Para dar certo, um caminho é trabalhar junto

fotos da máquina 046Comunidade de Jauari, município de Moju, banhada pelo rio do mesmo nome, a 88 quilômetros de Belém (foto).  O calor é imenso, e o tempo ali parece que pede licença antes de  passar. Cândido Pereira e Maria do Rosário, fundadores da Associação Jauari,  vestidos com sua melhor roupa, estavam a postos à minha espera para contar sua experiência para uma reportagem sobre desenvolvimento local que eu faria para o caderno “Amanhã”, do Globo (minha viagem foi feita a convite da empresa Natura, que tem um trabalho importante no Norte do país). O sorriso é econômico, o aperto de mão é caloroso e a vontade de contar histórias é imensa. De maneira clara e generosa, sem poupar informações importantes mas omitindo o que não queriam compartilhar, eles vão tecendo o fio do novelo que nos levam a uma vida cheia de privações.  A comunidade não tem luz, o acesso só pode ser feito de barco e, mesmo tenso sido erguida sob palafitas, a casa onde moram às vezes é invadida pelas águas do rio em época de cheia. Por isso não se vê tapetes ou cortinas e as camas são redes. Mas o ambiente é bem arrumado, limpo, de chão encerado e panelas  brilhando.

O casal está ali há vinte anos e não pretende sair. Sobretudo depois que, em 2004, decidiu se associar a outras pessoas, em rede, para tentar melhorar a vida e conseguiu. É assim, segundo os especialistas, que nascem as oportunidades de desenvolvimento econômico em regiões de difícil acesso. Exatamente o que eu estava procurando ali.

fotos da máquina 056É Cândido quem toma a palavra. Como fundador da Associação Jauari, cuja sede é num galpão de madeira bem cuidado perto de sua casa, ele foi um dos primeiros a saber que o murumuru – fruto de uma árvore espinhenta que cresce a rodo na região e que ele arrancava para facilitar a colheira do açaí, poderia gerar renda:

— Eu sempre trabalhei com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju e foi lá que ouvi a proposta de trabalhar com o fruto do murumuru. Pensei: que troço doido! Querem comprar o fruto de uma árvore que eu arranco fora para não ferir a gente – disse ele.

A oferta era da Natura, que descobriu um jeito de transformar o fruto em sabonete. Como empresa que quer ser protagonista de ações em prol do desenvolvimento sustentável, ela cumpriu toda a legislação para extrair o fruto e deixar algo em troca para a terra. E agregou um quesito: a negociação só seria feita se os proprietários, futuros fornecedores, se juntassem numa associação.  Segundo Marcelo Cardoso, vice-presidente de Desenvolvimento  Organizacional e de Sustentabilidade da Natura, essa iniciativa seria uma forma de estruturar o crescimento da comunidade:

— Queremos fortalecer o tecido social que vai permitir o fornecimento dos insumos que precisamos. Só assim poderemos atingir nossa meta, que é de elevar bastante nosso consumo de matérias-primas do Norte do país. Este é um desafio — disse ele.

O desafio maior, no entanto, segundo o diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Itamar Silva, é das próprias comunidades, para não se manterem dependentes dos projetos das corporações que as impulsionam. Itamar constata que a autonomia é decisiva para o sucesso de qualquer parceria desse tipo:

— Quando a associação fica muito presa à empresa que está motivando a união das pessoas, o que eu vejo é muito desencanto, falta de garra, de crença, de motivação. O ser humano é gregário, mas a própria conformação da sociedade hoje empurra as pessoas para soluções muito individuais. Cada vez mais se consome um estilo de vida onde o sucesso acontece na medida em que você, sozinho, consegue se dar bem. A questão mais geral do associativismo como um bem comum, a qualidade de vida, o diálogo, a participação mais abrangente, tudo isso fica em segundo plano – disse Itamar.

Distantes dessas divagações teóricas de especialistas, Candinho (como é chamado na associação que fundou) e Rosário, mesmo ao cuidarem de si e da família já estão dando uma oportunidade melhor de vida a não menos que 27 pessoas entre filhos, noras, genros, netos e agregados. Assim é a família no Norte. A conversa com os patronos se estende, às vezes solta, às vezes emperrada. Como quando eu resolvo querer saber sobre datas ou valores em dinheiro:

— Ih, isso aí é difícil para mim, viu? Já tentei me organizar, mas quem disse que consigo? Aqui na Associação é raro uma pessoa saber quanto tem e quanto gasta — diz Candinho, divertido.

Sendo assim, salvo engano, a Associação Jauari nasceu em 2004 com um objetivo bem definido: reivindiar luz para a comunidade. Até agora não conseguiu isso, mas com a venda do murumuru para a Natura, Candinho, que está aproveitando para fazer um pé de meia, acredita que vai conseguir garantir um futuro promissor para Jauari.

fotos da máquina 053A essa altura da conversa, eu já tinha sido convidada para entrar na casa, tomar uma bela cumbuca de açaí e conhecer o resto da enorme família.  Com 66 anos, tendo nascido na região onde vive, Candinho é a imagem da teoria desenvolvida por especialistas em associativismo. A ferramenta usada por ele para reforçar seu papel como líder (a figura do líder é sempre necessária. Podemos questionar, mas…)  é a conversa e seu próprio exemplo. Mas outro dia ele teve que ir além. Foi quando, preocupado com a assustadora presença de jovens usando drogas na região, decidiu se inscrever na escola da cidade:

— Foi para dar o exemplo. Eu passava com os livros debaixo do braço e parava na rodinha dos moleques que não queriam estudar para ficar fumando maconha e dizia: Olha aí, meu caso! Vocês vão querer ficar de fora da escola? Façam isso não! Lá é tão bom que eu, mesmo já mais velho do que vocês, resolvi estudar – disse ele, garantindo que teve algum sucesso na empreitada.

Outra associação que visitei nessa mesma viagem, feita em outubro do ano passado, foi a Cofruta, já muito conhecida Brasil afora. Cooperativa de fruta de Abaetetuba, ela é outro exemplo do que se as pessoas se juntarem em prol de um mesmo objetivo, é possível dar certo. A Cofruta existe desde 2002, começou com 60 pessoas e hoje tem o dobro de cooperativados. No primeiro ano, vendeu oito toneladas de açaí. Em 2011, já teve encomenda de 42 toneladas. Tem parceria com a Natura, com a União Europeia e toma para si uma função: levar adiante a mensagem do cooperativismo:

— A dificuldade maior está em convencer as pessoas de que elas vão ter que trabalhar em prol de um coletivo, não para sucesso individual.  É difícil no início, mas depois fica fácil — disse Raimundo Brito de Almeida, coordenador  financeiro da Cofruta.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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