Os bastidores em Túnis, capital do Fórum Social Mundial

O Fórum Social Mundial terminou sábado. Com a participação de 35 mil pessoas em cerca de mil oficinas e debates, fica difícil mesmo que se consiga ter uma única notícia nova, fresquinha, para divulgar. O próprio site oficial do Fórum está meio desaquecido.  É sabido que a análise da situação econômica mundial, que deu origem às primaveras árabes, foi o tom das discussões. No final do evento houve uma manifestação de solidariedade com a Palestina e o encontro rendeu uma Declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais que, de verdade, não contém nenhuma grande novidade, nenhuma grande manchete.  É que ali as decisões não são tomadas como no Fórum Econômico, onde persiste a bilateralidade.

O FSM se comporta como a sociedade: é múltiplo, é diverso. Abraça várias correntes, dá voz a cada uma delas. No texto da Declaração final,  consegue-se extrair alguns consensos:

“Pela justiça climática e a soberania alimentar”

 “Contra a violência contra as mulheres”,

 “Pela paz e contra a guerra, o colonialismo, as ocupações e a militarização dos nossos territórios.”

São  reivindicações  tão  óbvias, tão antigas e, ao mesmo tempo,  ainda tão necessárias. O FSM, hoje, é quase uma espécie de arena que deveria abrigar a multiplicidade. Uma espécie de arena que deveria funcionar para que uns pudessem contar para outros suas experiências, como conseguiram  escapar do laço, fazer diferente, criar nova moeda, novo jeito de gerir uma empresa, de medir as riquezas de um país, de respeitar a potência não das armas, mas das pessoas.

Usei o verbo no modo condicional porque, de verdade, segundo os próprios organizadores, o FSM nunca  conseguiu ter tanta agilidade na hora de facilitar o acesso a quem não pôde, por exemplo, pagar passagem ou hospedagem.  Assim, fica comprometida a proposta de ser um espaço de todos para todos. Mas a mensagem – “Um outro mundo é possível” – veiculada desde o primeiro Fórum (realizado em Porto Alegre em 2001), também continua, assim como todas as lutas.

Uma equipe brasileira, do Instituto Brasileiro de Análise Social e Econômica (Ibase), esteve em Túnis e a  coordenadora de comunicação do Instituto e ex-repórter do Razão Social, Martha Neiva Moreira, estava junto.  Com o olhar sensível de repórter que respeita e enxerga as singularidades, Martha fez praticamente um diário de bordo em sua rede social, com detalhes super interessantes e relevantes sobre o local.  Peço licença então à Martha, que a esta altura ainda deve estar sob o céu mediterrâneo, para juntar todas as informações numa espécie de entrevista virtual aqui no blog. As perguntas, feitas por mim mas ainda não lidas por ela,  se encaixarão nas respostas.  E as fotos, é claro, também são dela.

Qual foi sua impressão inicial sobre Túnis?

Martha Neiva Moreira –– Túnis tem onze milhões de habitantes. É grande. Tirando a Medina (cidade antiga) não tem uma arquitetura árabe tradicional. Vive do turismo e de doações anuais de tunisinos que moram especialmente na Europa. Depois da Primavera Árabe, o Henade — partido formado por muçulmanos que durante a luta pela libertação do domínio francês (na década de 40) estiveram na prisão —  tomou o poder. Não são radicais. Mulheres usam véu se quiserem. Aborto é legalizado. E o nível de escolaridade é bem alto. A União Geral dos Trabalhadores é bem atuante aqui. São eles que estão garantindo a expressão da sociedade civil neste “dia seguinte” da Primavera Árabe e, por isso, estão na organização do Fórum Social Mundial. A Tunísia é um país muçulmano. Portanto bebida alcóolica não circula com essa facilidade. Os homens reunem-se em cafés para beber chá, ou outra bebida quente, e fumar uma espécie de narguilê.  A medina, ou cidade velha, é bem interessante com suas ruelas estreitas. O mercado é o legítimo Saara. Com milhões de lojinhas, com objetos lindos de prata, bronze, tapetes, tecidos maravilhosos e temperos. As ruas são agradáveis de se andar, com uma arquitetura afrancesada mesmo – prédios claros, com sacadas em ferro. Em algumas há trilhos para um veículo elétrico que circula pela cidade. Um delícia para se andar. Túnis é azul e branca.tunis3

Como estava o clima em Túnis por conta do FSM?

Martha Neiva Moreira — O FSM deste ano reuniu 35 mil pessoas, segundo jornal local. O clima de esperança e otimismo entre os participantes está parecido com o primeiro Fórum, em Porto Alegre. A cidade estava cheia e, na universidade El Manar, onde aconteceram as atividades, havia muita música. As mulheres africanas deram show onde foram, com os cantos de trabalho que entoam. Elas costumam dizer que, na África, política se faz cantando. Aliás, neste Fórum, as atividades que tratam das questões femininas tiveram um espaço próprio (vou contar sobre isso em uma matéria do Canal Ibase – http://www.ibase.org.br). Numa Tunísia pós-revolução, direito das mulheres é um tema importante. Na assembleia das mulheres, que abriu as atividades em El Manar, cerca de 800 moças, muitas em seus trajes típicos, denunciaram especialmente a violência contra mulher. Na Tunísia, os casos aumentaram depois da revolução. O estado ainda é de transição e não há, por aqui, mecanismos de controle. A constituição do país está sendo reescrita e o artigo que trata de direitos das mulheres é um dos mais polêmicos. Em Túnis há poucas mulheres circulando nas ruas, gentileza de homens com o sexo feminino é inexistente e o assédio de homens às estrangeiras é descarado. Para se ter uma ideia da discriminação, no interior do país, muitos restaurantes não têm sequer banheiros femininos. Só masculinos. E as associações de mulheres aqui estão começando a se organizar para sair da clandestinidade.

O FSM começou com uma marcha das mulheres. Depois da Primavera Árabe elas foram desobrigadas a usarem o véu. Ou seja: a questão de gêneros aí é um ponto realmente sensível, pelo que se observa…

Martha Neiva Moreira — Vi muito mais homens que mulheres nas ruas daqui. Mas quando precisei usar o Metro para me locomover tive uma noção breve da questão de gênero por aqui. Eu estava com uma tremenda  dor nas costas porque tinha andado muito durante o dia e quis me sentar. Não havia lugar. Quando me dei conta vi que, naquele vagão, todas as mulheres estavam em pé. Os homens é que estavam sentados (e outros de pé, porque estava cheio o vagão). Simples assim.

A falta de obrigação do uso do véu então foi só um passo pequeno numa luta gigante, é isso?

Martha Neiva Moreira – Em nossa visão ocidental, sim. Mas tive a oportunidade de entrevistar, por exemplo, uma menina de 21 anos chamada Aya Bouchmila (na foto).tunis1Ela  estuda Engenharia Industrial na Universidade de El Manar, em Túnis. Usa o nikab porque quer, embora as mulheres na Tunísia não sejam mais obrigadas, desde a Primavera Árabe, a usar o hejab (o véu) muito menos esta espécie de burca. Aya usa por questões religiosas. Ao acordar veste o traje e só tira na hora de dormir. Em casa pode ficar sem, se quiser. Aproveitou a ocasião do FSM para protestar, junto com mais vinte mulheres estudantes da universidade que também usam o manto, contra a universidade que quer proibí-las de fazerem as provas porque usam a roupa. Ela diz que quer ser respeitada na sua crença. Viva a diferença, sem dúvida, mas para nós, mulheres ocidentais, é muito opressor vê-las cobrindo o corpo desta forma. É uma sensação bem estranha. Até as mãos são cobertas com luvas.

Agora, conta como são os costumes gastronômicos daí..

Martha Neiva Moreira — Cuscus é o prato nacional. Vem acompanhado de grão de bico, carne (carneiro, peixe ou frango) e legumes. Custa, em média, seis dinares (mais ou menos  R& 6). Em todos os  lugares há, também, locais vendendo frutas secas. Tâmaras, passas, figos, damasco, banana, pera, castanhas, nozes, grão de bico etc. Custa pouco mais de dois reais 100gr.

Para quem quer ainda mais detalhes, basta ir ao Canal Ibase (www.ibase.org.br) que lá estarão as reportagens não só de Martha como de outras pessoas do Ibase sobre o FSM.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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