É preciso estar atento. E forte

beto-e-maria-lindosFui derramar um pouco de mim fora do gueto dos isolados, dos homeofficers. Ando fazendo essas caminhadas quinzenalmente, tempo que me parece na medida para não ficar doente de tanta falta de poder ter a liberdade de outrora, quando eu ia até onde os meus pés me levavam. Naquela época eu seguia sem culpa, sem esta máscara que me tolhe bastante a respiração. Mais feliz.

Desta vez, rumei ao Largo do Machado. E, diferentemente do cenário devastador e quase desértico (comparativamente a dois anos atrás) que encontrei no Largo da Carioca, fui recebida por ruas cheias, engarrafamento, de um jeito quase igual ao que era antes da pandemia. Estranho dizer isto, “antes da pandemia”, porque pode parecer que ela já passou. E não passou. Vi muitas pessoas usando máscaras, o que dá o tom de novidade ao nosso tempo atual.

Na Rua do Catete, num entroncamento bem movimentado, um jovem pregava a palavra de Deus aos berros. Parei para ouvi-lo durante um tempo, impressionada com o tom e a perseverança do rapaz, que falava, literalmente, para o vento, o sol. Ninguém, além de mim, parou para ouvir.

A vendedora de livros me viu parada e não segurou o comentário:

“Deve ser ex-presidiário. Eles saem do presídio e muitos logo entram numa igreja. E ficam assim, loucos. Coitado. Vai perder a voz, de tanto que grita”.

Não concordei nem discordei. Sei lá o que ela quer dizer quando usa a expressão “louco”.

Do outro lado da rua, ao lado de uma lojinha que vende bugingangas orientais foi aberta… outra lojinha que vende bugingangas orientais. Ora, numa crise dessas, alguém abrir uma loja para vender produtos importados que estão longe de poderem ser chamados de gêneros de primeira qualidade é, realmente, para refletir. Ainda por cima, do lado de outra!

Se a loja foi aberta é porque há público. E, se há público, como se pode explicar o fato de haver quem, no meio do desmonte econômico que presenciamos e do qual temos notícia diariamente, se sente à vontade para gastar dinheiro com coisas inúteis? Não tenho esta resposta, mas fiquei com a reflexão.

Próxima parada: farmácia. Levei junto a minha indignação de sempre, que se agrega a uma preocupação crescente. As farmácias estão cada vez mais cheias. E os preços dos remédios estão cada vez mais caros. Pude constatar que o suplemento vitamínico do qual faço uso está 15% mais caro do que quando começou a pandemia.

Os laboratórios fazem de tudo para mostrar que se preocupam com a falta de saúde dos cidadãos. Embalam os remédios em cores vibrantes e gastam bastante dinheiro com propaganda, com mensagens que mostram para que se consiga viver sem dor, sem febre, sem mal estar, sem indigestão… E a farmácia fica parecendo supermercado. Que coisa.

Passei pela Petshop e pude constatar que o suplemento  que minha cachorra idosa precisa tomar também subiu de preço. Paguei R$ 20,00 a mais do que no mês passado. Mostrei minha indignação para a menina que me atendeu, mas logo me arrependi de tê-lo feito.

A moça lançou-me um olhar/paisagem que me deixou com a constatação de que estamos impotentes diante de corporações que decidiram ganhar dinheiro com a crise. Possivelmente demitiram alguns funcionários, deram uma enxugada na produção e elevaram os preços para não perder. Para mim, é gênero de primeira necessidade porque cuido muito bem dos meus bichos (na foto acima, Maria e Beto), já que foi minha opção ter a companhia deles. Sendo assim, não me resta outra alternativa senão pagar o preço que estão me cobrando. E reclamar ao bispo.

Já de volta, lancei um olhar rápido para os preços do supermercado e descobri uma super promoção: a caixinha da pizza pronta estava sendo vendida a R$ 7. Uma razoável dose de gordura, massa e conservantes com um sabor forte e, para muitos, agradável. Certamente meu corpo reagiria com uma baita dor de cabeça se eu resolvesse comer. Fui adiante, pensando sempre.

O ciclo se fecha assim.  A má alimentação desencadeia problemas no corpo que serão “sanados” pelos remédios, alguns até em promoção. Leve duas, pague apenas uma caixinha de analgésico ou frasco de medicamento que resolve questões do fígado. Já os remédios não populares sobem de preço.

Ontem recebi um email da Editora Elefante com um artigo que faz parte da reflexão contida no livro “Capitalismo em quarentena: notas sobre a crise global”. A reflexão é interessante:

“A quarentena autoimposta do capitalismo foi, para este, um mal necessário para continuar existindo. Mas esse remédio amargo pode ter um perigoso efeito colateral, tendo aumentado exponencialmente a montanha de dívidas impagáveis que ameaça desabar a qualquer instante”.

Se estamos falando que precisamos viver uma mudança de paradigma nos tempos incertos que começam a se abrir para nós, a primeira coisa é perceber a nossa própria atuação em toda esta história. Indispensável a percepção de que é preciso pegar com a mão a batuta e reger nossas vidas.

Rendo homenagem aqui aos mestres da música Gilberto Gil e Caetano Veloso que, em 1969, lançaram “Divino Maravilhoso”, lindamente cantada por Gal Costa. “É preciso estar atento e forte/Pro palavrão, para a palavra de ordem”.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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