Ford e a desastrada aventura na Amazônia

Uma biografia de Henry Ford está disponível em DVD. Com o título “O homem que revolucionou a indústria criando a linha de montagem”, o documentário, lançado pelo The Biography Channel, tem só 44 minutos. Seu grande gol são as cenas reais da grande fábrica Ford, onde o empresário começou a testar o sistema de produção cuja principal característica, a fabricação em massa, foi duramente criticada  por causar distúrbios sérios nos operários. Há no filme dois depoimentos impressionantes de funcionários que dão conta de como a criação daquela esteira rolante que virou símbolo da selvageria capitalista foi cruel para eles. Ambos já bem idosos lembram-se com exatidão que não conseguiam dormir quando chegavam em casa porque as mãos doíam, a cabeça estalava. Ford é retratado nol filme como um visionário, desde pequeno fadado ao sucesso. Ao mesmo tempo uma pessoa fria, focada no seu próprio empreendimento o tempo todo, que só se enternecia em família, com filhos e netos. Indiferente, portanto, ao desconforto que causava aos operários, ele mandava sempre acelerar a esteira quando precisava cumprir com a demanda por seus carros. (A foto é do site seriouswheels.com).

Henry Ford with V-8 Engine

Se fosse vivo, Henry Ford (1863- 1947) hoje se veria às voltas com debates sobre crescimento versus qualidade de vida. O homem que criou um novo modelo de produção e pôs um automóvel com preço e características acessíveis para circular acreditava que dando salários decentes poderia exigir o que quisesse de seus operários. Criou assim o “Five dolars a Day” quando percebeu que a rotina em sua fábrica afastava os operários por causa do sistema de trabalho quase desumano. Pagando mais do que todo mundo ele conseguiu encher sua fábrica , cumprir os prazos na entrega dos automóveis e pensava que, desse jeito, estava fazendo o melhor papel que um empresário pode fazer à sociedade.  Qualidade de vida era um expressão que não fazia parte do dicionário desse homem. Nem para consumo próprio.

Mas ele é um personagem importante para a história da humanidade. E  merece ser visitado de tempos em tempos, quer seja para que não se repita seus erros, quer seja porque com eles é possível pensar num outro modelo. Aqui no Brasil, Ford criou a Fordlândia, mote do livro lançado em 2010 pela Record sob o título “Fordlândia – Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva” – de autoria do professor de História da Universidade de Nova York, Greg Grandin. Depois de um exaustivo trabalho de pesquisa que descreve dos primórdios até a decadência  da cidade criada por Henry Ford no Pará em 1928, que recebeu o nome de Fordlândia, Grandin conta, nas últimas páginas do livro, o que descobriu em suas investidas contemporâneas pela Amazônia. O quadro atual, de senhores de terra escravizando homens e desrespeitando a natureza, sobretudo para plantar a soja, dá corpo ao ditado pessimista que diz que nada é tão ruim que não possa piorar.

fordlandia do nytimesDiferentemente do argentino Eduardo Sguiglia, que escreveu uma ficção sobre Fordlândia (“Um paraíso obscuro”, ainda sem tradução para o Brasil), o americano se ateve a fatos, arquivos, livros, entrevistas. E conseguiu traçar um retrato que parece bem fiel sobre os acontecimentos que levaram Henry Ford a ganhar uma imagem apressada, quase equivocada, de “amigo da natureza” por escolher o Pará para tentar ser autosuficiente em borracha para os seus carros, sem se aliar a ninguém: ‘Ford não era um homem de sociedades”,  esclarece Grandim. (A foto é do NY Times).

Na verdade, Ford era um homem de paradoxos. Sim, já no início do século passado ele reutilizava e reciclava suas máquinas e ferramentas, mesmo sem jamais ter ouvido falar sobre a política dos três erres (reduzir, reusar e reduzir) que se tornou o mantra da sustentabilidade há poucas décadas. Sim, além disso ele se preocupava em preservar árvores (chegou mesmo a ordenar que só cortassem as mais velhas do terreno paraense onde pretendia plantar e colher borracha). Tais atitudes, porém, punham à mostra seu antropocentrismo. Ford, hoje, não conseguiria ganhar a imagem de empresário sustentável porque se esquecia, com frequência, do pilar social. Tudo o que reutilizava era para economizar visando ao lucro (próprio) cada vez mais crescente. As árvores poupadas serviriam mais tarde como madeira para suas próprias construções.

Como patrão, ele se esmerou na arte de exploração de mão de obra sem se dar conta de que lidava com humanos. O fordismo, sistema cruel, foi muitas vezes alvo de críticas (a mais conhecida foi a cena criada por Charles Chaplin em “Tempos modernos”).  Segundo Grandim, “Ford pagava aos trabalhadores locais mais do que o dobro do salário vigente, mas também impunha seu estilo. Não era permitido encostar-se numa pilha de madeira, nem se sentar por cinco minutos. Era obrigatório permanecer ereto sobre dois pés”.

Para além desses dados curiosos, escritos num texto bastante simpático, “Fordlândia” é, na verdade, uma preciosidade para os brasileiros conhecerem mais profundamente apenas uma das grandes atrocidades cometidas contra a Floresta Amazônica. Entre os governantes que entregaram o território quase de mãos beijadas – por US$ 125 mil, garante Grandim – para Henry Ford, que em 1927 chegava com promessas de trazer muito dinheiro para a região; e os desmandos de equipes ignorantes na arte de viver na selva, estava um enorme pedaço do Brasil. Diz Grandim: “Pouco m ais de um milhão de hectares, quase do tamanho do estado de Connecticut”.

Como não era homem de se associar a ninguém, Ford deixou de lado um detalhe fundamental quando imaginou a aventura de plantar na Amazônia para se tornar autossuficiente em borracha: era preciso ter por perto alguém que, de fato, soubesse lidar com a região. Não conseguiu essa pessoa. E submeteu a doenças e privações, não só operários brasileiros como funcionários norte-americanos que exportava para o Pará em navios. Por querer, ainda, submeter à natureza dos operários brasileiros sua cultura tão diversa da deles, teve que enfrentar revoltas violentas.

Uma delas aconteceu em 1930, no refeitório da fábrica. Acostumados a se sentarem e servirem a própria comida, os operários não suportaram quando os dirigentes da fábrica tentaram “organizar melhor” suas vidas, oferecendo-lhes garçons que demoraram a trazer as refeições. Conta o historiador:

“A reação foi  furiosa, lembrou um observador: como atear fogo à gasolina. O terrível barulho de panelas, copos, pratos, pias, mesas e cadeiras sendo quebradas serviu de alarme, chamando mais homens com facas, pedras, canos, martelos,  facões e porretes”.

No fim das contas, a paz foi restabelecida, outra cidade foi construída para tentar a sorte num terreno talvez mais propício ao plantio da borracha, mas… as seringueiras não conseguiram dar nem metade da quantidade de borracha que Ford esperava. “Contudo – escreve Grandim – “embora as duas plantações fossem fracassos econômicos, suas cidades bem arrumadas representavam  exemplos brilhantes do sonho americano”.

Henry Ford II, neto de Ford, foi nomeado presidente da companhia em 1945 e um dos seus primeiros atos foi vender Fordlândia e Belterra, avaliadas em quase US$ 8 milhões, ao governo brasileiro por US$ 244.200.

Henry Ford nunca visitou as cidades que sonhou criar. Hoje, ambas foram tomadas por criação de gado e plantação de soja.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s