Ambev e TNC fazem parceria para preservar Bacia e abrem chance de se pensar sobre as relações sustentáveis

Sob uma chuva insistente, mais morna do que fria, os jornalistas  foram chegando e se instalando numa espécie de balcão preparado para eventos. Era manhã de quarta-feira (dia 20) e estávamos na fábrica da Ambev em Jaguariúna, pequeno município da região metropolitana de Campinas. Fomos convidados para ouvir o anúncio de uma nova parceria que a empresa fez com o Terceiro Setor – desta vez com a ONG The Nature Conservancy (TNC). A TNC nasceu em 1951 como um desdobramento da The Ecological Society of America e tem como missão “conservar as terras e águas das quais dependemos”. Para isso, como é possível perceber em seu site (www.nature.org), conta com o apoio de grandes empresas, de 550 cientistas, está em mais de 35 países e em todos os estados dos Estados Unidos.

Juntos, Ambev e TNC vão dar um passo importante para preservar a Bacia Hidrográfica dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, que fica na região onde a Ambev instalou sua fábrica. Para isso, uma das principais medidas será pagar por serviços ambientais  a produtores agrícolas da região que se comprometerem a adotar práticas de conservação em suas propriedades.

ONG, empresa, um projeto…  Você, leitor, está sentindo falta de mais uma perna para dar ao programa o atributo sustentável? Não falta mais. Pois o prefeito de Jaguariúna, Tarcisio Chiavegato — que está no quinto mandato e já teve problemas com a justiça eleitoral local, em 2007, por falta de transparência em contas — está na parceria.  Temos aí, portanto, sociedade civil, empresa e poder público juntos em prol de um mundo melhor, no caso, com água suficiente para a Ambev fabricar seus produtos e os moradores conseguirem utilizá-la. O diretor de relações socioambientais da empresa, Ricardo Rolim, delicadamente cedeu o espaço para o prefeito dar as boas-vindas à imprensa no evento:

—- Vi o rio Jaguari morrendo e agora estou vendo que ele está se recuperando. Já posso até pescar dourado na minha chácara, que fica à beira do rio – disse Chiavegato, que foi um dos criadores, em 1989, de um consórcio com outros dez prefeitos para salvar aquela Bacia que ainda está precisando de ajuda.

Na época, só 3% do esgoto das 44 cidades que a circundam eram tratados.  Hoje, segundo o prefeito, que em 2011 foi denunciado por relações pouco transparentes com outra empresa local, esse percentual cresceu para 70%.  Agora, com o aporte de R$ 2 milhões que a Ambev deu, a chance de esses 70% crescerem talvez seja grande. A meta é atingir 100% em 2016.

A gentileza de Ricardo Rolim com o prefeito tem razão de ser. Para estimular a fábrica a se instalar na região, em 1991, Chiavegato anunciou que mandou construir até uma ponte para ajudar seus 2.500 empregados a chegarem à unidade.

Essa relação — empresa com poder público — tão importante para qualquer projeto ser realmente sustentável, é mesmo delicada.  Poder público precisa de investimentos em seu território e faz concessões. A empresa, por sua vez, precisa que seu negócio cresça num ambiente sadio, seguro, e para isso, além de pagar impostos, precisa atuar como cidadã. O molho dessa história é o capital. Molho que, às vezes, colabora para apimentar a relação.

ambev arvoreNa foto, um momento em que a empresa atua como cidadã e se rende aos apelos políticos: o diretor Rolim e o prefeito Chiavegato contracenam a plantação de uma árvore apenas para mostrar o que vai acontecer no futuro, porque este não é nem o terreno que será realmente beneficiado com o projeto.

Mas Rolim aproveitou o evento para fazer um balanço e anunciar também as metas ambientais da empresa. Há três anos o grupo Anheuser Busch InBev, do qual a Ambev faz parte, divulgou metas ambientais a serem atingidas até 2012. Mundialmente, a meta era atingir 3,5 litros de água por cada litro de cerveja. Parece que não, mas já é uma brutal economia. Segundo a empresa, em 2002 eram gastos 5,36 litros de água para produzir um litro de bebida. Em 2008, foram 4,11, em 2010, 3.95.

Aqui no Brasil, a Ambev atingiu uma meta ainda mais ousada do que a holding: gasta 3,4 litros de água para fazer um litro de cerveja. Outra meta, também alcançada, era atingir 99% de reciclagem para resíduos sólidos e subprodutos. O consumo de energia também caiu 12% e a emissão de CO2, 15,7%.

Como não há marco regulatório para esse tipo de iniciativa, ficamos com a possibilidade de comparar ações de umas e outras empresas. E a Ambev, de fato, está fazendo a parte dela, um tom recorrente da indústria brasileira, segundo informou o repórter Claudio Motta no caderno “Amanhã”, de O Globo. A reportagem dá conta de que é o agronegócio, e não a indústria, o grande sorvedouro de água no Brasil: 70% contra 20%. A população, que indiretamente contribui para  este gasto, tem uma responsabilidade menor, de 10% , na hora de consumir água para uso próprio.

Mas ali, naquele evento, na manhã de chuva morna, ao olhar de um observador mais atento não escapava a fragilidade das relações nascidas sob o signo da sustentabilidade.  Se o  jornalista, numa cobertura qualquer, precisa sempre apurar olhos e ouvidos para tentar desvendar algo mais do que está sendo mostrado, o jornalista especializado em sustentabilidade precisa aprender a desprezar o óbvio e ir além. Se não fizer isso, acaba trazendo para o leitor a infundada certeza de que o mundo, finalmente, tomou jeito. É que as empresas ficam tão excitadas com o anúncio de seus bons projetos (o que é legítimo, por sinal) que acabam evitando falar nos contratempos para alcançar este objetivo. Ou, bater a meta, como elas preferem dizer. Mas dividir alguns contratempos também pode ser interessante para espraiar a iniciativa, como todos nós desejamos.

Como acredito que são as relações humanas que mais interessam a um mundo verdadeiramente sustentável, gosto de poder destrinchá-las. Sabe-se, por exemplo, quão frágeis e delicadas podem ser as relações entre empresas e ONGs, que têm entre si um enorme muro de preconceito. Há cerca de três anos ouvi da coordenadora da ONG chilena Ciudad Viva, Lake Sagaris, uma espécie de histórico sobre a fragilidade dessa relação. Segundo ela,  a urgência das questões sociais tornou-se premente e inaugurou uma temporada de mudanças nas relações entre empresas e sociedade civil. Mais do que tudo, disse-me ela, tornou-se obrigatório fazer alianças. Mas Sagaris, que esteve à frente de um protesto vitorioso contra a construção de uma estrada em Santiago, não esconde a dificuldade de se achar parceiros no mundo corporativo dispostos a desenvolver uma relação de igual para igual.

Se houve qualquer  obstáculo desse tipo entre Ambev e TNC, nós não ficamos sabendo. Muito antes pelo contrário. Anita Diederichsen, representante da ONG que vai ajudar a Ambev a preservar a Bacia, foi a terceira pessoa a falar no evento e mostrou-se o tempo todo satisfeita com o desenrolar dos acontecimentos. Mas, de novo, para um olhar atento deixou transparecer o perigo dessa relação  porque adotou um discurso muito mais próximo ao da corporação do que da sociedade civil.  O pagamento por serviços ambientais, carro chefe dessa parceria, foi anunciado antes do tempo, ainda em fase de “geração de informação”, prejudicando a transparência necessária para um projeto desse porte. Para Anita, os jornalistas, sempre ávidos por números, é que seriam lesados. Não seria a população que a ONG representa?:

— Já identificamos  todos os que fazem parte desse projeto, mas não falaremos hoje sobre quantia de pagamento porque queremos entender o uso do solo na região. Estamos em fase de geração de informação.

São firulas que podem ser consertadas numa próxima edição, quando a TNC, hoje uma megainstituição, de fato mais próxima do perfil corporativo do que de uma ONG, conseguir afinar mais seu discurso com o da população. Ou, quando as ONGs não precisarem se travestir de empresas para atuar num sistema que, realmente, lhes cobra metas e planilhas. Sonhando com o mundo ideal? É, pode ser…

Na visão macro do programa de pagamento por serviços ambientais, no entanto, a discussão fica sobre seus resultados reais. Segundo alguns especialistas, essa iniciativa pode criar um sistema perverso de geração de renda sem produção atrelada. Anita, no entanto, lembrou que não é assim:

—- Evitar que a floresta pegue fogo, conter a caça, plantar matas ciliares, isso tudo exige muito trabalho. O cálculo do pagamento será feito em função de cada propriedade – disse ela.

A Ambev não declara quanto vai investir nesse programa, uma nova etapa do Projeto Bacias, ação do “Movimento Cyan- Quem vê água enxerga o seu valor”, lançado pela empresa em 2010.

— Com essa expansão do Projeto Bacias vamos trazer o que há de mais moderno entre as práticas de conservação ambiental para ajudar a garantir que não falte água nas principais cidades do estado de São Paulo – disse Rolim, aplaudido por Anita.

Insisti em buscar um obstáculo, um empecilho, algo que vá fazer essa excelente rede se mexer, voltar atrás, refazer alguns cálculos, agregar outros.  Isso porque acredito mais na turbulência que faz pensar em soluções, do que numa serenidade religiosa. Consegui, mas sobrou para o produtor agrícola. É que, segundo a TNC, vai depender de uma mudança de cultura, de paradigma, para que o produtor se convença de que é um provedor de serviços ambientais. Se isso não acontecer… bem, não sei. Vamos esperar que o programa realmente comece. Por ora, que essa boa parceria, ainda no sétimo mês de vida, perdure e atinja seus objetivos é o que todos desejamos.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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