Sustentabilidade e empresas. O que é real, o que é só para inglês ver…

Meu dia de terça-feira teve dois momentos muito interessantes e proveitosos para o tema que me afeta, a sustentabilidade. Quero compartilhar aqui.

Na hora do almoço aceitei o convite feito pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social para a imprensa carioca. De uma conversa informal com o vice-presidente da entidade, Paulo Itacarambi, colhi bons frutos para reflexão e futuros debates. Atuando desde 1998 com a missão de apresentar às empresas o caminho de uma atuação responsável e sustentável, o Ethos está, neste momento, sentindo falta da presença mais forte do governo para que se possa falar, verdadeiramente, numa agenda sustentável para o país.

— O Brasil tem condições, tem recursos naturais, poderia construir uma marca – made in Brazil – sustentável. Para isso é preciso criar uma massa crítica política e empresarial nessa direção – disse Itacarambi.

De minha parte, penso que essa agenda sustentável depende, sim, de uma atuação mais forte do governo, mas não de ações isoladas como foi o Contratações Públicas Sustentáveis, programa lançado em 2010 pelo governo Dilma Roussef, que ganhou um reforço ano passado por conta da Rio+20.  O programa criou uma lista de 550 produtos  sustentáveis que devem constar das compras do governo e tem meta de ampliar essa lista. É uma grande iniciativa, mas não pode ser solitária.

Itacarambi foi além e disse que o governo deveria criar uma Agenda Nacional de Sustentabilidade.  Lembrei-me, no entanto, de buscar exemplos internacionais. Como seria isso em outros países? De verdade, cada um acaba assegurando seu próprio canto, de acordo com as privações que mais assustam. Os Países Baixos, por exemplo, criaram um Fundo de 1 bihão de euros para se adaptar às mudanças climáticas. Mas o pavor deles se justifica: como já ficam abaixo da linha do mar, o descongelamento das geleiras do Ártico, ali pertinho, pode realmente aumentar o nível das águas e deixá-los numa situação bem precária. É bom se prevenir. Já com relação a dar ajuda aos países ilhas do Oceano Pacífico que ficarão na mesma situação… bem, isso ainda está fora de cogitação.

Ou seja: o céu é de todos, a natureza é de todos, mas as questões ambientais e sociais vão sendo resolvidas caso a caso. Com certeza não é o que se quer quando se pensa num mundo sustentável.

Mas, se por enquanto o possível é agir localmente, que bom que existem bons casos, exemplos legais que podem deveriam  ser replicados para se alcançar parte de tal agenda. Itacarambi lembrou-se do recém-lançado Guia de Construções Sustentáveis da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, uma  entidade sem fins lucrativos com 64 sindicatos e associações do setor da Construção Civil, um dos mais sensíveis no tema  sustentabilidade, não só por ser poluente como porque há muitas questões trabalhistas nas empresas.

Fui ao site da Cbic (www.cbic.org.br) conferir o Guia e fiquei bastante entusiasmada com o que li. Sobretudo porque justamente hoje se está lidando, aqui no Rio, com uma questão delicada envolvendo o fechamento do estádio Engenhão. Construído há seis anos, o estádio já apresenta deslocamento 50% maior do que o previsto no projeto e, segundo reportagem do site do Globo, custou bem caro, R$ 380 milhões à época. Não sei em que condições ele foi construído, mas com certeza, agora, as empresas que vão assumir a restauração já têm um guia para norteá-las com relação às melhores práticas que evitarão uso abusivo de recursos naturais e o uso desrespeitoso dos recursos humanos, o que pode acabar redundando em economia.

O Guia da Cbic pretende ser uma espécie de plataforma para ser usada pelas associações, sindicatos e empresas ligados a eles. Só para ter uma ideia do que estou falando, o texto elege temas prioritários para o setor: água; desenvolvimento humano; energia; materiais e sistemas; meio ambiente, infraestrutura e desenvolvimento  urbano; mudanças climáticas; e resíduos.  Em outro texto, a Cbic  diz que “entende que condições dignas de moradia e infraestrutura são premissas para garantir o acesso pleno da população a direitos fundamentais, como saúde, educação, trabalho, mobilidade, segurança, água, energia, entre outros.” Não é uma coisa boa de ler?

Assinado por Paulo Safady Simão, presidente da Cbic, o documento  reúne propostas e diz que elas são fundamentadas em experiências concretas “que mostram que é possível viabilizar no Brasil uma indústria da construção sintonizada com os conceitos mais avançados já em prática em todo o mundo.”

Se você, caro leitor, já está pensando que tudo isso não passa de boas intenções , da série “muito bom para ser verdade”, deveria ter ido ao meu segundo encontro, em Copacabana, no Teatro Sesc Rio, para o lançamento do livro “Diálogos Sociais”, excelente iniciativa do Sesc junto com a ONG Cieds (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável).  Numa espécie de ágora, com as cadeiras expostas em círculo, passamos duas horas bastante produtivas discutindo questões como a sustentabilidade das empresas, a função das mídias sociais, o mundo dos negócios, o mundo social. Fui convidada para atuar como uma espécie de incentivadora do diálogo, e para a tarefa tive a companhia do professor da UFRJ especialista em sustentabilidade, Cid Alledy. Na plateia, representantes de ONGs e associações (veja na foto).sesc

O resultado do encontro vai ser reproduzido numa publicação que será lançada ano que vem, portanto não vou me estender muito para que vocês possam ficar curiosos e acompanhar o processo de produção. Mas não consigo deixar de compartilhar a linha mestra do nosso debate. Foi bem rico. E a questão do real envolvimento das empresas em prol de um mundo melhor, sustentável, foi um dos pontos.

Alledi lembrou de casos recentes, bem cabeludos, onde empresas foram flagradas em situações que causaram impacto negativo nas redes sociais. E o quanto isso poderá custar a sua imagem (como Unilever e Nestlé, denunciadas pelo Greenpeace). Eu fui um pouco mais atrás, trazendo da memória a história da Nike, que foi denunciada, em 1996, por um repórter da revista americana Life, por manter trabalho infantil em sua cadeia produtiva. Na reportagem, um menino com cerca de 6 anos costurava uma bola com o símbolo da Nike. Detalhe: ele ganhava 0,6 centavos de dólar por hora de trabalho.

Até que ponto essas denúncias realmente mancharam (mancham) e verdadeiramente prejudicaram (prejudicam) a imagem das empresas? Não dá para responder. O que se tem, hoje, é uma ferramenta mais poderosa nas mãos (blogs, facebook) que faz com que a denúncia chegue muito mais rápido. Mas, será que o dano também não se desfaz rapidamente?

São questões interessantes, que animam a vida e enchem de reflexões  uma blogueira que escreve sobre questões sustentáveis. Divido com vocês. É minha arte e é meu prazer.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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