Pensamentos sobre campos de quinoa

Para pra pensar!

Não, eu simplesmente não consigo seguir este ensinamento tão antigo. Meus pensamentos são nômades, gosto de pensar enquanto caminho.

Hoje, por causa do isolamento, estou mais restrita. Assim mesmo, dia após dia consigo descobrir algo novo nas calçadas de sempre às quais o vírus me confinou. Meus pensamentos caminham comigo, “convido” autores e me entrego a debates imaginários.

O meu blog, finalmente, mostra as caras aos amigos, parentes, meus seguidores de antanho. Foi um processo esta criação, teve idas e vindas, mas cá está, em última versão e de nome novo: Ser Sustentável.  O mote é o mesmo.  Há muito que venho ocupando espaços na mídia espalhando informações e refletindo muito sobre desenvolvimento, tema que vem se ampliando, se inflamando, inquietando muitos, aquietando alguns.

E hoje, em meu caminho, fui pensando nos campos de plantação de quinoa, semente que vem fazendo parte do meu cardápio diário, sobretudo depois que abri mão de comer proteína animal.  Quinoa é uma semente linda, originária da América Central e de parte da América Latina. O campo de quinoa, quando está florido, se parece um pouco com o de lavanda, porque as folhinhas nascem no topo do caule. E é uma delícia!

A quinoa ocupou hoje os meus pensamentos porque, nesta sexta-feira (26), assisti uma coletiva de imprensa digital da L`Oréal. O evento durou o dia todo, mas eu foquei na sessão que explicou as novas ambições de sustentabilidade da empresa até 2030, cujas informações foram passadas pelo presidente da empresa, Jean-Paul Agon, e pela Vice-Presidente de Sustentabilidade, Alexandra Palt.

Foi Alexandra Palt quem falou sobre a quinoa. A empresa está usando a semente para fazer xampu, vejam só! E já está ajudando produtores da Bolívia, de onde vem a quinoa para sua indústria, no sentido de evitar que o terreno onde plantam a semente fique degradado por causa do uso intensivo.

O projeto de ajuda aos produtores bolivianos faz parte, segundo informou a executiva, do plano montado pela empresa, que pretende garantir que 100%  das matérias-primas empregadas em sua produção virão de fontes sustentáveis. Como as corporações gostam de apelidar seus programas, os compromissos de sustentabilidade apresentados pela L`Oréal para 2030 receberam o nome de “L´Oréal Para o Futuro”.

A empresa anunciou um valor – 100 milhões de euros, o que quer dizer cerca de R$ 930 milhões – em investimentos que vão gerar impacto social e ambiental. O dinheiro será distribuído nos próximos três anos. Este valor será dividido meio a meio, e vai priorizar as mulheres no aspecto social. A outra metade vai ser usada para financiar projetos de restauração de ecossistemas marinhos e florestais naturais danificados, por meio do Fundo L’Oréal para a Regeneração da Natureza.

Em vez de ela própria gerar projetos, a empresa vai distribuir esse dinheiro para organizações da sociedade civil, entendendo que esta é a forma adequada. E é mesmo. Desde que leio e estudo sobre o empenho corporativo em mitigar seus impactos socioambientais, uma das maiores queixas da sociedade civil organizada é quando as empresas decidem as coisas por conta própria. Parceria é tudo, sobretudo nesta hora de crise tão aguda.

Jean-Paul Agon falou sobre a pandemia, disse que entende que é um momento de urgência. A uma das perguntas da plateia digital, sobre os efeitos do vírus em seus negócios, ele lembrou que o E-commerce (compra via sites) está deixando claro que as pessoas não pararam de consumir seus produtos. Apenas mudaram o meio de fazê-lo.

Pensando a este respeito, fui puxando da memória os tantos momentos em que participei de apresentações como esta, da L`Oréal. Quando foi mesmo que as empresas se sentiram parte do processo, e não somente no lugar de extrativistas? Ah, sim, um nome veio à lembrança: Stephan Schmidheiny.

Cheguei em casa e busquei na estante o livro “Mudando o Rumo – Uma perspectiva global sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente”, escrito por Schmidheiny e editado em 1992, logo após a Conferência Internacional do Meio Ambiente que aconteceu aqui no Rio. Foram tempos gloriosos aqueles. Não foi a primeira conferência internacional sobre o tema, já que em 1972 houve a histórica Conferência de Estocolmo, mas 92 foi uma espécie de marco para uma tomada de consciência coletiva.

Schmidheiny é um empresário suíço bilionário que, àquele tempo, decidiu juntar seus pares numa declaração conjunta de respeito ao meio ambiente e à sociedade a partir daquela data. O livro é uma espécie de carta-declaração neste sentido, e foi assinada por 47 empresários.

Infelizmente o compromisso ali assinado, de “satisfazer as necessidades do presente sem comprometer o bem-estar das futuras gerações” não foi cumprido a contento. Outros compromissos e metas foram surgindo, ano após ano, reunião após reunião internacional.

Chegamos a 2020 e, no ano passado, um balanço dos progressos realizados em direção às metas de diminuição dos gases de efeito estufa estabelecidas, o Missão 2020, publicado pelo World Resources Institute, afirmou que “na maioria dos casos, a ação foi insuficiente ou o progresso foi nulo”.

“Nenhuma das metas, em suma, foi alcançada e, em dezembro passado, a COP25 em Madri varreu definitivamente, em grande parte por culpa dos governos dos EUA, Japão, Austrália e Brasil (Irfan 2019), as últimas esperanças de uma diminuição iminente das emissões globais de GEE”, escreve o professor Luiz Marques, do Departamento de História do IFCH /Unicamp, autor do excelente “Capitalismo e Colapso Ambiental”.

Portanto, por mais que a L´ Òréal e outras tantas empresas estejam fazendo o dever de casa, que inclui exigências rígidas para que seus fornecedores também imprimam rigor na mitigação dos efeitos de sua produção, ainda estamos devendo à natureza. Em meu caminho, penso em soluções. Não existe uma única, mas podem surgir várias.

Por isto convidei também, hoje, o economista E. F. Schumacher para caminhar comigo. O alemão morreu logo depois de ter escrito “Small is Beautiful”, que aqui no Brasil recebeu a tradução de “O negócio é ser pequeno” e foi editado pela Zahar. Pode ser encontrado em sebos.

Muito resumidamente, o que diz Schumacher é que é preciso evitar o gigantismo e focar em desenvolvimento local. Esta é a saída que ele apontava, quatro décadas atrás, para o imbróglio em que nos encontramos. E que não é só ambiental, tendo em vista que a desigualdade social atingiu um nível alarmante: os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas – ou cerca de 60% da população mundial, segundo relatório da Oxfam.org publicado em janeiro deste ano.

No subtítulo, Schumacher diz: “um estudo de Economia que leva em conta as pessoas”.

Meus pensamentos foram me levando a outro personagem importante. Relator especial da ONU, Jean Ziegler comenta que as empresas, hoje, “têm um poder que jamais um imperador ou papa teve na história da humanidade”, já que 500 multinacionais privadas têm 52% do PIB do mundo.

Empresas são pessoas que, um dia, tiveram a chance de ter em mãos uma máquina para fazer coisas que as mãos do homem não conseguem fazer sozinhas. Somos nós, portanto, que temos também a chance de criar oportunidade neste grande risco dos nossos tempos. O vírus corona fez reduzir em quase 8% as emissões globais de CO2 (ainda segundo Luiz Marques), mas não abriu sequer um dente na curva cumulativa das concentrações atmosféricas desse gás, medidas em Mauna Loa (Havaí).

“Elas bateram mais um recorde em abril de 2020, atingindo 416,76 partes por milhão (ppm), 3,13 ppm acima de 2019, um dos maiores saltos desde o início de suas mensurações em 1958.”

Tudo bem. Mas abre caminho para que se possa vislumbrar soluções.

Os cuidados com as plantações de quinoa certamente começaram a ser alicerçados em 92, com a tomada de consciência de que os bens naturais são finitos. E hoje, em meio à crise que promete revirar muitos valores e mudar paradigmas, talvez seja possível imaginar que não seria necessário investir na mitigação deste dano se a empresa seguisse alguns dos principais pensadores, incluindo o Papa Francisco, que advertem para a necessidade de baixar os níveis de produção. E de consumo.

Eis o ponto mais sensível.

Vamos adiante, caminhando e pensando.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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