No Centro do Rio, um caminho de abandono

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Por quase dois anos era esta a minha rotina: empurrada pela turba, descia do Metrô na Estação Carioca na hora do rush da manhã. Ainda a passos pequenos, espremida, seguia em busca da escada que mais espaço tivesse. Quando estava de salto alto, enfrentava a maior fila, a da escada rolante. Uma, depois outra. Era sempre meio mágico observar a diferença de nuance, entre o pálido claro das luzes de dentro da estação e a claridade da manhã que se impunha, natural, quando o rolar das escadas ia chegando à rua.

O burburinho que as pessoas faziam na estação também ia cedendo, aos poucos, para a barulhada da rua, para o som dos camelôs oferecendo, aos gritos, os seus produtos. Lembro-me bem de um, que vendia raquete para matar mosquitos e não parava de fazer um estalinho, roçando algo metálico na rede de fios emaranhados da raquete. Custava R$ 40,00. Sempre ficava na dúvida, se comprava ou não. Nunca comprei.

Descia os dois degraus laterais da estação, passava pela loja que expunha doces cremosos, atraentes. Eu consiga passar por eles sem ceder à tentação, embora nos quase três anos em que me vi dona de um restaurante popular na Sete de Setembro eu tenha conseguido aumentar a minha circunferência abdominal em quase dez centímetros. Felizmente, já recuperei a forma.

Seguia pelo Largo adiante. Eu e muita, muita gente. No verão, o sol chegava cedo, e eu sempre me arrependia da roupa que estava usando. Não é fácil encarar o calor urbano dentro de um restaurante cheio.

Os camelôs ocupavam toda a praça. Às vezes tinha uma feirinha de artesanato, em outras eram só poucas pessoas a vender seus produtos sobre um plástico preto jogado no chão. Nenhuma fiscalização, é claro. Quando apareciam os guardas, era fácil levantar tudo, fazer uma trouxa e ir para outra esquina. Como sempre, desde muito.

Em 2018, último ano de minha falida empreitada como negociante, a crise econômica avançava com tudo e foi  mudando a paisagem. Dia após dia eu observava mais pedintes, menos vendedores. Famílias de pessoas que haviam perdido seus tetos, por conta dos desmandos daqueles que regem o sistema, iam trazendo para a rua os restos daquilo a que chamavam lar. Colchões, roupas, brinquedos, cães de estimação, iam encontrando guarida nas beiradas das entradas e saídas laterais da Estação do Metrô.

E o barulho foi mudando. A turba de pessoas que saía da Estação, muitas ainda incluídas no sistema, se calava diante do quadro de miséria que se alastrava debaixo dos nossos olhos. A angústia crescendo. Em alguns dias, para aplacar a aflição, eu me virava ao contrário, seguia a caminho da Avenida Rio Branco, onde sempre encontrava a vendedora de livros usados. Tenho até hoje pilhas de Agatha Christie, George Simenon, autores que me ajudavam a dormir em meio aos pensamentos acelerados que teimavam em se fixar num futuro sem cor.

Ontem fiz este mesmo trajeto.

Saí do meu gueto dos isolados e fui comprar um tanque no Palácio das Ferramentas, na Rua da Carioca, em frente à porta de ferro do meu restaurante, hoje já cerrada definitivamente. Podia ter feito outro caminho, podia ter comprado pela internet. Mas, na parte da manhã, enquanto lia a reportagem do “O Globo”, em que especialistas em urbanismo apontam um caminho para o Centro do Rio, fiquei com vontade de voltar lá.

O Metrô estava quase vazio, mas fui num horário alternativo, portanto não posso dizer que haveria a mesma turba de outrora a me empurrar vagão afora. Tive medo do contágio o tempo todo. Passei álcool gel não sei quantas vezes nas mãos, reforcei a máscara. E desci na mesma Estação Carioca, quase cem dias depois de me trancar. Cem dias sem dar um passo além do quadrado onde moro e caminho diariamente para pegar um pouco de sol e levar os cachorros à rua.

As laterais da Estação estão fechadas. Não vi moradores de rua. Mas, no centro de um dos largos mais famosos da cidade que ainda é o segundo centro econômico mais potente do país que é a oitava economia do mundo, um pequeno entulho chamou minha atenção. Eram as tralhas de um morador de rua, que deixou para trás o cobertor que o aquecera à noite, junto com outros tantos panos. Nós, humanos, e nossa mania de ir juntando tralhas.

Segui pela Rua da Carioca. Lojas de instrumentos musicais abertas, uma outra que vende produtos eletroeletrônicos com meia porta aberta e uma sinistra fita amarela impedindo a entrada. Se quiser, tem que pedir e esperar. Pouca gente, muito pouca gente circulando. Na pequena travessa que liga a Carioca à Sete de Setembro, além do restaurante de prato feito que ainda mantém portas abertas, todas as outras lojas estão fechadas.

Lembrei-me de uma loja onde eu comprei certa vez uma malha de ginástica, e era bem legal. Tinha a escola de música, que sempre me animava os passos, mesmo quando, já percebendo que o fim do negócio se anunciava em letras garrafais e megafone, eu me arrastava, triste e angustiada como meu redor.

O Teatro Saara do Largo de São Francisco! Atores e atrizes encenavam peças ali, a preços populares. Um dia bateram lá no restaurante, pedindo permuta, eu concordei. Era uma alegria vê-los entrar, em bando, para almoçar quando terminavam o espetáculo. O Teatro Saara, hoje, tem um plástico preto cobrindo seu nome. Virou um  estacionamento.

Aliás, uma coisa me chamou a atenção: a quantidade de carros parados no Largo de São Francisco não condiz com a quantidade de gente na rua. De onde virão?

Comprei o tanque, dei uma espichada no pescoço para olhar mais uma vez. Os prédios são os mesmos, o trenzinho do VLT continua passando. Ele não cumpriu a promessa de transformar a rua num boulevard. E os imóveis do entorno estão mais velhos, carcomidos, sem manutenção.

Voltei para casa de táxi. Na volta, reparei que o sapateiro que um dia consertou meus sapatos permanece ali, na calçada do Teatro Carlos Gomes. Ocupa as mesmas pedras que, um dia, foram pisadas por artistas maravilhosos. Assisti lá Bibi Ferreira encenando “Gota D`Água”.

Ontem, um vento soprava no início da tarde. Já dentro do táxi, de máscara e totalmente isolada do motorista, vim pensando no livro que estou escrevendo, onde conto a história do meu empreendimento fracassado. Do dia em que decidi ampliar minha expertise e empregar num pequeno negócio tudo o que eu vinha aprendendo sobre desenvolvimento inclusivo.

Pedi ao motorista para passar devagarinho pela Praça Tiradentes e fui me lembrando de quando aguardava ali meu sócio, aos sábados de madrugada, para irmos ao Ceasa. No verão, ainda pegávamos os bares abertos com os frequentadores da noite anterior.

O vento levantava algumas folhas e ia colorindo de cinza o cenário de cidade abandonada. Abandono causado primeiro pela crise econômica e realçado pela crise sanitária. Precisamos mudar este astral.

 

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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