Projeto no Babilônia sem guerra de concorrentes

Que as Unidades de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro mudam para melhor a vida dos moradores das comunidades pacificadas, ninguém parece ter mais dúvidas. Por mais que persistam alguns gargalos neste processo, como a dúvida sobre o destino dos traficantes – que desaparecem de hora para outra sem deixar vestígios, pelo menos aparentemente – a verdade é que hoje esses territórios são mais atraentes. Não só para cariocas e turistas, que redescobrem pontos que já pareciam esquecidos da cidade, como para quem sabe que o pé da pirâmide (expressão usada pelo economista indiano D. H. Prahalad para caracterizar a população de baixa renda) é um público com muita  vontade de entrar no mercado de consumidores.

Não teria sido outro o motivo que levou dois grandes nomes da rede bancária – Bradesco e Itaú – a assinarem lado a lado e junto com outras 14 empresas, um projeto para os morros Babilônia e Chapéu Mangueira, no Leme (pacificados em 2011), capitaneado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds). O projeto, chamado “Rio Cidade Sustentável”, seguiu direitinho as regras dos programas que desejam ser sustentáveis: ouviu a comunidade, capacitou pessoas, fez parceria com o poder público, desenvolveu ações em frentes diversas. Ao todo, 40% das cerca de 1.200 casas dos dois morros foram ouvidas e 93 alunos receberam cursos de capacitação para pedreiro, eletricista, bombeiro hidráulico e serralheiro.

Mas foi nessa parceria entre concorrentes, inédita até onde eu posso me recordar, que está a inovação maior do projeto. Estive no local sábado retrasado, quando o Cebds fez uma espécie de festa de encerramento do programa (  que começou em 2011 e agora parte para Belo Horizonte)   e conversei com Marina Grossi, presidente executiva do Cebds.  Segundo ela (na foto, tirada por mim lá no Morro da Babilônia) ter duas empresas concorrentes assinando o mesmo projeto é uma tendência:cebds no babilonia 003

— Na minha argumentação aos dois bancos, eu coloquei para eles que tudo o que se faz hoje em busca da sustentabilidade exige parceria, não competição.  A ideia não é brigar por um mercado do jeito que ele hoje está desenhado,  mas investir num mercado que ainda não existe. É para mudar, mesmo, um padrão. Não estamos falando só de agora, este aqui foi um projeto piloto. Estamos falando sobre essa classe de pessoas que está crescendo e se tornando potenciais consumidores, com tudo o que eles têm de direito — disse ela.

Marina acredita que o projeto-piloto serviu também como um aprendizado para as empresas que o assinaram.  E cita  como exemplo a Votorantim, que neste ano e meio de Rio Cidade Sustentável decidiu criar uma segunda opção para seus sacos de cimento, que antes pesavam 20 quilos: agora há também os de cinco quilos:

—- Os moradores do morro tinham que pagar um frete para carregar os 20 quilos ladeira acima, e acabava encarecendo o produto para eles. Além disso, na primeira chuva o cimento que ainda não tinha sido usado, mas já com o saco aberto, ia todo embora. Então eles decidiram criar este saco de cinco quilos porque fez sentido como um negócio para a empresa deles — disse Marina.

Vejo, dessa forma, a teoria se transformando em prática. No livro “The Fortune at the Bottom of the Pyramid”, que já citei aqui no blog, Prahalad conta a história da Unilever, que criou uma barra menor do sabonete Lifebuoy para consumidores indianos que não podiam pagar pela barra maior.  Isso aconteceu nos anos 80, e a iniciativa da empresa fabricante de bens de consumo parece ter aberto, assim, a possibilidade de outras corporações fazerem o mesmo. Seria um sistema ganha-ganha, onde o consumidor sai como vitorioso por conseguir comprar o que antes lhe era negado?

Os economistas divergem sobre isso. Há uma turma que apoia a iniciativa das empresas, tornada legítima pela necessidade dos consumidores, pelo desejo que eles têm, pela transparência de todo o processo.  Diminuindo sacos de cimento ou barras de sabonete, as corporações estariam, dessa forma, contribuindo para a entrada de mais pessoas no mercado, elevando sua autoestima e ajudando a manter a economia aquecida.

Uma outra linha de pensamento econômico, no entanto, vê aí uma forma de o sistema gerar novos desejos e insatisfações, apenas para mantê-lo forte, sem mexer na estrutura. Os primeiros são considerados economistas radicais, preocupados apenas com números e estatísticas pelo grupo que criou uma dissidência em nome de uma nova economia. As propostas vão desde substituir o PIB como única medição de riqueza até sugerir mudanças no ensino de economia, contra o uso indiscriminado da matemática como o fim em si mesma.

Alheia a essas discussões está, por exemplo,  Rosalina dos Santos Moura (na foto tirada por mim), de 45 anos, a quem encontro festejando o programa lá na base do Morro da Babilônia. Mãe de dois filhos de 25 e 26 anos, Rosalina nasceu no Mato Grosso do Sul e veio para o Rio como doméstica, acompanhando um casal de médicos que só ficaria por cinco meses na cidade:cebds no babilonia 002

—- Eles foram embora e eu fiquei porque, nesse meio tempo, encontrei meu ex-marido, que me convidou para subir o morro com ele. Daqui não saí mais. Nosso casamento acabou, mas continuamos amigos para cuidar dos filhos – disse, sorridente.

Do projeto Rio Cidade Sustentável Rosalinda  ganhou a capacitação  como pedreira, que a permitiu pôr janelas e portas em seu barraco. Fez um empréstimo num dos  bancos parceiros do programa – coisa que não conseguiria fazer antigamente – comprou os produtos mais barato, fez aulas e agora pensa até em fazer uma varandinha para a casa, de tanto que está curtindo o lugar onde mora. Segundo Marina Grossi, na pesquisa feita antes de o programa entrar em atividade, as mulheres chefes de família foram entrevistadas e um dos desejos que apareceu mais forte foi, justamente, o de arrumar a casa:

— Faz sentido, porque elas moram num ponto turístico, que vai começar a aparecer cada vez mais na mídia. E quando os turistas chegam, quebra o visual se os barracos estiverem sem portas e janelas. Isso também ajuda a elevar a autoestima de quem mora ali.

Além disso, contou Marina, engenheiros também foram chamados para apontar soluções que tornassem o local mais seguro em termos de saúde.

—- Ouvi muitos deles sugerirem para o morador abrir uma janela num lugar onde o mofo estava muito forte – disse ela.

Numa outra ação, de Agricultura Urbana Orgânica, 16 moradores foram capacitados para instalar e manter hortas em produção contínua em quintais e lajes, além de terem recebido aulas sobre alimentação saudável.  Adelina dos Santos, de 57 anos, e Luis Alberto de Jesus, 52 anos (foto), moradores do Babilônia desde sempre, foram escolhidos para falar sobre o tema, já que conseguiram hortas bem sucedidas. Adelina tomou a dianteira e contou sobre sua horta — nunca foi muito fã de plantar e depois que fez o curso descobriu como é gostoso —  mas aproveitou para falar também de um desconforto com o morro que habita atualmente:

cebds no babilonia 004— Mudou tudo por aqui. Esse tal de Morar Carioca mexeu com o tamanho das ruas, agora os carros precisam fazer pirueta quando descem para não bater nos postes, de tanto que as ruas ficaram estreitas. Eu nunca tive bandido batendo na minha porta, então não sei o que era a tal violência.  Mas agora vejo um bando de turistas pelas ruas, não é o mesmo morro onde cresci e vivi minha vida inteira – lamenta.

Mas é justamente toda essa movimentação, que desagrada Adelina, o mote para o sucesso de Regina Tchelly, que fez um buffet bem diferente para o encerramento do projeto no Babilônia:  de resíduos orgânicos. E é muito gostoso. Provei uma empada feita com casca de abóbora e adorei. A paraibana Tchelly, 31 anos, mora no Rio desde os 15 e criou o Favela Orgânica, segundo ela, pensando em juntar o útil ao agradável ao ver, na comunidade, tanta comida sendo desperdiçada:

cebds no babilonia 001— Lá na Paraíba eu comia chuchu com casca e quando cheguei aqui vi que todo mundo tira um naco do alimento junto com a casca. Meu foco é reduzir o desperdício, o que fui aprendendo com as oficinas que fiz no Sebrae — conta ela, que consegue hoje ganhar cerca de R$ 60 mil por ano como empreendedora individual no Sebrae.

O discurso da sustentabilidade ganha, assim, cores vivas, fala emocionada, teoria transformada em prática. Marina Grossi, à frente de um corpo de empresários que atendeu ao chamado feito em 1992 por Stephan Schmidheiny, industrial suíço fundador do World Business Council for Sustainable Development, que aqui no Brasil é chamado de Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), garante que as empresas aprenderam que têm que incorporar o impacto social e ambiental em seus lucros:

— Esse é o nosso trabalho.  Não é filantropia, embora eu não tenha nada contra a filantropia. Mas o caso é aqui é negócio: a empresa do futuro precisa saber que deve incorporar esses elementos — disse ela.

Para dar certo, porém, é preciso combinar com outra perna importante na engrenagem: o estado.  No caso da Prefeitura do Rio, segundo Marina, poderia ter havido mais engajamento. A receita para dar certo é a transparência:

— Dependemos de transparência total. O que não conseguimos fazer, não fizemos. Não estamos negociando nada.  O processo foi com o aceite e o conhecimento das comunidades, das empresas, do governo. Essa foi, aliás, a nossa arma para vencer os desafios.  Sem a transparecia não conseguiríamos pactuar. Porque é claro que os agentes percebem se há um gargalo. É claro que tinha que ter um número muito maior de empresas, muito mais engajamento com a prefeitura, mas foi isso que nós conseguimos por enquanto — conclui Marina Grossi.

O projeto teve o apoio da empresa Axia Sustentabilidade e tem como objetivo principal dar um estilo de vida melhor para milhões de pessoas, considerando que, segundo dados da UM-Habitat, já há um bilhão de moradores em comunidades em todo o mundo. E a previsão é de que esse número triplique até 2050, já que o número de pessoas que se mudam para as cidades é cada vez maior.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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