A era dos desafios

Há uma necessidade imperiosa no ar: redefinição.

Este é o mote da palestra TED de George Monbiot, que acabo de ouvir e gostaria de compartilhar com vocês. Monbiot assina uma coluna no jornal britânico “The Guardian” sobre meio ambiente e ecodesenvolvimento. A fala dele me envolveu, precisamente porque tem muito a ver com o que penso sobre o que há por vir.

Temos sido enganados e explorados há décadas, adverte Monbiot. Quer seja por quem trouxe a ideia de que era preciso fortalecer o Estado, quer seja por quem trouxe a ideia de que o Estado mínimo é o que há de melhor para nosso desenvolvimento. Chegou a hora de redefinir estratégias, de “recuperar a democracia das mãos das pessoas que tomaram posse dela”. Provocação instigante.

Monbiot não se restringe à retórica reflexiva, ele apresenta uma proposta que gira em torno dos bens comuns. Consistem de três elementos principais, diz ele: “Um recurso específico; uma comunidade específica que administre este recurso; regras e negociações que a comunidade desenvolve para gerenciá-lo”.

A proposta de Monbiot não é novidade, já tem sido debatida, mas não está “nas redes”, este novo normal de captar informações. Ando pensando que as redes sociais  substituem as velhas e boas livrarias, com quem se tinha uma relação direta com o livreiro para saber das últimas publicações. Ou a boa e velha banca de jornal, lembram-se? No tempo em que banca de jornal vendia jornais, não balas, biscoitos e refrigerantes. Como era bom entrar num boteco antes de entrar para o trabalho, pedir um café perder o olhar na banca, destrinchando as notícias, comentando ora com um, ora com outro que passava e adotava a mesma postura. Daí que Caetano cunhou: “Quem lê tanta notícia?”

Mas, sigamos com nossa informação, e tomara que ela alcance “as redes”, que hoje bombam com a história de uma mulher que defende seu parceiro contra o inimigo – um agente sanitário pedindo que ele use máscara – dizendo que ele é um “engenheiro”, não um “cidadão”. Sinceramente? Eu poderia muito bem ficar sem ver esta cena.

Prefiro voltar minha atenção para pensamentos que podem ajudar a compor, não a destruir. Vejam o que diz Monbiot: “Um bem comum não pode ser vendido, nem doado, e seus benefícios são compartilhados igualmente entre os membros da comunidade”.

O colunista britânico fez surgir duas memórias bem distintas do meu HD particular.

A primeira memória vem de cinco anos atrás, quando fiz minha primeira viagem ao Arquipélago do Bailique, no Amapá, ali no cocuruto do Brasil, pertinho das Guianas. O Bailique 50 ilhas, perto de onze mil moradores, e para lá fui convidada quando eles estavam no processo de definir um Protocolo Comunitário. Este título é difícil, não cabe em manchete nem atrai os distraídos. Mas, resumidamente, trata-se, justamente, de estabelecer regras locais para compartilhar bens comuns de uma comunidade. Sem interferência de ninguém que não tenha nascido ali.

Minha viagem ao Bailique foi das experiências mais incríveis de minha vida de repórter. De barco, meio de transporte possível para aquelas pessoas, elas se deslocaram quilômetros para se sentarem juntas, no galpão alugado pelo Grupo de Trabalhos Amazônicos (GTA), na época dirigido por um mobilizador social de respeito, o Rubens Gomes (infelizmente já falecido). Ali foram costurando, passo a passo, as normas de convivência de sua comunidade. O encontro durou uma semana inteira. Fiquei até o final, não me afastei um só dia.

Um exemplo pode ilustrar bem o detalhamento que foi necessário para escrever o Protocolo (o Bailique foi a primeira comunidade brasileira a ter um). Lá a carne do bicho preguiça é muito usada. Os próprios moradores vão à caça. Ocorre que estava acontecendo uma sobrecaça, e já se davam conta de fêmeas grávidas sendo abatidas, o que resultaria, sem dúvida, na extinção dos animais. Consequentemente, na falta desta proteína na mesa dos bailiquenses.

Pois o Protocolo Comunitário, feito por cada um dos habitantes, fez constar esta regra: é preciso caçar preguiça com responsabilidade. Obrigatório deixar as fêmeas prenhes seguirem o curso de sua natureza, respeitando um período para que elas possam se reproduzir. Durante este período – poderíamos chamar de defeso do bicho preguiça? –  a comunidade se alimentaria de outros produtos. Assim foi feito, escrito e documentado.

A outra lembrança que Monbiot despertou em mim foi o livro “O negócio é ser pequeno”, do economista alemão, já morto, E. F. Schumacher. Ele o escreveu em 1976, e logo depois sofreu um infarto fatal. Se estivesse vivo, certamente estaria sendo revisitado para contar o que conta em seu livro: é preciso valorizar o desenvolvimento local. Antes de a expressão “mais é menos” ser adotada pelo universo digital e ser viralizada, Schumacher já escrevia, baseado em pesquisas e estudos, como as escolhas devem feitas localmente são mais legítimas e têm mais sentido.

Monbiot termina sua palestra de forma otimista, conclamando a que se use novas regras e novos métodos de eleições para garantir que o “poder financeiro nunca supere o democrático novamente”. E lembra um detalhe importante. Sim, o mundo está polarizado, mas há duas expressões que são universais, que são percebidas tanto pela esquerda quanto pela direita: pertencimento e comunidade.

Assim sendo, é hora de redefinir a democracia representativa, por uma democracia participativa. E refinar nossas escolhas políticas. Em nome de melhor qualidade de vida, que inclui o cuidado e o respeito com o ambiente que nos cerca.

 

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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