O circuito curto dos alimentos pode ser uma saída

Uma combinação de safra recorde, rodovias deficientes e a nova regra que limita o tempo do caminhoneiro no volante, segundo reportagem de domingo no jornal “Estado de São Paulo” , está sendo responsável pela saturação dos portos brasileiros. Sem ter rotas alternativas para escoar a safra agrícola, ainda segundo a reportagem, quase dois terços dos grãos exportados acabam indo para Santos e Paranaguá e o resto é dividido entre 16 terminais espalhados pela costa. Em situação normal essa dependência de dois portos já não é saudável. Mas como há uma produção recorde de grãos, os problemas dobram. O resultado são filas imensas de caminhões de um lado esperando para conseguir chegar ao terminal e, de outro, navios parados no mar esperando para levarem a produção Brasil e mundo afora.

Fiquei imaginando a cena. Fiquei imaginando, ainda, o que pode acontecer com a tal safra recorde acondicionada em caminhões, esperando dias para chegar ao destino final, ou seja, a mesa, a boca, o estômago de pessoas que precisam do alimento. Constato a insustentabilidade desse processo, o que vai ser desperdiçado. Levando em conta que ainda há, aqui mesmo no Brasil, muita gente que nem tem como ter acesso  ao pão de cada dia, esse desperdício incomoda bastante.

Em 2008, um estudo divulgado no site do Instituto de Pesquisa Econômica Aplica (Ipea) dava conta de que o Brasil estava entre os dez países que mais desperdiçam comida no mundo.  No estudo foi divulgado ainda um dado do Serviço Social do Comércio (Sesc): R$ 12 bilhões em alimentos eram jogados fora diariamente, uma quantidade suficiente para garantir café da manhã, almoço e jantar para 39 milhões de pessoas.

O site da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) confirma a tal safra recorde que a reportagem de domingo anunciou:

“A área cultivada com as principais culturas no país (algodão, amendoim, arroz, feijão, girassol, mamona, milho, soja, sorgo, aveia, canola, centeio, cevada, trigo e triticale), estimada em 52,99 milhões de hectares, equivale a um acréscimo de 2,11 milhões de hectares, ou seja, 4,1% superior à plantada em 2011/12. A produção atualmente estimada em 183,58 milhões de toneladas é de 10,5%, ou seja, 17,41 milhões de toneladas superior ao volume de 166,17 milhões de toneladas produzidos em 2011/12. Este crescimento se deve ao aumento da área plantada, e principalmente à recuperação da produtividade, sobretudo, do milho e da soja, que na safra anterior foram severamente prejudicadas pelas chuvas irregulares e estiagens prolongadas, principalmente nos estados da Região Sul do país e parte do Centro-Oeste. Destaque para a cultura da soja que registra crescimento de 23,6%, isto é, 15,68 milhões de toneladas superior à produção da safra anterior, passando de 66,38 para 82,06 milhões de toneladas.”

Mas, para que este seja um desenvolvimento com alguma sustentabilidade,  entende-se que toda esta safra deveria funcionar, de fato, para alimentar pessoas, não para ficar perambulando em estradas, estocada em engarrafamentos ou mesmo em longas viagens alto-mar.

Em agosto do ano passado escrevi um artigo para o caderno “Amanhã”, do Globo, chamada “A viagem da pimenta vermelha”. Chama-se assim porque conta a história de um feirante que batia no peito de orgulho porque vendia pimenta vinda de São Paulo.  Possivelmente a especiaria saía de lá muito, muito tempo antes de poder ser vendida. Passando por engarrafamento no Porto, em alto-mar, na estrada… Ora, qual o sentido disso?

Ex-presidente do Conselho de Segurança Alimentar (Consea), o professor Renato Maluf ajudou-me, à época, a destrinchar esse processo e tentar encontrar uma saída sustentável para a questão dos alimentos. Seria o  circuito curto dos alimentos:

—- O sistema alimentar mundial afastou a produção do consumo e a tendência é do circuito longo, das grandes corporações. O circuito local usa a produção de pequeno porte diversificada e promove uma circulação regional, promove a agricultura familiar — disse Maluf.

A raiz do problema, em parte, é o surgimento das grandes cidades, cujos moradores têm, sempre, muita pressa. Para eles, os grandes supermercados, que oferecem produtos empacotados, “prontos para consumo”, são necessidade básica. Para fazer diferente, seria necessário voltar ao tempo das pequenas quitandas que compravam de produtores locais, de agricultura familiar. Renato Maluf lembra que tanto o governo Lula como o governo de Dilma Roussef representam um esforço no sentido de ajudar as famílias de pequenos agricultores a se manterem, entre outras coisas, com doação de sementes:

— O maior desafio para o país, desde os tempos de Brasil colônia, é romper com a característica de grande produtor agrícola com base na grande propriedade – conta o professor.

Quando se fala em sustentabilidade está se falando em mudança de paradigma, em um modelo econômico diferente, que seja bom para o meio ambiente e para as pessoas que nele habitam. É tarefa difícil, exige esforço e, sobretudo, vontade de mudar. Pensar na questão alimentar como parte importante desse processo de mudança é fundamental.

Pensar na questão alimentar como uma forma de desenvolvimento local pode ser uma tarefa para quem acredita em mudanças de paradigmas. É possível envolver as empresas nessa tarefa. Algumas redes de supermercado já sinalizam com uma compreensão aproximada do que pode ser essa ajuda. Por isso já se vê, em algumas gôndolas, produtos chamados de agricultura orgânica. Ainda é um pouco, muito pouco, do que pode ser feito, mas já é um bom primeiro passo.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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