Um Vale do Silício no Morro do Alemão: é o sonho de Lucas Lima, jovem que criou uma impressora 3D com sucata

Ele tem 25 anos, mora no Complexo do Alemão e criou uma impressora 3D usando material de sucata. Ficou três meses indo a todos os ferro-velhos que conhecia, gastou apenas R$ 680,10. Assim, ajudou as cooperativas que vivem de vender ferro-velho, reciclou as peças. Seguidor de Paul Singer, o economista que criou a Economia Solidária, o jovem Lucas Lima ficou satisfeito com o resultado:

“Li muito Paul Singer. Trabalho dentro daqueles três pilares: o econômico, o social, o ambiental. Ele diz isto, que toda produção precisa respeitar esses três pilares para que ela seja sustentável”, diz Lucas Lima.

O jovem ainda estava na faculdade, estagiando em Engenharia Mecânica, quando criou a impressora. Foi assim, só mesmo por curiosidade e vontade de fazer algo diferente. Estudou tudo via internet e conseguiu. Ganhou mídia, muita gente falou a respeito.  Ele passou a lecionar, dá aula de robótica educacional, e engrandeceu o sonho: quer transformar a favela onde mora, com 70 mil habitantes, num Vale do Silício!

Conheci Lucas Lima quando ele participou do programa “Papo com Favela”, que o jornalista Andre Balocco põe no ar duas vezes por semana,  em suas redes sociais. O objetivo de Balocco é aproximar o asfalto das comunidades. Sobretudo agora, que estamos isolados, o fosso entre esses dois mundos ficou ainda maior.

A pandemia travou o sonho de Lucas Lima, mas não o desanima. Ele ainda quer retomar. Pensa em criar uma fab lab dentro da favela para aproveitar os inúmeros talentos jovens que ficam à toa por falta de ferramentas e de incentivo.

“A ideia é ajudá-los a desenvolver esta mentalidade criadora. A impressora 3D é a porta de entrada para outras tecnologias porque ela possibilita fazer qualquer coisa, desde jogos a pequenos bonecos. É mais do que um produto, é uma ferramenta de mudança. Quero que os jovens trabalhem comigo e construam as suas próprias, construam outras tecnologias, não só para o mercado externo, mas para o mercado interno também. Favela é uma cultura, não tem como fugir disso.”

Lucas Lima está agora, momento de pandemia, mais aferroado do que nunca aos seus equipamentos. Tem sete impressoras em sua casa, faz lives, participa de podcasts – “Nunca pensei que fosse depender 100% de internet”. Amigos tentam estimulá-lo a dar curso online, mas ele esbarra na questão prática: não são todos os jovens da favela que têm computador e internet. Uma realidade que os donos das grandes empresas que espraiam a tecnologia virtual certamente pretendem mudar em pouco tempo. Vão facilitar cada vez mais este acesso. E isto é bom?

“Tem um lado bom, mas pode ser um perigo. Os adolescentes se viciam, ficam o tempo todo quando têm chance. Eu mesmo fui um adolescente que ficava no computador de meio-dia, quando eu voltava da escola, até duas da madrugada. Direto! Mas amadureci, hoje não faço mais isto e passo para os jovens esta lição. Hora de almoçar, é hora de almoçar. Tem que ter uma boa noite de sono. A gente não pode deixar que as máquinas nos consumam”.

Lucas Lima se autointitula um empreendedor. No dicionário, esta palavrinha significa ativo, despachado, diligente, desembaraçado. Quando foi abraçada pelo mundo dos negócios, tornou-se atributo de todos aqueles que conseguem tocar um projeto à frente mesmo em condições pouco favoráveis.

“Costumo dizer que sou um empreendedor em constante fase de adaptação. Para mim, ser empreendedor é resolver situações usando o mínimo viável, causando o maior impacto social possível, gerando renda, sem degradar o meio ambiente”.

Lucas Lima tem sido bastante requisitado para falar de sua experiência, considerando-se inusitado o fato de um jovem da favela ter conseguido empreender. E já se encontrou até com Yuval Noah Harari, o historiador que escreveu “Sapiens – uma breve história da humanidade”,  quando ele esteve no Brasil para lançar seu livro.

“É uma pessoa tranquila, não tem nada de esnobe. Conversamos um bocado. Falamos sobre o fenômeno da máquina substituindo o homem. E sobre o desemprego que isto já está causando: até 2025 o mundo terá 26 a 30 milhões de desempregados porque as máquinas estarão fazendo o papel deles. O homem vai ter que se reinventar. Mas eu acredito nisto, o homem se atualiza, ele é mutável”.

Um dos últimos podcasts do qual Lucas Lima participou girou sobre o tema “Cyberpunk”, ficção científica conhecida por seu enfoque em alta tecnologia e baixa qualidade de vida.

“O ser humano cria as máquinas para fazer o serviço que ele não quer fazer. Ou para fazer uma coisa que dá trabalho. Mas ele tem que se readaptar, não deixar que elas avancem muito. Tem que aprender a como utilizar essas máquinas. Elas são programação, atuador e receptor. São variáveis que possibilitam qualquer tipo de programação. Por trás de cada máquina há um ser humano, e ele está no comando. Hoje em dia estamos totalmente dependentes da máquina, uso a internet 80% para estudar e 20% para diversão.”

Mesmo com tanta dependência, o jovem está consciente de que precisa dar limite para tanta tecnologia.

“Tem pessoas que viram escravas da tecnologia, que não olham mais para os olhos, acham uma tela de celular mais segura do que o olhar dos humanos. Desse jeito, volta duas casas para trás. O que é bom pode ficar ruim. Depois que eu amadureci, e passei a dar à internet o devido valor na vida, sem exagero, minha vida melhorou muito. Adoro tomar uma cervejinha no bar com os amigos, por exemplo, não tem papo virtual que substitua isto”.

Mas é um programa que precisa esperar a pandemia passar…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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2 respostas para Um Vale do Silício no Morro do Alemão: é o sonho de Lucas Lima, jovem que criou uma impressora 3D com sucata

  1. Claudia freitas disse:

    Queria compartilhar. Tem como vc assinar e disponibilizar?

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