“Não nos preocupamos com reservas de minério, mas com licença para operar”, diz diretora da Vale

O mundo estava novamente em guerra quando, aqui no Brasil, Getúlio Vargas decidiu encampar as reservas de ferro do empresário americano  Percival Farquhar, em 1942, para criar a Companhia Vale do Rio Doce. No início a empresa patinou porque não havia muita demanda de aço no país. Mas essa situação foi mudando aos poucos e… bem, o resto da história a gente já sabe. A empresa cresceu e, em 1997, no governo Fernando Henrique Cardoso,  foi privatizada.  Hoje a Vale é uma das maiores mineradoras do mundo — está em 37 países e sua receita operacional totalizou US$ 11,0 bilhões no terceiro trimestre do ano passado – e  vem sendo alvo de cobranças, denúncias, por parte de quem se preocupa com os impactos socioambientais causados pela sua atividade.  Esse blog não se põe na condição de juiz e acredita no diálogo e na informação como forma de tentar sair do modelo em que se elegem bandidos  e mocinhos; heróis e vilões.  Acho relevante , portanto, que uma empresa que até hoje, em toda sua história, já extraiu 5 bilhões de toneladas de minério da Terra, dê conta de suas atividades, comente sobre seus passivos, compartilhe seus planos.

Como editora do extinto Razão Social, entrevistei o ex-presidente Roger Agnelli e a ex-diretora da Fundação Vale Olinta Cardoso. Esses executivos já não estão mais na empresa, portanto é impossível cobrar deles aquilo que disseram em entrevista. Para atualizar o tema pedi, no ano passado, uma entrevista com a atual diretora de sustentabilidade  (cargo que durante a administração Agnelli teve uma alta rotatividade de executivos), Vania  Somavilla.  Numa longa conversa na sede da empresa no Rio de Janeiro,  Somavilla não se negou a refletir sobre os desafios, os processos ainda emperrados.  Apontou  muitos acertos, mas também alguns erros.   Identifiquei  tremenda semelhança  entre seu discurso sobre  os “desafios de se buscar minério em lugares abandonados pelo estado”  com o de Agnelli quando o entrevistei  em maio de 2007.  Tanto tempo depois, e os desafios ainda são os mesmos? Ao que parece, sim. O que está mudando, ganhando velocidade, é a demanda social. Espera-se, ansiosamente, o momento em que o diálogo entre a empresa, a sociedade e o governo entre em ritmo.

vaniaSegundo o site Observatório do Pré-Sal, as reservas de minério brasileiras são estimadas em 28 bilhões de toneladas .  A estimativa chega à conclusão de que em 2030 não teremos mais minério. Como a Vale se posiciona diante deste cenário?

Vânia Somavilla – Esses números de reserva são meio fictícios. Não se conhece tudo. É possível fazer sondagens sísmicas, mas para se saber realmente o que existe, tem que furar (nesse aspecto, o minério é igual ao petróleo). Tem que fazer perfuração, ver a qualidade do material, a profundidade, o teor. Tem uma cubagem real, mas não tem o valor real de reserva. Além disso, a reserva muda muito com a tecnologia porque quanto mais moderna é a tecnologia, mais se consegue aproveitar de material. Para se entender melhor, vamos comparar com o petróleo. Todo ano mudam as reservas porque o que não se conseguia alcançar antes, é possível alcançar com tecnologia e preço. Por isso a  Vale não tem muita preocupação com a quantidade de reserva, tem muita reserva para ser explorada ainda.  A questão hoje, muito mais complicada para todos os recursos naturais, é se ter acesso a essas reservas. É a isso que chamamos de licença para operar.

Quando eu entrevistei o Roger Agnelli (ex-presidente da Vale) em 2007, já naquela época ele me disse que tinha que ir cada vez mais longe para buscar o minério e que a Vale tinha uma dificuldade grande de achar mão de obra. O cenário ainda é o mesmo? É este ainda o desafio para a tal licença para operar?

Vânia  Somavilla – Sim, continua. Tem que ir mais longe, mais profundo, e a mão de obra é um problema. O minério de ferro não dá em Nova York, dá em locais remotos onde às vezes tem quase a total inexistência de serviços públicos.  Toda a questão social é extremamente desafiante  hoje. A empresa tem que fazer o papel do estado, e isso a Vale não quer fazer. O que fazemos? Acabamos sendo um agente catalisador de forma que as políticas públicas cheguem àquele município. Um exemplo disso é Paragominas, um lugar onde há parceria do poder público local com o setor privado. Dá orgulho estar ali.

Tem algum lugar em que a Vale não tenha orgulho de estar?

Vânia Somavilla – Não. Acho que tem lugares onde a gente poderia fazer mais. Mas sou otimista: acho que um bom governante, se souber tirar proveito de qualquer atividade econômica, vai conseguir fazer uma parceria ideal conosco. O meio ambiente só vai sobreviver com atividade econômica junto. Não tem a menor condição, na minha opinião, de manter a Amazônia intocável, por exemplo.  Por isso criamos lá o Fundo Vale, que é uma tentativa de preservar o local trabalhando junto às cadeias produtivas para conseguir que o homem preserve. Porque senão, não tem dúvida: o homem vai desmatar se precisar de alimento.

A Vale está querendo ser referência na área social, mas tem uma questão fortíssima, que é a falsa expectativa de emprego quando ela chega num local. Com toda a mecanização, a mineração não emprega tanta gente quanto se diz, não é verdade?

Vânia Somavilla – Tem diminuído, sim, a quantidade  de empregos que a mineração pode oferecer e isso é um desafio.  Assim mesmo, a Vale oferece mais opções do que nossas concorrentes. Hoje temos mais gente trabalhando em escritórios do que no campo. Tem um lado que talvez seja gordura, e já estamos vendo isso. Mudamos mesmo o perfil dos empregos, mas diminuímos o risco das pessoas, eliminamos os serviços que eram mais críticos.  Fizemos no ano passado uma roda de conversas com as funcionárias para debater sobre o que impede as mulheres de trabalharem na Vale (só temos 12% de funcionárias mulheres no campo e no escritório, é pouco).  Uma delas me disse que fica com medo de ir para o campo porque tem coisas muito pesadas. A reflexão da empresa foi: se é pesado para mulheres, é pesado também para os homens. Aí, para o bem de todos, algumas funções têm mesmo que ser mecanizadas.

Uma das críticas ao trabalho de mineração é que a empresa tira tudo o que o lugar tem para tirar e depois faz as malas e vai embora, deixando uma população que viveu anos por conta daquilo, totalmente sem referência. Aconteceu em Itabira. Não dá para fazer diferente?

Vânia Somavilla – Itabira hoje está se transformando num polo hospitalar. É ruim criar uma região totalmente dependente de empregos que só a Vale pode gerar, não queremos isso. O que queremos mesmo, e para isso é que precisamos trabalhar, é gerar desenvolvimento. O sonho é trabalhar todo mundo junto, com poder público, terceiro setor, pessoas de fora, para que se consiga injetar recursos no local. Mas esse tipo de preocupação é nova, há 70 anos ninguém pensava nisso.  Naquela época a preocupação maior era com a produção. Depois a preocupação passou a ser com os impactos ambientais e o social não era relevante. Mas, com o tempo, a Vale começou a perceber que não bastava ter a licença ambiental para agir num local, tinha que ter também a licença de vários órgãos envolvidos. Precisamos da licença social, temos que trabalhar nossa reputação.  E fomos  acompanhando esse processo: hoje já entramos num local fazendo o plano de fechamento, ou seja, como vou deixar ambientalmente e socialmente aquele lugar. Um bom exemplo disso é Águas Claras.

Você falou em reputação. A Vale já ganhou até prêmio de pior empresa do mundo. Por quê?

Vânia Somavilla – A percepção da mineração, em geral, não é boa. Apesar de ser uma atividade que não emite muito carbono, é visualmente feia, o visual é muito forte.  Além disso, lidamos na Vale com grande volume de terras, o que se faz é muito explícito. E, de qualquer maneira, as pessoas querem usar aço, que está em diversos lugares no cotidiano, mas não querem entender que é preciso minerar para obtê-lo. Mas acho que a Vale tem que se comunicar bem, se relacionar cada vez mais com os stakeholders. Temos trabalhado muito com isso, com o relacionamento mais próximo às comunidades para que elas entendam o processo.  Há muito que ser informado, e nós capacitamos nossos gestores para isso. Por exemplo: você sabia que a Vale preserva mais do que afeta as áreas onde está atuando? Em Carajás, por exemplo, nós só mineramos 3% e o resto – 97% – são florestas preservadas. Como trabalhamos com mundo das imagens, o que primeiro aparece para as pessoas que veem Carajás é aquele buraco enorme. Ninguém sabe que ali só tem 3% de toda a área.

A mineração, como você diz, traz progresso. Mas quando a Vale atua numa comunidade onde há muita miséria espalhada, fica uma desigualdade tremenda…

Vânia Somavilla – Tudo é aprendizado. A Vale não é perfeita, estamos tentando fazer melhor. Lá em Moçambique, por exemplo, estamos fazendo um estudo de diagnóstico para ver o que pode ser feito pelas pessoas. Vamos gerar emprego para muita gente, mas muita gente vai ficar sem emprego, então o que fazer? O certo é que não queremos ser um vizinho rico no meio de tanta gente miserável. O caminho é tentar construir junto com eles e o poder público uma solução. Dá trabalho, não é necessariamente dinheiro que é preciso, tem que estudar, estar presente ali o tempo todo. Entender as diferenças culturais, porque a gente erra nisso também. Teve uma vez que fizemos um projeto para criar gado leiteiro numa região onde o pessoal não bebia leite, não sabíamos disso. Tem que chegar com humildade e entender que as pessoas que estão ali também têm a chance delas, naquele momento, de ver sua vida transformada.

A Vale exporta muito esse minério que tira das terras brasileiras e isso é criticado.

Vânia Somavilla – Mas não é o minério que vai transformar uma comunidade, é a riqueza gerada por toda a atividade.  Aquelas pessoas não vão usar carvão, mas elas estavam sentadas em cima de uma mina de carvão que só vai se transformar em alguma riqueza se uma empresa explorar. Agora, é claro que essas pessoas também têm o direito a um benefício sobre aquele recurso. É uma coisa que pode dar certo . Nunca vai ter unanimidade, mas estamos tentando saber hoje até porque o senhor Zé da padaria é contra a nossa atividade naquele local.  Não fazemos um trabalho perfeito, mas estamos caminhando para isso.

Eu ouço isso há tanto tempo. Afinal, o que emperra para esse trabalho ser perfeito?

Vânia Somavilla – É difícil porque são muitas pessoas envolvidas e o problema é dinâmico, há demandas gigantescas.  E tem um aprendizado, tanto nosso quanto do pessoal do Terceiro Setor. Já estamos conseguindo conversar melhor, veja só, na Rio+20 foi a primeira vez que as empresas puderam participar de uma Conferência de Meio Ambiente. Mas quer ver uma questão complicada? Os reassentamentos. Já tentamos conversar com muita gente para nos ajudar a fazer um bom projeto mas não conseguimos ainda. As pessoas sempre vão perder alguma coisa quando mudam e esse valor é intangível, insubstituível. Pode até dar mais em termos materiais, mas leva tempo para as pessoas criarem raízes de novo.  Não conheço nenhum reassentamento bem sucedido logo no começo.

Vamos falar de um assunto espinhoso: Belo Monte. A Vale tem 9% das ações e a questão indígena lá é forte. Os índios não se sentem ouvidos. O que você acha, dentro dessa nova proposta de focar no social, que pode ser feito?

Vânia Somavilla – Os índios são ouvidos, foram ouvidos e devem ser ouvidos sempre. A nossa equipe lá diz que eles foram ouvidos. Comunicação é outra questão complicada porque  se tem uma das partes dizendo que não está sendo ouvida, o que se faz? Na verdade a obra vai perturbar a vida deles, sim. Mas estou sempre de olho, acompanhando o processo. Não tem pergunta que não possa ser feita e todas as respostas têm que ser dadas.

Na Costa Rica existe um sistema de mineração indispensável, ou seja, a mineração é feita sob demanda. Por que não se faz algo assim aqui no Brasil?

Vânia Somavilla – Acho que não é possível, não vejo como. Não se vai conseguir ter uma siderúrgica em cada município, a menos que o mundo mude tanto. Até porque essas coisas numa escala menor ficam mais caras. Você tira o custo do transporte, mas traz a escala.

Os críticos fazer uma resistência até mesmo à expressão produzir minério, que não é exata.

Vânia Somavilla – É verdade, não é produzir, é extrair. Mas nunca se extrai somente, sempre tem o beneficiamento e acaba que é por isso que vira produção. É uma questão de semântica.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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3 respostas para “Não nos preocupamos com reservas de minério, mas com licença para operar”, diz diretora da Vale

  1. Gostei de saber – se correto – o que disse Vânia Somavilla: “Em Carajás, nós só mineramos 3% e o resto – 97% – são florestas preservadas. Como trabalhamos com mundo das imagens, o que primeiro aparece para as pessoas que veem Carajás é aquele buraco enorme. Ninguém sabe que ali só tem 3% de toda a área.”

  2. Sandra disse:

    Difícil enxergar riqueza nas mãos que carregam sementes e grãos para plantar onde outras mãos desmataram. No entanto, entre ricos e ricos, prefiro os primeiros, os que descobriram riquezas no verde das florestas, no canto dos pássaros e nas águas límpidas dos córregos onde sobejam peixes. Os muito ricos que me perdoem mas nem todos sonham em se tornar um dia como eles. Porque, estes, sendo muito felizes e mais sábios, verdadeiramente ricos, já o são.

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