Um eterno contador de histórias

valdir ciminoNo meio do caminho dele tinha um hospital.  Não só em Nova York, onde fez um estágio nos anos 90 na área de comunicação, como em São Paulo, para onde foi logo depois,  também trabalhar com o tema na Rede Globo de Televisão.  E Valdir Cimino, a quem vamos encontrar tantos anos depois como coordenador da Oscip Viva e deixe Viver, aproveitou bem esta coincidência. Entrou, fez contato. Primeiro, com os idosos do Saint Vicent. Depois, com as crianças do Emilio Ribas. Sempre contando histórias.  Mesmo sem ter isso muito claro no início, na verdade Valdir Cimino estava buscando humanizar a relação hospitais/médicos com seus pacientes. Foi desse sentimento que nasceu a vontade de criar a Oscip, de se aliar a parceiros, de buscar ajuda na Lei Rouanet e de convocar voluntários para seguir com ele seu trabalho – hoje são 1.200 voluntários pra cuidar de 65 mil famílias em 77 hospitais . Toda essa história ele conta na entrevista que segue. E, para quem pensa em fazer o trabalho como voluntário da Viva, vale uma observação importante: a Oscip capacita seus voluntários, é criteriosa na seleção. No dia 28 agora, terminam as inscrições para o Rio de Janeiro. Para saber o que fazer, é só entrar no site: vivaedeixeviver.org.br.

Amelia Gonzalez – Trabalhar com literatura num país onde o hábito de leitura ainda não é arraigado é uma tarefa árdua, não?

Valdir Cimino – É sim. Oferecer livro para uma criança brasileira pode ter certeza de que ela vai dizer não gosto, não quero. Então, o que fazemos é entrar com a brincadeira junto. O brincar entra como uma forma construtiva, isso deu certo. Por isso somos contadores de histórias.

Amelia Gonzalez – E quando foi que você começou a ser um contador de histórias?

Valdir Cimino – Foi em Nova York, onde fiz um estágio no início dos anos 90. Eu tinha muito tempo vago durante o dia e meu professor de inglês me deu uma dica: vá conversar numa associação de idosas que se juntam para isso. Uma delas me deu outra sugestão, para eu me associar ao hospital Saint Vicent. Fui lá e fiquei encantado com a seleção dos voluntários,  logo depois estava contando histórias para um deficiente visual, na casa dele. Trabalhei assim durante seis meses. De volta ao Brasil fui trabalhar na Rede Globo e no meio do meu caminho tinha o Instituto Emilio Ribas, onde também trabalhei voluntariamente como colaborador financeiro e doava brinquedos, comida. Mas aí, com o tempo, decidi entrar no hospital para conhecer as pessoas a quem eu estava ajudando e fiquei estarrecido porque percebi quanto as crianças não brincam, quanto elas gastam seu tempo em frente à TV. Então, em vez de comprar brinquedos, passei a contar histórias para eles. No início eu era um contado de histórias solitário, mas logo depois outras pessoas vieram se associar e já eram 36.

Amelia Gonzalez – Quem eram essas pessoas?

Valdir Cimino – Eram meus amigos, a gente fazia tudo de forma bem improvisada, sem capacitação.  Cada um tinha uma vontade, de querer levar as crianças dali para outro lugar. Aí, eu pensei: não nós temos é que transformar o hospital num lugar agradável para elas, porque a realidade é que elas precisam estar aqui. Aí, em 1998 nós decidimos  criar essa Oscip.

Amelia Gonzalez – E aí vieram os voluntários?

Valdir Cimino – Sim, mas eu fiz questão de dar  um treinamento antes, uma capacitação. Até para que os voluntários cuidem, eles próprios, de si. Porque não adianta nada querer ajudar os outros se você não cuida de si.

Amelia Gonzalez – Sim, isso acontece muito, né? O voluntário vai fazer caridade quando está fragmentado, precisando ele mesmo de ajuda…

Valdir Cimino – Pois é. Uma vez aconteceu isso. Uma voluntária começou a chorar muito na frente de uma criança que estava doente. Aqui me impressionou, fui averiguar e soube que ela estava ali mas tinha uma irmã com câncer, já em estágio terminal. Ou seja: a criança que estava recebendo ajuda ficou mal com a tristeza da voluntária. Conversando com uma amiga minha, ela me disse para não aceitar voluntário sem conversar antes, sem saber o que o leva a querer fazer esse trabalho.

Amelia Gonzalez – Essa é uma percepção extremamente consciente. Mas, em geral, o que move os voluntários é exatamente o escape, não é?

Valdir Cimino – A força que emana do voluntariado ainda é a religião, um fator preponderante. Há seis anos desenvolvemos uma pesquisa (que está no site) e a percepção, com as respostas, é que o voluntário do Viva se engaja cada vez mais porque percebe claramente o resultado, que é o bem estar da criança. Quer ajudar o próximo e conhecer pessoas. Nosso voluntariado doa, em média, 16 horas por mês, quatro vezes mais que a média no Brasil, segundo o Ibope. São 1.200 voluntários pra cuidar de 65 mil famílias em 77 hospitais.  O Viva tem seu projeto na Lei Rouanet com R$ 1,2 milhão, valor para cuidar de 1.200 voluntários em 77 hospitais no Brasil. essa massa de pessoas anualmente cuida de 65 mil famílias e 37 mil profissionais da saúde.

Amelia Gonzalez – Bem, esse olhar transcende realmente a visão religiosa. É um investimento, e as empresas percebem isso também…

Valdir Cimino – Vivemos num mundo capitalista e quem investe no voluntariado, mesmo as empresas, começa a ter um olhar mais de investimento sobre essa massa de pessoas porque os benefícios são incalculáveis, tanto para quem doa quanto para a empresa. Em 2001, para você ter uma ideia, éramos 23 milhões voluntários no Brasil e dez anos depois o número foi para 35 milhões . Só que na nossa pesquisa descobrimos que 50% fazem sempre e os outros fazem de vez em quando, ou seja, temos muito que crescer, que se profissionalizar nessa área.

Amelia Gonzalez – Em 2001 a ONU decretou como o Ano do Voluntariado. Isso mudou alguma coisa na vida de vocês?

Valdir Cimino – Mudou muita coisa, a Viva se tornou ponta de lança porque levantamos a bandeira da humanização da saúde, que se tornou uma política pública . O grande barato é que nós estamos influenciando outros profissionais da saúde.  Fomos procurados, por exemplo, pelo reitor da Uuniversidade do Estado da Bahia (Uneb), Lourisvaldo Valentim da Silva, e estamos fazendo, em parceria, uma disciplina de humanização da saúde para seis profissões: médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, farmacêuticos e para o curso de ciências. O próprio reitor disse que isso muda a história porque estamos levando de uma forma lúdica onde o futuro profissional de saúde pode treinar dentro do hospital e dentro da comunidade.

Amelia Gonzalez – Como é que vocês criaram essa parceria com a Uneb?

Valdir Cimino – Quando a nossa Oscip tinha dois anos de vida fui procurado por uma diretora da Secretaria do Estado da Bahia e ela disse que queria levar o Viva para a Bahia. O  primeiro hospital onde atuamos foi o Roberto Santos. Atuamos também no Hospital Geral da Bahia e, nesse último, ficávamos especialmente na sala de queimados, onde o cheiro de carne queimada é muito grande, o lugar é muito difícil. Não conseguíamos reter voluntários, e o próprio gestor do hospital sugeriu que passássemos a trazer essa necessidade de humanização já na formação do profissional de saúde. Porque quando a população reivindicou essa política de humanização, em 2003, o paciente passou a virar a grande vedete. Mas, vou lhe dizer: se o funcionário do hospital não estiver capacitado para isso, desculpa, não vai acontecer.  Foi quando  veio o apelo da Bahia, de querer humanizar até os funcionários.

Amelia Gonzalez – Muitas empresas hoje usam seus programas de voluntariado como uma espécie de selo para uma imagem de empresa sustentável. O que você acha disso?

Valdir Cimino –  Houve um tempo que as empresas não se preocupavam com isso, a questão da responsabilidade social foi um estímulo. O grande problema disso é que em qualquer crise financeira, o programa do voluntariado é a primeira coisa a ser cortada. Antigamente o corte era na área de marketing, hoje é no social.  Ou então, muda o gestor e a primeira coisa que ele faz é cortar aquele projeto.   Mas qualquer ação que você desenvolve com os funcionários versus o entorno dá resultado, é positivo.  A empresa que não der continuidade ao programa de voluntariado está dando um tiro no pé .

 

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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