O que pode um corpo social?

espocc 2O menino entrou na birosquinha com cara de sono. Aparentava cerca de 12, 13 anos e estava sem camisa. Pediu um copo de água mineral, foi atendido na hora pela senhora que parou de buscar, para mim, o biscoito que pedira. Ele não pagou, eu estranhei. Peguei meu biscoito e fui embora. Lá fora uma música em som alto se misturava ao falatório de alguns homens que tomavam sua cerveja num outro barzinho, provavelmente porque já estavam chegando do trabalho, eram mais de 18h. Eu estava na Favela da Maré, ainda não pacificada. Voltei ao prédio do Observatório de Favelas para a segunda conversa com um grupo de jovens a convite da Escola Popular de Comunicação Crítica (Espoc) que está desenvolvendo ali um curso de Publicidade Afirmativa.

Não é a primeira vez que entro uma favela, é claro, porque a minha profissão sempre me exige estar em todos os lugares. Mas ali eu estava com uma outra proposta. Não precisava sair perguntando coisas às pessoas para escrever reportagem.  Bastava respirar e sentir o local. Foi diferente de todas as outras experiências que tive.

Vamos voltar à história do menino que pediu o copo de água e foi logo atendido. Mais tarde, conversando com algumas pessoas da Espoc, eu descobri que os viciados em crack costumam pedir  mate ou água para as pessoas porque aquele copinho de plástico é uma ferramenta para que eles possam consumir a droga. O menino de cerca de 12 anos com cara de sono e sem camisa que eu havia visto era então, salvo todos os enganos, um viciado em crack . E não era o único por ali. Com a intervenção da prefeitura em dois outros lugares onde os crackeiros se reuniam perto da Maré, eles agora ficam ali, bem próximo da entrada da favela. Um bando de pessoas que moram nas ruas e usam a droga para suportar os trancos de viver ao léu. Plásticos pretos tapam seus esconderijos, mas é a céu aberto que eles manipulam a pedra que vai levá-los, sabe-se lá por quanto tempo, a um mundo sonhado, imaginário. O mundo das TVs de plasma, dos sofás, do conforto de uma casa. Impotentes, buscam na impossibilidade, na transcendência, aquilo que não conseguem e vão machucando seus corpos, sem se dar conta de que estão acabando com a única verdadeira ferramenta que têm para estar nesse mundo. Deixaram-se envolver por promessas. Agora, quem prometeu não quer chegar perto daquele bando desgraçado que só faz enfeiar o tal mundo ideal.

Pode ser estranho, mas quando passei de carro mais tarde, já noite e chovendo, pelo grupo de pessoas em seus plásticos pretos, lembrei-me dos beduínos. Estive certa vez no deserto de Neguev, em Israel, e os vi de dentro do ônibus de turismo que nos levava a algum lugar.  Os mesmos plásticos de cor preta se sobressaíam diante daquela paisagem de areia. As condições de vida dos beduínos não é ideal, vivem também com muita privação porque, povos nômades que sempre foram, hoje estão sedentários, também são excluídos do sistema, vivem de pequenos roubos, têm dificuldades. A grande diferença entre esses dois bandos é que os beduínos não massacram seus corpos com a química que os traficantes vendem por centavos aos miseráveis que vão até eles implorar a droga.

Na favela, já se sabe. Até uma determinada hora, os craqueiros não perturbam ninguém porque estão sob o efeito da droga. Quando a pedra de crack acaba, eles passam a importunar, pedindo dinheiro, água ou mate. É melhor dar, dizem. Nunca se sabe o que pode um corpo sem controle.

Com todo esse pano de fundo, essa tristeza de vida, surge como uma flor no deserto aquele canto do Observatório. Passei ali de 14h às 20h30m, conversei com duas turmas, e saí de lá alimentada.  Os jovens têm chance de conviver com pessoas que levam até eles noções importantes de vida, profissional. E não são poucos os que abraçam esta causa com integridade. Para chegar ali não é fácil, e infelizmente poucos alunos membros da Espoc moram na Maré. Perto do ponto de ônibus ficam os craqueiros,  é preciso passar por eles. Mas, em algum momento, aquela cena vira rotina, não mete medo. O importante é estarem ali, tentarem desdobrar a página, escrever uma história diferente para suas próprias vidas. Apoderar-se de seus corpos e alimentá-los com estudo, conversa, filme, contato, muito contato.

Falei bastante nas duas aulas. Mas fui motivada pelos olhares curiosos, atentos, que acompanhavam meus movimentos, não me deixavam pensando sozinha. Senti ressonância. Citei livros, documentários, e eles anotaram tudo.  Vão dar um jeito, fazer um ratatá, para tentar comprar em grupo, ler em grupo, assistir em grupo. É possível.

A Petrobras ajuda o Observatório, e parece que outras entidades estão entrando agora no rateio. É preciso mesmo, mais e mais. Que venham as empresas mostrarem assim a sua responsabilidade social. Que as empresas ajudem outras instituições que, verdadeiramente, levem aos jovens das favelas a possibilidade de estudarem, não de serem laçados por um dogma ou religião que talvez os leve à mesma impotência daqueles que buscam na droga a transcendência.  A causa é nobre quando bem aproveitada. O Observatório serve como uma linha divisória entre o mundo possível, de jovens que desdenham das condições adversas que o sistema econômico lhes deixou e partem em busca de seu próprio caminho, sem precisarem ser do contra, sem serem movidos por ressentimentos, e o mundo do crack. Um limite tênue fisicamente, mas um enorme território de distância quando se fala em potência.

Nos momentos em que pude dividir com eles meus pensamentos, busquei justamente trilhar  um trajeto não maniqueísta. “Não estamos aqui procurando eleger heróis nem condenando bandidos”, disse eu. E eles aplaudiram com os olhos. Porque ninguém aguenta mais tanta necessidade de se escolher entre isso ou aquilo.

A rua que ladeia o Observatório não tem a largura para deixar passar ali dois carros, é cheia de gente, barraquinhas, pequenas lojas que expõem suas roupas em modelos de gesso às vezes sem um braço. Mas é um espaço de convivência, num mundo real, de aceitação das diferenças sem precisar que elas sejam mediatizadas. Gostei quando fui apresentada, pela professora Monica Rodrigues, como uma pessoa que estuda os filósofos da diferença. E peço emprestado aqui a Gilles Deleuze  (“Diferença e Repetição”, editora Graal), um pensamento de Hegel que ele reproduz em seu ensaio: “Quando se leva suficientemente longe a diferença entre as realidades, vê-se a diversidade tornar-se oposição e, por conseguinte, contradição, de modo que o conjunto de todas as realidades se torna, por sua vez, contradição absoluta em si”. É para ser lido com as vísceras, não é para ser entendido com a razão…

São questões que andam povoando a minha cabeça e compartilhos com vocês neste espaço onde se pretende debater sobre um  mundo sustentável, um novo modelo civilizatório.  O filósofo Spinoza diz que um corpo é feito da relação com outros corpos e que, dependendo dessa relação, o sujeito pode ser mais ou menos triste, potente, vigoroso. Quando vejo aquela reunião de corpos em torno do crack (fiquei sabendo na favela que em outras comunidades os traficantes já andaram botando uma faixa para dizer que não vendem crack, os miseráveis, depois de tanto viciarem os pobres coitados) , penso em Spinoza. Penso naquela relação, naquela busca de contato, que mais enfraquece do que fortalece. Será?

O próximo Fórum Social Mundial será na Tunísia, em março. Pode parecer que estou mudando de assunto, mas não estou.  Vou detalhar mais sobre esse evento num próximo post, mas fico com esse fortalecimento de pessoas que buscam nada menos do que caminhos sutis de inclusão.  Uma reunião de corpos que fortalece. Assim como nas salas de aula da Espoc no Observatório de Favelas.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
Esse post foi publicado em Social, Uncategorized e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s