O recado das empresas ao governo brasileiro

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Foto por Andreas Wohlfahrt em Pexels.com

“As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis/Elas desejam ser olhadas de azul/Que nem uma criança que você olha de ave”.

E assim, o poeta e mestre das palavras desconcertantes, Manoel de Barros, vai me ajudando a construir o texto de hoje. E a pintar de azul – seria a cor da esperança? – por exemplo, a notícia de que 40 empresas de grande porte  decidiram cobrar do governo atitudes mais responsáveis com relação ao meio ambiente.

O Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável enviou-me o e-mail com o teor da carta endereçada aos corredores do poder executivo. Particularmente, diz o texto, “esse grupo acompanha com maior atenção e preocupação o impacto nos negócios da atual percepção negativa da imagem do Brasil no exterior em relação às questões socioambientais na Amazônia. Essa percepção negativa tem um enorme potencial de prejuízo para o Brasil, não apenas do ponto de vista reputacional, mas de forma efetiva para o desenvolvimento de negócios e projetos fundamentais para o país”.

Já estava eu comemorando, achando que dessa vez vai dar certo, quando a notícia de que o chefe do executivo mandou cortar os cuidados básicos – água potável, cestas básicas, produtos de higiene e cuidados  médicos – que estavam sendo dados aos indígenas(https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-sanciona-com-varios-vetos-lei-de-protecao-a-indigenas-na-pandemia,70003357556) me fez acreditar que o trabalho dos empresários vai ser bem árduo. Sobretudo “do ponto de vista reputacional”, um país que nega aos povos tradicionais o direito de receberem tratamento adequado, como cidadãos que são, não está nada bem na foto. E, desse jeito, esta imagem só tende a piorar.

Felizmente – vejam que insisto em olhar as coisas “de azul” – a nova ordem mundial que começa a surgir, colore de estranheza essa atitude do presidente Bolsonaro. Neste sentido, os empresários e as instituições que assinam a carta estão milhas à frente, mais conectados com as propostas de um olhar diferente, mais inclusivo e menos extrativista, sobre o futuro. Economia circular é uma expressão usada mais de uma vez na carta (pode ser lida aqui: https://www.google.com/url?q=https://cebds.org/wp-content/uploads/2020/07/cebds.org-setor-empresarial-cobra-agenda-sustentavel-do-governo-brasileiro-0707-)comunicadosetorempresarial.pdf&source=gmail&ust=1594307065676000&usg=AFQjCNHe-S4_leaSjbB9zFlzkqsX9YbKPA).

Acaba de ser lançado o livro “Economia do Bem Comum”, escrito pelo francês Jean Tirole, que vem prometendo ocupar o pódio de pensador econômico da atualidade ao lado, por exemplo, de Thomas Piketty, autor de “O Capital no Século XXI”, em 2013. Legitimamente, Piketty ocupou espaço na mídia e foi alçado, então, à categoria de “rock star da economia”. Seu nome já não ocupa mais tanto espaço, característica perversa dos nossos tempos digitais, que amam e desprezam com a mesma intensidade.

Tirole se dispõe, em mais de 500 páginas e dezesseis capítulos – que ainda não li inteiras porque acabo de adquirir por internet – a dar valores e eliminar a arbitrariedade que modela o exercício de definição do bem comum. É preciso. O objetivo é nobre: que se consiga delinear uma existência possível, que respeite não só as empresas que têm ferramental para extrair lucro dos recursos naturais, como as pessoas físicas, incluindo certamente os indígenas, os quilombolas e ribeirinhos, que precisam preservar as florestas para sua própria existência.

Impossível? Não. Mas vai ter que mudar muita coisa. A começar pela política ambiental, aquela que fala em “passar a boiada” sem respeitar limites.

Reputação, meus caros, é algo que se constrói devagar, pintando de azul os pensamentos, obedecendo  o sagrado direito de todos existirem. As empresas brasileiras – que bom! – já perceberam isto.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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2 respostas para O recado das empresas ao governo brasileiro

  1. Germana disse:

    Que bom ler o seu blog!!! Como você escreve bem!

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