Boas lembranças dão imunidade

IMG_4359Lá no cocuruto do caminho que às vezes uso para descansar a mente e os olhos, estava eu, justamente,  fazendo um exercício qualquer quando ouvi, ao fundo, uma voz feminina:

“Mas meu filho, espera um pouco. Estou aqui ainda desenrolando a linha. Eu não sei soltar pipa, estou aprendendo”.

Curiosa, virei a cabeça e vi a cena. Um menino de seus 8, talvez 9 anos, segurava impaciente a pipa enquanto a mãe, do outro lado da linha, tentava desfazer um nó bem robusto. Ia demorar…

Estava assim entretida com a cena quando um homem se aproxima. Um vizinho talvez, alguém que passava pelo cocuruto para voltar ou ir… Fato é que o homem se condoeu da situação, parou, pegou a pipa, começou a desfazer o nó. O menino se aproximou, ambos trocaram alguma informação.

Larguei meu exercício de alongamento, tomei meu caminho que, forçosamente, passaria pelo trio. Não me contive e comentei com a mãe:

“Nada como alguém experiente para resolver uma situação de crise, né?”, disse eu, rindo.

Ela entendeu, devolveu o sorriso, e me disse:

“É o que estou dizendo ao meu filho: não aprendi a soltar pipa, isto é coisa de menino… Mas ainda bem que estou aprendendo. E. se ele tiver uma filha, já combinou comigo que vai ensiná-la!”

Acenei para ela e segui rua afora, descendo, até meu destino. E, como não podia deixar de ser, caminhei pensando. Já que o “novo normal” está sendo condenado por conta de sua viralização, usarei aqui outra expressão: novo cotidiano. Sim, a cena faz parte do cotidiano de pandemia. Se não fosse o isolamento obrigatório, possivelmente aquela mãe estaria, àquela hora, em algum escritório, sala de aula, ateliê, redação, sei lá. E o filho estaria na escola.

Ou seja: ainda há o que se espremer de positivo no momento doloroso que estamos vivendo. A relação entre crianças e adultos está florescendo. E ambos estão tirando disso um bom proveito, como fui capaz de perceber naquela caminhada.

Para mim também foi muito bom porque ativou em mim um pensamento muito gostoso. Lembrei-me de um dia que, instigada pelos amigos, resolvi levar  meu filho Pablo ao Maracanã. Ele devia estar com 7, 8 anos, o pai (que não morava mais conosco) não gostava muito de futebol, eu não tinha esta formação. E Pablo, até aquela altura, nunca tinha visto um jogo ao vivo.

Escolhi uma partida bem pouco interessante, de jeito que só encontrássemos lá os aficionados. Meu medo era o tumulto. Lembro até hoje que o jogo era Bangu X Flamengo. Era um sábado cinza, à tarde,  e eu deve confessar que não estava, exatamente, muito confortável com o programa. Fui pela causa. Queria que meu filho conhecesse o Maraca e tivesse a chance de se interessar por futebol. Lá fomos nós.

Comprei lugar na arquibancada, afinal a ideia era fazer o programa genuíno. A partida começou logo assim que chegamos. Mas, como eu não entendia patavinas do que estava acontecendo em campo (confesso minha total ignorância, que continua até hoje), comecei a me sentir atraída pelo movimento das torcidas. Era lindo ver a Ola!

Quando dei por mim, Pablo e eu tínhamos largado o campo e estávamos, ambos, extasiados com o que acontecia nas arquibancadas. Houve um gol e quase comemoramos, instantes antes de percebermos que era do time que ocupava a outra arquibancada.

Foi bom e divertido demais. Mas não deixou no filho o gosto por futebol. Nem me deixou vontade de repetir o programa.

É bom demais quando a memória nos aviva sentimentos alegres. Ajuda a enfrentar a pandemia e, de quebra, segundo a Medicina Tradicional Chinesa, fortalece nosso sistema imunológico. Êita caminhada boa esta!

A foto foi tirada por Sergio Ramalho há décadas. Na cena, além de mim, o filho.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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2 respostas para Boas lembranças dão imunidade

  1. Jaime Larry Benchimol disse:

    Muito bom Amélia. Fico feliz de ver seu blog de volta

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