Paulo Itacarambi pergunta: “Qual o impacto na economia se o feminino for assumido como valor?

A comemoração pelo Dia Internacional da Mulher suscita várias homenagens, sobretudo de homens que se apressam em oferecer flores e presentes. Sinceramente, a mim pouco ou nada diz essa data. Como se costuma dizer, se tem que ter dia das mulheres, dia das árvores, dos negros ou dos índios é porque a sociedade, de fato, ainda não está acostumada a lidar com as diferenças. Mas, deixando de lado a casmurrice, é bom ter esse dia para lembrar de coisas importantes. Como é bom ter dia da árvore para lembrar sobre o desmatamento, dia do índio para lembrar que as etnias são tratadas com imensa desigualdade etc, etc.

Acabo de receber do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social o comentário que o vice-presidente executivo da organização, Paulo Itacarambi, vai fazer daqui a pouco, às 15h, pela rádio CBN. O título,  “O feminino e a sustentabilidade”, já chama a atenção. O conteúdo, como vocês poderão ler abaixo, é pura informação e reflexão das boas. Do jeito que nós, aqui do blog, gostamos muito. Reproduzo na íntegra por achar desnecessário qualquer tipo de observação ou aparte. E me sinto devidamente homenageada:

“O feminino e a sustentabilidade (Paulo Itacarambi)

 “Não vou comentar o avanço da participação feminina do mercado de trabalho como tenho feito aqui mesmo na CBN, ressaltando que a participação da mulher nos quadros executivos das 500 maiores empresas ainda está muito abaixo da equidade desejada. Como mostra a pesquisa Ethos-Ibope 2010 sobre o perfil dessas empresas, as mulheres ainda estão sub-representadas em todos os níveis hierárquicos.

“Também não vou me alongar a respeito do fato de que o programa Bolsa Família está sendo bem-sucedido no seu objetivo de reduzir a pobreza porque escolheu como estratégia dar à mulher a titularidade do cartão. A própria ONU já verificara, em pesquisas feitas nos anos 1990, que a mulher gasta o dinheiro que possui primordialmente com os filhos e a família, o homem, não.

“Quero comemorar o Dia Internacional da Mulher deixando uma mensagem aos homens.

 “Homens e mulheres são seres diferentes, mas essas diferenças não podem e não devem ser consideradas uma representação  da superioridade de um gênero sobre outro.

“A ideia de que o homem é superior à mulher no mundo do trabalho surgiu junto com a revolução industrial e a profunda transformação nos costumes e comportamentos que ela trouxe.

“Até o advento da indústria e da produção em escala de bens de consumo, as pessoas viviam em aldeias comunitárias, onde todos se conheciam e se cuidavam.  A vida podia ser difícil, mas os velhos não eram abandonados, as crianças sempre tinham teto e alimento, e os adultos trabalhavam para contribuir com uma riqueza comunitária. Cada um tinha o que necessitava. Os chefes tinham autoridade pela sabedoria e influência sobre as pessoas, não pelos bens acumulados.  Homens e mulheres possuíam tarefas diferentes, mas igualmente importantes para o equilíbrio da sociedade e para a continuidade da vida.

“A civilização industrial foi destruindo esse modo de vida comunitário em favor de um sistema baseado no individualismo, no acúmulo de riquezas e na supremacia da ciência sobre a natureza. Com isso, a ética do cuidado, tão relevante para a vida comunitária, e desde os primórdios associada à figura feminina, foi relegada ao segundo plano.

“O significado central da sustentabilidade é a preservação ou a melhoria das condições que dão suporte à continuidade das atividades humanas e principalmente da própria vida. É incompatível, portanto, com  padrões estabelecidos pela civilização da era industrial, de consumo desenfreado, de competição feroz, em que coisas e relações sociais viram mercadorias descartáveis, gerando desperdício, insignificância, indignidade.  Esses padrões são insustentáveis.

“Está ficando cada vez mais forte a consciência de que precisamos consumir menos, recuperar, reutilizar, reciclar, e quem faz isso “cuida” da vida, porque garante o equilíbrio entre sociedade e natureza.

“Nenhuma civilização passada fez tão pouco caso do “cuidar” como a atual, tão orgulhosa de seu progresso.

“O cuidado é uma ética que, ao estabelecer consensos sobre certo e errado, orientando a distribuição de tarefas em uma comunidade, ajudou a garantir a sobrevivência e o progresso da humanidade.

“O cuidado exige respeito pelo outro, pois seus desejos e demandas são tão legítimos quanto as de qualquer um de nós. O desdobramento desse respeito é a cooperação. Por meio dela, construímos uma sociedade mais equânime, em que todos têm possibilidades de suprir suas necessidades.

“A visão feminina do mundo  é o meio de expressão desse cuidado. O feminino faz lembrar que a vida é finita, que precisa ser acolhida, protegida e alimentada para poder florescer e dar frutos.  A vida precisa ser preservada. Se adoece, precisa ser tratada e curada. O feminino pede cooperação, em vez de competição, não é agressivo e, quando intervém na realidade, leva em consideração as consequências desse ato e isto é responsabilidade.

O feminino não é exclusividade das mulheres e hoje, é um imperativo.

“O ser humano, o meio ambiente, o planeta pedem cuidado e responsabilidade.  O cuidado não invalida outras éticas ou maneiras de ser e agir. Mas, a causa  maior a que todos devem se vincular é a salvaguarda e a preservação da vida.

“Uma das maneiras de tornar prevalecente na sociedade a ética do cuidado é valorizar o feminino e o que ele representa: maior afetividade nas relações. Com isso, vamos valorizar também a participação das mulheres em todos os campos da vida social. E combater a violência contra elas.

“Valorizar o feminino significa engajar homens e mulheres na construção de um novo padrão de civilização, com um novo modo de pensar e de se relacionar, mais igualitário, sem apego a hierarquias de dominação e controle, mais afeito à colaboração e parceria.

Qual o impacto na economia se o feminino for assumido como valor?

 ‘Em primeiro lugar, teremos um dilema a resolver: como reconhecer o trabalho materno e paterno de cuidado com as crianças? Nosso  modo de produção atual não está preparado e não tem condições de assimilar essa vertente. Precisamos inventar soluções que permitam aos planejadores da economia levar em conta que esse cuidado é “trabalho” e gera “riqueza” porque garante a formação dos cidadãos de amanhã que vão dar continuidade aos negócios privados e às políticas do Estado.

“O trabalho de proteção ao meio ambiente também precisa ser considerado, pois, sem a natureza e seus recursos, não existe possibilidade de o ser humano sobreviver nesse planeta.

“Outro aspecto importante no rumo de uma economia de parceria e colaboração é encontrar outra maneira de medir a produtividade. Hoje, diversas atividades nocivas ao  meio ambiente são contabilizadas no PIB como produtivas, enquanto que diversas outras atividades que contribuem para o bem estar da sociedade não são contabilizadas, como, por exemplo, o trabalho doméstico.  ainda realizado majoritariamente por mulheres.

“O que o PIB não contabiliza dificilmente vira política pública. Portanto, para que essa ética do cuidado, esse feminino que já perpassa invisível as nossas vidas, ganhe relevância na economia,  precisamos que as lideranças, masculinas e femininas  deem visibilidade a esse trabalho.

“Faz parte da responsabilidade dos homens favorecer, no ambiente de trabalho e na sociedade, o desenvolvimento desse “feminino” , incorporando-o em suas ações e criando condições para a valorização da mulher na empresa e na sociedade.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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