Que fim levou a COP-15? E o novo livro do autor de “O colapso”

Nunca se falou tanto em meio ambiente, no mundo todo,  quanto em 2009. No fim daquele ano, jornais, televisões, rádios, internet, revistas, estavam com suas manchetes voltadas para Copenhague, a capital da Dinamarca, onde aconteceu a Conferência do Clima da ONU. Esperava-se que os representantes dos 193 países das Nações Unidas acertassem um novo acordo climático para suceder o Protocolo de Kioto, que expirou no ano passado (sem acordos).  Mas, mesmo antes de dezembro, quando houve o encontro que a mídia chamou de “fiasco” por não ter tido um resultado favorável à questão das emissões, líderes, empresários, acadêmicos, escritores, aproveitaram a luz sobre o tema para, cada um ao seu jeito, tecer comentários ou noticiar decisões.

Na onda das decisões, o primeiro ministro japonês, Yukio Hatoyama, convocou uma mega entrevista coletiva, em setembro de 2009, para jornalistas do mundo todo, e avisou que pretendia reduzir em25% as emissões de CO2. Ganhou espaço, foi louvado, elogiado pela ONU, mas deixou claro também que estava condicionando o plano à implementação de medidas semelhantes de outros países durante a COP-15 (como foi chamada a Conferência realizada em Copenhague). Como não houve acordo, ninguém cobrou do primeiro ministro. E, pelo que se sabe até agora, quem ajudou mesmo a baixar as emissões de carbono no mundo todo foi a crise financeira internacional. Segundo o  Global Carbon Project, um grupo internacional de cientistas que analisa dados sobre emissões no planeta,  a crise levou a uma redução de 1,3% na produção de CO2.

Voltando àqueles que, legitimamente, aproveitaram o momento para lançar também seus bons frutos de pensamento e reflexões: dou conta de, no mínimo, três bons livros lançados  naquele ano aqui no Brasil. Um inconveniente  alerta sobre a catástrofe que será para o mundo quando a Terra aquecer, o que os cientistas dão como certo por conta do aumento das emissões, no entanto,  acabou caindo no esquecimento da mídia. Foi-se, assim como o Protocolo de Kyoto, que não conseguiu apoio nem na Rio+20.

O primeiro deles foi “Seis graus” (Editora Zahar), de Mark Lynas, que recebeu o Prêmio da Royal Society. Jornalista e ativista ambiental, ele traçou no livro uma espécie de guia sobre o que é possível esperar a cada aumento de temperatura. Como diz o título, ele parou nos seis graus acima do que é hoje, quando bolas de fogo atingirão o planeta e haverá uma extinção em massa da humanidade. Ou, de quem sobrar para contar a história. Porque, mesmo que o aquecimento seja apenas de 1 grau (o que já está descartado pelos cientistas do IPCC), já haverá uma seca enorme nos Estados Unidos, o que mexerá com toda a economia mundial. Com 2 graus a mais, a população de várias cidades da China sofreria com a falta de água e a Grande Barreira de Corais da Austrália correria o risco de extinção. O ecossistema do Rio Amazonas entraria em colapso se a Terra aquecer mais 3 graus do que é hoje. Em todos os cenários, além das mudanças climáticas e da degradação do meio ambiente e dos ecossistemas, a humanidade também sofreria com a falta de alimentos e de locais seguros para viver.

“Gaia: alerta final”, de James Lovelock, considerado um dos pais do movimento verde por ter sido o primeiro a constatar o acúmulo de CFCs e de outros gases no ar, lançava o que o físico chamou de um último aviso. Para ele, o derretimento das calotas polares está acontecendo de modo mais acelerado do que ele próprio havia anunciado no século XX, em seu primeiro livro “A vingança de Gaia”.  Segundo reportagem de Camila Nóbrega na Revista Amanhã, de O Globo, em 2012 foi registrado o recorde de derretimento da cobertura de gelo no Oceano Ártico desde que as medições começaram a ser feitas, em 1979. No entanto, no ano passado Lovelock veio a público declarar que havia exagerado em suas predições. E fez questão de dizer que até o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, que ganhara o prêmio Nobel em 2007 com o filme “Verdades inconvenientes”, também tinha sido um alarmista.

— Teremos o aquecimento global. Mas ele foi adiado – declarou Lovelock.

Outro que lançou um livro muito comentado foi o geógrafo norteamericano  Jared Diamond. Autor de “O Colapso”, com 690 páginas, ele falou também sobre o meio ambiente em seu livro, mas atacou ainda os hábitos insustentáveis, como consumismo e excessos no setor financeiro.  Um dos capítulos de “O Colapso” lembra a extinção da civilização que morava na Ilha de Páscoa, onde hoje ninguém mora e onde há, espalhadas  tanto no interior quanto no exterior de uma cratera vulcânica, 397 estátuas de pedra, a maioria com 4,5 a 6 metros de altura e pesando de 10 a 270 toneladas.  Num rigoroso exame do que pode ter acontecido, Diamond conclui, com base em estudos e depoimentos, que os habitantes da Ilha de Páscoa consumiram mais do que aquilo que a terra podia dar (algo semelhante ao que estaríamos vivendo hoje).  As árvores foram cortadas para fazer as rodas e cordas para transportarem as grandes estátuas de pedra ou canoas para a pesca.  Os peixes e moluscos eram consumidos sem respeitar o ciclo de vida. A população morreu de fome, houve até canibalismo.

‘Os chefes e sacerdotes de Páscoa justificavam seu status de elite alegando relacionamento com os deuses e prometendo trazer prosperidade e colheitas abundantes”.

Diamond descreveu também o colapso de outras civilizações, como a dos Maia. E faz, é claro, algum link com a nossa sociedade: “A comunidade mundial está atualmente em um curso de não-sustentabilidade e qualquer um dos problemas de não-sustentabilidade seria suficiente para limitar nosso estilo de vida nas próximas décadas”, alerta ele.

Diferentemente de Lovelock, Diamond não considerou a si próprio um alarmista.  Ele ratifica sua preocupação com a sociedade e acaba de lançar um novo livro – “The World Until Yesterday – What Can We Learn from Traditional Societies?” , que ainda não chegou ao Brasil – onde mostra que a civilização atual ainda pode aprender com o comportamento das sociedades tradicionais. O novo livro de Diamond tem 499 páginas e está disponível no Amazon.com.

Segundo uma reportagem da revista “The Economist”, Diamond  passou um tempo morando em Papua Nova Guiné (conjunto de ilhas da Oceania) e aprendeu muito com as tribos locais.  Ele aponta, por exemplo, no livro, que as sociedades tradicionais  sempre mantiveram uma religião como forma de sossegar os angustiados. E diz que na Papua Guiné o Estado só entra como mediador em caso de conflito entre tribos.

A era paleolítica, afirma Diamond em seu novo livro, poderia  também ser o exemplo de boa alimentação, já que suas sociedades não têm nem traços estatísticos das doenças  modernas como câncer, diabetes, ataques cardíacos. Possivelmente por conta de comidas com baixo teor de sódio.

Outro ponto que chamou a atenção de Diamond e que ele relata em seu livro é a educação das crianças:

“Criar os filhos era um assunto comum em que os idosos estavam  profundamente envolvidos, ao contrário do que acontece na maioria dos países ocidentais”.

Segundo a reportagem da revista britânica, Diamond não vende a ideia de que todos deveríamos voltar a viver como os antigos, até porque, obviamente, ele vê muito mais benefícios na atualidade.  “O livro de Diamond é, principalmente, uma pesquisa fascinante sobre um mundo que já se extinguiu”.

Levando em conta que em “O Colapso”, Diamond diagnosticou um padrão de catástrofe do mundo atual, é possível, sim, que ele esteja querendo mandar um recado sobre a possibilidade de um exemplo a ser seguido para quem acredita que é preciso mudar o modelo de civilização em que vivemos. Voltar ao que já fomos antes de conseguirmos, sobretudo, a cura para tantas doenças, não é razoável. Mas estudar essa genealogia é importante, sim, para tentarmos entender uma estrutura tão fissurada como a que temos hoje.

O filósofo francês Gilles Deleuze, no volume 5 do livro “Mil platôs”, recorre às eras neolítica e paleolítica para  estudar a formação do Estado atual. Bem, mas isso já é assunto para outro post.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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