Quem são os bois?

Se me permitem, leitores, quero falar sobre os bois.
Quero ir além da fala do ministro Ricardo Salles, do meio ambiente, que, como todo mundo sabe, disse de forma clara e cristalina que usa uma estratégia para fazer avançar seu projeto de desenvolvimento para o país. A estratégia é forjar, durante a pandemia (ou seria um “fuzuê”?), uma cortina de fumaça para que a mídia amorteça suas atitudes infralegais. Em tradução livre, infralegal é tudo aquilo que “não se encontra perfeitamente de acordo com os mecanismos legais”. Então, vamos logo simplificar: atitudes ilegais. Mas há outra interpretação à luz do Direito, segundo me avisou

Rubens Harry Born,  não é algo contra a lei, refere-se às normas administrativas que devem atender o que está previsto em lei. O que o ministro Salles quer é se valer de meros atos administrativos para flexibilizar as normas e gestão ambiental. OK, não é ilegal, mas…
A questão, para mim, nem é saber o que esconde o ministro. Fica muito claro que o projeto dele de “progresso” para o país é acabar com qualquer floresta em pé. Árvores vão para madeireiros, territórios antes preservados vão para mineradores ou para a agropecuária. E o futuro a Deus pertence. Zero preocupação com aquecimento global, terras degradadas, incêndios… nada. Sabemos disso, não é de hoje. Mas, será que aqueles que são convidados para o tal projeto, estão de acordo?
Este é meu ponto.
Como sabem aqueles que acompanham meu trabalho, desde o início do século eu me dedico a ler, pesquisar, detalhar e, talvez, interpretar as ações globais e nacionais de quem se ocupa do que se chama de desenvolvimento. E eu gostaria muito de saber o que pensam as corporações, chamadas de boiadas, sobre a fala do ministro.
Se não foi outra estratégia, uma espécie de propaganda para avisar que o Brasil está à venda, o ministro já teria esta boiada pronta para passar e explodir tudo? Se sim, quem será?
Falamos tanto, há tanto tempo, sobre a responsabilidade das empresas. Por mais que muitas delas tenham mostrado que, no fim e ao cabo, na hora de fazer a escolha, a moeda fala mais alto, eu sou capaz de apostar que há líderes empresariais sérios no país e que eles estão bem pouco à vontade com a fala de Salles. Não será nada honroso para o perfil corporativo ser comparado a bois que passam e destroem tudo.
A Floresta Amazônica perdeu 254 quilômetros quadrados de área verde e o desmatamento cresceu 279% em março deste ano. Deste ano, gente! No meio da pandemia. A impunidade aos crimes ambientais e os retrocessos, aliados ao estímulo à grilagem, são os principais culpados. Mas, quem está por trás disso? Quem é conivente com as infralegalidades?
Aqui abre-se a chance de virem a público aqueles que não são boiada. Para se defender. Do contrário, toda a indústria pecuária, a quem o documentário “Sob a Pata do Boi’, de 2018, atribui 80% do desmatamento da Amazônia, estará nesta lista. E, vamos combinar: ninguém há de ter orgulho de ser chamado de boiada.
Para além da vergonha, há chances sérias de que outros países não comprem produtos da boiada. E aí lá se vai por água abaixo o projeto de desenvolvimento do país.
O efeito de ter sido chamado de boiada para abrir espaço às ações infralegais do setor de meio ambiente do governo, neste momento, pode ser praticamente o que a febre aftosa causa. Muita gente vai querer correr.
O país tem empresas sérias, que devem estar bastante preocupadas com este cenário. Assim espero.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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