O xisto e o discurso do presidente Obama sobre o clima

Barack Obama Takes Campaign Bus Tour Through PennsylvaniaNo seu segundo discurso depois da posse, esta semana, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reavivou uma questão que, a nível internacional, andava meio sob as cinzas da Rio+20 (Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável que aconteceu no Rio de Janeiro em junho do ano passado). Obama, que não veio à Rio+20 e que na COP-15 (a Conferência  que aconteceu em Copenhague em 2009) chegou de mãos abanando e nada contribuiu para um acordo que baixasse as emissões de carbono internacionalmente, agora está demonstrando uma enorme preocupação.  Declarou à imprensa que enfrentar a mudança climática é importante e que “Não fazer isso seria trair os nossos filhos e as futuras gerações”.

Como já era de se esperar, ato contínuo ao do discurso do presidente, algumas instituições se lançaram a revelar números e fazer novos diagnósticos sobre o tema. A agência Reuters, por exemplo, divulgou um estudo no Fórum Econômico Mundial que começou quarta-feira e termina domingo em Davos, na Suíça,  onde se descobre que “o mundo deve gastar cerca de 700 bilhões de dólares por ano para frear a mudança climática”. E que para projetos estruturais de prevenção, até 2020, “devem ser gastos 5 trilhões de dólares’”.

A declaração do presidente Obama e os valores fantásticos necessários para prevenir e mitigar os impactos das mudanças climáticas, chegaram a mim no mesmo dia em que li um artigo bastante elucidativo e embasado, do jornalista e editor de Internacional do jornal “Valor Econômico” Humberto de Saccomandi, que anunciou, na edição de ontem, um certo boom de xisto, nos Estados Unidos.  Xisto é uma rocha, impregnada de hidrocarboneto, que tem um enorme valor energético. E Saccomandi revela que, segundo projeção da Agência Internacional de Energia (AIE), com o xisto os Estados Unidos superarão a Rússia em 2015 como maior produtor de gás, e a Arábia Saudita em 2017 como maior produtor de petróleo.

xistoHá algum tempo a mídia especializada já vem falando do xisto (a foto é do site www.quimica.seed.pr.gov.br) como uma nova possibilidade de energia. No dia 3 de janeiro do ano passado, por exemplo,  o site da agência Envolverde de notícias reproduziu uma notícia divulgada pela Inter Press Service, onde a própria AIE já dizia que  “O gás recuperável nas rochas de xisto, ou shale gas, talvez supere várias vezes em quantidade o das reservas.”  A grande novidade  era a descoberta de que o gás de xisto é abundante em territórios que antes se considerava pobres em hidrocarbonetos, como China, Estados Unidos e Argentina além de África do Sul, Austrália, Polônia, França, Suécia, Índia, Chile , Paraguai e Paquistão.   Atento ao realinhamento dos mercados devido ao novo tabuleiro energético, o presidente da Associação Venezuelana de Processadores de Gás, Luís Alberto Terrero, disse à época que “países que nunca tiveram esta disponibilidade de energia já não serão apenas consumidores”.

Mas, para extração do hidrocarboneto da rocha, é preciso avançar bastante em novas técnicas  tecnológicas. E, para isso, tem que duas coisas: países ricos com vontade de repassar generosamente tais tecnologias para os pobres e gente nova estudando, se empenhando. Terá sido pensando nisso que, na sequência do discurso em que fala sobre a preocupação com as mudanças climáticas, Obama  ressaltou a necessidade de se investir em projetos inteligentes e criar empregos verdes para se descobrir novas  tecnologias?

Segundo o  consultor em energia de xisto, o britânico Nick Grealy ouvido pelo articulista do Valor, “Explorar o xisto ainda é caro, mas o custo vem caindo bastante nos últimos anos. Nos Estados Unidos, eles não vão se preocupar muito se o preço do petróleo não cair abaixo de US$ 60. Eles ainda assim ganhariam dinheiro com xisto”.  Se tudo isso acontecer de verdade, a humanidade pode se preparar, no futuro, para assistir uma redução da dependência dos Estados Unidos com o Oriente Médio, o que, para o professor de segurança global no Hampshire College, “Será uma mudança geopolítica significativa. A dependência do petróleo sempre teve um forte impacto na política externa americana”.

A verdade é que não sabemos ainda tudo sobre recursos naturais da Terra. Estamos apenas andando de gatinhas num terreno que tanto pode ser mais favorável quanto menos favorável a nós. A única coisa que podemos dizer com certeza hoje é que tais recursos são finitos, o que exige um tratamento cuidadoso, criterioso. Para além disso, certo também é que tais recursos têm  uma repartição totalmente desigual. Anthony Giddens, reconhecido como um dos pensadores sociais mais importantes de nosso tempo, escreveu em 2009, no seu mais recente livro, “A política da mudança climática”, que a posse de recursos naturais, especialmente gás e petróleo, é uma das armadilhas que capturou as sociedades marcadas pela pobreza, epidemias, ignorância e desespero. “Uns 30% dos pobres do mundo vivem em países cuja economia é dominada pela riqueza das reservas naturais. São poucos os Estados rentistas que, em certa medida, conseguiram escapar da maldição dos recursos – como o Kuwait ou a Arábia Saudita – principalmente por terem enormes reservas de petróleo e gás. Para outros, porém, a receita proveniente dessas fontes só proporciona meios de subsistência para uma elite minúscula”.

Considerando o xisto como uma possibilidade de energia que pode mudar a face do mundo como nós a conhecemos nos próximos anos, então, não custa ir além no exercício de ficção. Será que o xisto causaria menos poluição no ar, que atualmente é responsável por 6 milhões de mortes prematuras por ano, segundo o relatório GEO-5 lançado pela ONU antes da Rio+20?

São questões. É importante pensar sobre elas. É importante duvidar delas. Otimismo demais é sinal de que alguma coisa vai mal.  O mundo não tem soluções prontas, é preciso criá-las a cada instante, dizem os filósofos da diferença (Spinoza, Nietzsche, Delleuze, …). E a ignorância sobre a quantidade de fontes dos recursos nem pode ser assim tão ruim se dermos ouvidos  ao autor de “O Homem sem Qualidades”, Robert Musil, quando ele lembra, sem rodeios, como é seu estilo, que “O homem nunca avança mais do que quando ignora aonde vai”.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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