadores, não só no Rio como em outras cidades grandes. A empresa Metrô Rio veio a público se justificar, disse que tinha havido um incidente e por isso o vagão estava tão cheio. Mas o resultado da minha apuração, naquele Razão Social especial, além de alguma experiência pessoal em momentos em que precisei pegar Metrô na hora do rush, provam que a superlotação dos carros nesse momento crucial para o ir e vir dos trabalhadores é rotina, não é nenhuma grande novidade. A diferença é que, daquela vez, tinha uma câmera para registrar.

Vânia Nascimento, secretária do Instituto Anthropos, em Botafogo, mora em São João de Meriti e foi uma de nossas personagens no Razão Social que foi para as bancas no dia 22 de maio do ano passado. Ela tinha acabado de conseguir que seus patrões mudassem seu horário de trabalho porque andava muito desanimada com o fato de ficar duas horas e meia a três dentro de um ônibus para ir e voltar de seu trabalho:

—- Tinha a opção do Metrô, mas uma vez eu cheguei a ter uma crise nervosa, tamanho o sufoco dentro daqueles carros cheios — disse ela.

Kelly Jesus Soares, trocadora de ônibus, mora em Campo Grande, pega no batente às 5h e, para isso, tem que sair de casa às 2h30m.  O gari Leandro Ferreira mora em Vila da Penha e, como tem que chegar às 6h no Largo do Machado, acorda às 4h30m. Celio Elias, padeiro, sai de casa às 6h30m para conseguir chegar em Laranjeiras às 8h. Todo mundo tem, no máximo, uma hora de almoço, com exceção de Kelly, que precisa comer um sanduíche rápido na frente dos passageiros porque trocador e motorista não têm hora de almoço.

Tempo para cuidar do corpo, ler, estudar, é coisa de quem tem mais sorte, por exemplo aqueles que trabalham em escritórios no Centro da cidade e só precisam tomar um ônibus. Que vai e vem cheio, sem dúvida. Mas, ao menos, é um só. Nos comentários postados sobre o vídeo no Metrô (veja abaixo) há quem se exaspere com a passividade das pessoas em se deixar serem empurradas e amassadas daquele jeito. Para mim, é óbvio que aquilo é mesmo desespero de saber que se não pegar aquele trem vai demorar muito mais para chegar em casa e diminuir muito mais o tempo de sono antes de acordar no dia seguinte e começar tudo de novo.

Meu interesse pela sustentabilidade, que entendo como um movimento que pretende pôr em discussão um novo modelo de civilização, é justamente a possibilidade de não ficar na queixa, na denúncia. Está cada vez mais difícil viver em grandes cidades, e isso é fato. Mas é fato também que, segundo dados da ONU divulgados ano passado, cresce assustadoramente o número de pessoas que buscam os grandes centros para viver. Assim, se não há como escapar dessa superpopulação, é importante tentar pensar em criar soluções. Lembrando sempre que há cidades grandes – Paris, por que não?- em que se vive melhor. Em que os investimentos são voltados para melhorar a vida das pessoas, não só em trazer eventos internacionais para engordar os cofres.

Para isso, os moradores precisam saber cobrar de seus prefeitos. No último Encontros O Globo/Revista Amanhã do ano passado, que mediei, discutiu-se exatamente isso. Convidado para mostrar seu trabalho à frente do movimento Nossa São Paulo, o empresário Oded Grajew chamou a atenção da plateia para o fato de que pouca gente sabe que desde 2009 a Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro obriga os governantes a elaborarem um Plano Estratégico com metas e, semestralmente, apresentar um balanço das propostas cumpridas. O prefeito Eduardo Paes tem até o fim deste mês para publicar o balanço de seu primeiro mandato. Alguém aí sabia disso?

O vídeo do Metrô pode suscitar ainda um outro debate. Empresas que se põem na esteira da sustentabilidade, ou mesmo da responsabilidade social corporativa, precisam cuidar para que seus funcionários tenham uma vida melhor. Portanto, poderia vir delas o protagonismo de uma mudança de horários em seus escritórios para evitar o gargalo de hora de chegada e hora de saída. Como se vê nos casos dos nossos entrevistados, que saem de madrugada de casa e ainda assim levam muito tempo no trânsito, isso pode ser que não dê em nada. Mas não custaria tentar.

Por último, e para não perdermos o bom costume de tentar, pelo menos quase sempre, trazer referências teóricas à nossa prática, vale uma visita à obra de Hannah Arendt, que em “A condição humana” faz uma análise preciosa sobre o mundo no qual estamos inseridos, de que maneira somos impactados por essa ou aquela situação e sobre o que são as atividades humanas e como se diferenciam. Numa conferência que deu certa vez, sobre o conceito do homem como trabalhador, a pensadora prevê a vitória do “animal laborans” na era moderna, que se manifesta, por exemplo, ‘na transformação da obra em trabalho e dos objetos de uso em objetos de consumo”.

Arendt faz um minucioso estudo sobre o trabalho na condição humana que hoje, nas grandes cidades e sob as condições em que vivemos, mereceria outro tanto de observação e detalhamento, embora o pensamento dela – escrito em meados dos anos 50 –  esteja ainda vivo e atual.  Ela se preocupa com a perda de identidade do indivíduo que é obrigado a seguir horários e a trabalhar e viver em conjunto com os outros o tempo todo.  Para ela, “é inteiramente correto afirmar que, para o animal laborans, o sentido e o valor do trabalho dependem inteiramente das condições sociais”. Mas as condições sociais para o trabalho ‘são aquelas nas quais o indivíduo pode perder a sua identidade”.

O exercício é tentar criar uma deriva para o pensamento de Arendt, preocupando-se e tentando salvar algo próximo à singularidade de cada um,  tendo como pano de fundo a rotina já descrita (e observada pelas câmeras) do cotidiano dos trabalhadores de nosso cotidiano.  Está lançado o desafio.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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