Remoções, o problema da modernidade

Emília Mendes é viúva e tinha 84 anos quando estive em sua casa, em Porto Velho (capital de Rondônia), no fim de 2011. Só dorme em rede, só anda descalça, fala baixinho  mas escuta e entende muito bem tudo o que a cerca. Por isso mesmo, não gostou nada quando recebeu a visita de uma equipe da Usina Santo Antônio  – uma das quatro maiores hidrelétricas do Brasil, com 2.218 MW de energia assegurada – que foi ali para avisá-la sobre uma grande mudança na sua vida.  Emilia –  assim como outros 1.735 moradores da região – teria que sair de sua casa para dar lugar ao empreendimento, um dos que dá ao Brasil destaque tanto no plano nacional quanto internacional.

Acontece que Emilia morava ali desde que nasceu. E tinha uma rotina, sabe-se lá desde quando, de acordar todos os dias à mesma hora, antes mesmo do dia clarear, fazer seu café e recostar-se no umbral da porta da frente para observar  a árvore plantada em seu quintal.  Nas duas casas ao lado moravam seus filhos, o que também lhe dava segurança e tranquilidade. Assim, quando os técnicos treinados em recursos humanos  disseram-lhe, de um jeito bem explicadinho,  que ela podia escolher entre receber um dinheiro de indenização ou ir morar numa vila de casas novinhas não muito longe dali, ela ouviu com atenção e depois de algum tempo disse, com voz baixa mas nem um pouco hesitante:

— Daqui eu só saio morta.

Quem há de tirar a razão de Dona Emília? Em que livro está escrito, qual a lei criada pelos homens que regula o direito de uma pessoa morar para sempre num só lugar? O progresso, e só o progresso, tem dessas coisas. Perverso por um lado, necessário por outro. E, se em mãos e governos que não respeitam os outros, vai servir como mote de injustiças sem fim. Não foi o caso. Dona Emília foi ouvida, teve direito a réplica e tréplica. E quando os homens e mulheres da Santo Antônio Energia viram que não teria jeito, arrumaram um: deslocaram a casa dela alguns metros, o necessário para tirá-la da área de risco. A árvore continuaria ali, a rede onde se deitava, o umbral seria outro, de madeira mais nova. Mas Dona Emilia exigiu: queria a madeira velha de sua casa velha no jardim. Assim foi feito.

Fui encontrá-la numa tarde quente, quando fiz a reportagem sobre os reassentados da Santo Antônio. Perguntei se ela estava feliz e a resposta veio clara:

— Estou não, minha filha. Mas, que jeito?

Pois é, que jeito? No livro “Cidade Febril” (Ed. Companhia das Letras, de 1996), o autor Sidney Chalhoub conta a triste história do fim de um dos cortiços mais famosos do Rio de Janeiro, o Cabeça de Porco. Foi em 1893 e os moradores – os dados variam, entre 400 e duas mil pessoas – tinham recebido apenas três dias antes o aviso de que teriam que sair dali. Houve resistência, emprego de força armada e, no final, o prefeito Barata Ribeiro parece que concedeu aos ex-moradores a possibilidade de levarem consigo as madeiras que lhes restaram. Foi assim, garantem os historiadores, que nasceu o primeiro morro, ali atrás, para onde os sem-teto correram a construir barracos com as madeiras.

Barata Ribeiro, segundo Chalhoub, acobertado pelo poderoso Floriano Peixoto, teria – ah, quem garante? – o desejo de fazer uma limpa naquela parte da  cidade que havia sido habitada por moradores pobres, muitos ex-escravos, pessoas consideradas perigosas para o resto da sociedade não só por seus hábitos barulhentos e desordeiros como porque “passaram a representar perigo de contágio no sentido literal mesmo… porque as habitações coletivas seriam focos de irradiação de epidemias, além de, naturalmente, terrenos férteis para a propagação de vícios de todos os tipos”.

O único link possível entre os moradores de Porto Velho e esses, dos cortiços, é claro que é o fato de estarem no caminho do progresso. Felizmente hoje temos  a Declaração dos Direitos Humanos  (texto escrito a muitas mãos depois da II Guerra) que nos afasta de atitudes  tão radicais quanto a do prefeito Barata Ribeiro. E vivemos também numa sociedade mais sensível, que não permitiria nunca fazer escárnio com a desgraça dos desabrigados quanto, na época, foi feito pela imprensa local. No livro de Chalhoub há a reprodução de uns versinhos publicados no jornal “Gazeta”, exaltando a atitude do prefeito,  que são de revoltar o estômago. Vou poupar os leitores…

Há outro ponto de convergência, lá como cá, que não é a maneira como as pessoas são excluídas. O que se repete é a exclusão. Em nome de quê? Depende do momento.

Em agosto do ano passado tive a chance de fazer um tour pelo Morro da Providência em companhia de pessoas muito especiais. Eram acadêmicos, do Núcleo de Favela e Cidadania da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que todos os anos fazem um colóquio internacional. O tema do ano passado, que acabo de saber que vai virar um livro e que terá na contracapa uma parte da coluna que escrevi sobre a visita ao Morro, foi Remoções Urbanas. Como se sabe, a Providência está no meio do caminho do Morar Carioca, obras que o Prefeito Eduardo Paes está fazendo no local e que incluem, segundo a Prefeitura,  “um teleférico, um plano inclinado, alargamento e pavimentação de ruas, urbanização da Praça Américo Brum.”

Ebenezer de Souza e Márcia Regina, ambos moradores do local há mais de 50 anos, ciceronearam o grupo que subiu por becos, vielas, ruas largas e apertadas, para conhecer in loco o que as obras estão causando na vida das pessoas. A previsão é de remover mais de 800 casas que são marcadas com  a inscrição SMH (Secretaria Municipal de Habitação) e um número.

— O que essa sigla quer dizer é Saia do Morro Hoje – dizia, irritada, Márcia Regina.

Foi formado um grupo de resistência às remoções. E, obviamente, nem todo mundo é contra. Há quem prefira sair dali, ir para uma casa mais nova, mesmo longe do local onde morou a vida inteira. Mas muitos, legitimamente, gostariam de permanecer em suas casas. Como Dona Emilia, como os moradores do Cabeça de Porco, como tantos outros que tiveram que ceder seu espaço. De novo: em nome de quê?  Insisto nesse ponto porque é aqui que vejo uma grande chance de reflexão sobre um novo modelo de civilização que, para alguns, pode ser chamado de sustentável.

Prefeito do Rio no início do século passado, Pereira Passos não mediu consequências  para transformar uma cidade que ele e a sociedade da época reconheciam como insalubre  e exposta a toda sorte de doenças e epidemias. Saiu marretando tudo o que via pela frente, expulsando muita gente do caminho. Em grande parte, foi o responsável, dizem os especialistas, pelo surgimento dos morros, já que não é possível imaginar que pessoas se deterioram de uma hora para outra. Elas precisam morar. E, quando são excluídas da paisagem, fatalmente vão criar derivas, buscar uma forma de continuar sobrevivendo,  mesmo à margem.

No caso do Morro da Providência, a solução encontrada pela Prefeitura foi construir uns apartamentos à beira da ferrovia para abrigar os desabrigados. Problema número um: a decisão foi tomada de maneira vertical, de cima para baixo, a população não se sentiu ouvida. Problema número dois: o lugar dessas novas construções é mesmo muito pouco agradável, principalmente levando em conta que o Morro da Providência, depois da pacificação, ficou bom de se morar, com uma paisagem de dar inveja. Sair dali para viver com barulho de trem nos ouvidos é uma decisão difícil.

É claro que todo mundo quer a cidade mais bonita. Mas, será que não dá para começar, por exemplo, deixando-a mais limpa?  Cadê a coleta seletiva, o transporte mais eficiente? Como deixar ruas alagáveis a qualquer gota de chuva? Onde estão as árvores, que a cada dia que passa são mais cortadas, também excluídas da paisagem? A iluminação das ruas pode ser melhor, inclusive nas ruas da Zona Norte.  E as praças? Já repararam como estão cada vez mais cimentadas? São decisões administrativas  que exigem cuidado, dinheiro, e dão pouca visibilidade, que pena…

Remover pessoas de suas casas, de sua cultura, é o nó que o progresso nos deixa. E sempre cai para o lado dos mais pobres, já repararam? São eles que estão sempre no meio do caminho da estrada, da hidrelétrica, do teleférico…  Empresas que  têm que desmatar  e minerar para garantir seus investimentos, sabem disso. Nem sempre acertam, às vezes erram muito. Nos últimos tempos, pela demanda social mais intensa, pelo fortalecimento dos movimentos sociais, têm que prestar mais contas.  Mas parece que os governantes  se intimidam pouco com isso quando o resultado será entrar para a história como prefeito de grandes obras.

 

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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2 respostas para Remoções, o problema da modernidade

  1. Cristina Veloso disse:

    Amelia

    Como escreve bem…e escrever bem, para mim, é tornar clara as questões com qualidade, sem simplica-las.
    Com certeza quero ler mais…
    Valeu!!!

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