Incoerência também vem de empresas e governo, diz Echegaray

No último texto (http://http://ameliagonzalez848.com/2013/03/13/alguma-coisa-esta-fora-da-ordem-na-comunicacao-das-empresas-com-o-publico/) eu analisei, com ajuda de especialistas, a pesquisa realizada pelo Idec e Market Analysis  onde fica claro o divórcio entre o que diz a opinião pública brasileira sobre degradação ambiental, mudanças climáticas, papel das empresas e a maneira como essas mesmas pessoas absolutamente ignoram tudo isso na hora de analisar um rótulo antes de comprar qualquer produto — ou mesmo deixar de comprar —  de empresas social ou ambientalmente irresponsáveis. É um tremendo paradoxo.

fabiánOntem conversei com um dos coordenadores do estudo  e diretor da Market Analysis, Fabián Echegaray,  empresa que há 16 anos vem fazendo pesquisas de opinião pública e que, pelo menos na última década, foca suas perguntas em questões de sustentabilidade. Echegaray admite o paradoxo, percebe que isso vem acontecendo há muito tempo, e agrega informações importantes. Segundo ele,  entre os mais de 30 países dos cinco continentes onde foram feitas as perguntas, o Brasil é o país que mais se preocupa com o meio ambiente e as mudanças climáticas, e essa preocupação vem aumentando.  A contrapartida é cruel, já que o comportamento dos brasileiros na hora de consumir ainda é o mesmo de cinco, seis anos atrás. Abaixo, Echegaray, que está estreando como colunista na seção de meio ambiente do jornal britânico “The Guardian”,  analisa a questão.

Quando uma pesquisa como esta é divulgada, a primeira reação é de lamento, já que não se consegue um nível de cidadania participativa como seria necessário para mudar o modelo. É essa a leitura?

Fabián  Echegaray — Não, o cidadão não inventa nada. Basta pegar a atuação do governo ou das empresas, de 2005 para cá, que se vai encontrar também um monte de contradições.  Quer ver? Temos um governo que ao mesmo tempo que faz uma lei de resíduos sólidos avançadíssima, no Código Florestal abre as portas para a degradação ambiental. Quanto às empresas, ficamos muitas vezes congelados com os mesmos exemplos de empresas sustentáveis, tipo Natura, o extinto Banco Real, a Coca Cola, que está fazendo bons projetos, mas continuamos  tendo algumas empresas que fazem parte do dia a dia das pessoas tão fortemente como essas que mencionei, que também são paradoxais.  Como uma  distribuidora de gasolina que, ao mesmo tempo que tem todo um discurso vinculado com sustentabilidade muto forte, continua empregando um produto que é muito mais poluente que a própria legislação obriga ou toda  a indústria automobilística que reluta em fazer algum tipo de mudança para controlar emissões de carbono. Algumas até tomam umas ações positivas que são canceladas por ações erradas de outro grupo de indústria. Essa situação de impasse é a questão da liderança. Fizemos um estudo com a rede Globescan, com formadores de opinião, para saber quais os principais entraves para o progresso de uma agenda sustentável. Divulgamos na Rio+20. O resultado foi a falta de uma liderança política não estatal, mas no sentido de conseguir articular consensos.

Então o problema não é falta de informação…

Fabián Echegaray – De jeito nenhum. Informação tem de sobra,  tem mensagem demais sobre a importância do verde, a presença de algum atributo sustentável no produto que está exposto. Acontece é que essas mensagens nem sempre são informação, muitas vezes são muito herméticas, não formam opinião. Além disso,  muitas delas são mentirosas: a criação de selos por parte da própria empresa, por exemplo, que são atributos decorativos típico de greenwashing e que não passa despercebido pela população. Na pesquisa agora com o Idec aparece fortemente tanto a desconfiança quanto  o fato de haver muitos selos ambientais. Quando perguntamos “Com quais selos você se depara no dia a dia?”, entre aqueles que diziam que menos conheciam selos, metade falou que tem a ver com questões ambientais. Quando perguntamos sobre a confiança nos tais selos, é nestes selos que as pessoas menos confiam.

Mas, será que as pessoas que respondem a esse tipo de pesquisa estão verdadeiramente conectadas com o tema?

Fabián Echegaray – O que você quer saber é como as pessoas formam opiniões.  Na verdade, ninguém consegue ter tempo para coletar todas as informações, validá-las e chegar a um momento racional. Quando se defrontam com uma situação meio inesperada — tipo alguém batendo na porta pedindo uma entrevista — as pessoas buscam na sua memória temas que estejam vinculados com a pergunta. A maioria responde em função da última notícia que tem na memória, sobre o que ouviu e que ficou de fato impregnado no cérebro como dado que se emparelha com o estímulo que está sendo invocado. Isso não significa que as opiniões são pouco confiáveis porque todo mundo faz isso, eventuais desvios numa direção são cancelados por uma pessoa que tem desvio em outra direção.

Bem, já que falamos em notícia, como você acha que tem sido o papel da mídia na hora de informar sobre a agenda sustentável?

Fabián Echegaray — Não tenho muito tempo de acompanhar diariamente jornais e revistas, mas o ponto principal desse tipo de cobertura é que   durante muito tempo entre a mídia especiailzada existia a persuasão de que era preciso apavorar, chocar as pessoas para se conseguir mobilizar a população, criar uma coalizão política pro sustentabilidade que gerasse uma pressão no mercado.  Acompanhei o impacto disso nas pesquisas e o que percebi é que num primeiro momento – estou falando de 2007, 2008 — foi efetivo houve realmente uma tomada de consciência na população. Mas depois o que gerou foi fadiga nas pessoas. As curvas nas pesquisas mostram que de 2010 e 2011 para cá as pessoas tiraram de suas prioridades questões ambientais, climáticas, mesmo com a calamidade que está acontecendo, e passam a se preocupar com outras coisas. Não estou dizendo que a prioridade passa a ser econômica, por causa dos tempos de crise, não é isso. Estou falando de uma certa paralisia. Passaram a ter mais peso para os cidadãos as contradições e o descaso do governo, a falta de liderança política e o fato de as mesmas empresas por um lado aparecerem como inovadoras em termos de sustentabilidade e continuarem, por outro lado,  tendo comportamento insustentável.

Uma das queixas das empresas é com relação à sua cadeia produtiva.  Elas não gostam de serem responsáveis por atitudes de fornecedores com os quais têm, às vezes, uma relação pouco próxima. Como você vê isso?

Fabián Echegaray – De novo, acho que falta um estado mais forte aí, para garantir o bem estar mínimo que a população precisa.

Mas, na verdade, desde a década de 80, sobretudo por iniciativa de Margareth Tatcher e Ronald Reagan, o estado começou a se afastar e deixar as empresas e os cidadãos cada vez mais por si…

Fabián Echegaray – É, na verdade também, se formos ver, vinte anos atrás nem havia esse tipo de debate, sobre a participação das empresas transnacionais na cadeia produtiva.  E precisamos ver que houve também outro fenômeno importante, da globalização, que expõe muito mais agora as atitudes das empresas do que antigamente. Portanto, estamos realmente num processo ainda.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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