Resolução de segunda-feira: continuar a morar em cidade

transito_no_rio_1Segunda-feira é dia de dar início a novos planos. Muita gente começa uma dieta, muda os móveis de lugar ou mesmo transforma em ação projetos outros que estão guardados no fundo da memória. Pode ser que no final da semana tudo tenha estagnado. Mas, não importa. Sigamos o calendário gregoriano – promulgado pelo Papa Gregório XIII, em fevereiro de 1582 – e as segundas-feiras serão os dias sagrados de mudança.

Pensei sobre isto quando assisti ao documentário “Que estranha forma de vida”, dirigido por Pedro Serra, que a amiga Martha Neiva me mandou, sob a inscrição “Você já viu este doc? Nada que você não saiba. Acho que a negação da importância da nossa ligação com a natura nos trouxe aqui”.

Como não ver, depois de um comentário desses?

O filme é sobre mudança de vida radical. Pessoas que largaram cidade, trabalho, ganho de renda fixo e foram buscar saúde no contato com a natureza, em uma nova organização social. É inspirador quando eu penso na calma do local, na leveza da água, na pureza dos legumes plantados e colhidos ali mesmo. É assustador quando me imagino sem os pequenos símbolos da civilização que gosto – um bom colchão, banho quente, livro e mesinha de cabeceira fazem parte do meu arsenal de modernidade – e cercada por alguns perigos que só conseguiria combater se usasse ao menos parte da tecnologia que nos cerca. Mosquitos e seres peçonhentos estão entre eles.

É inspirador quando ouço que um grupo na Espanha criou uma comunidade com moeda própria e vive sob os critérios do movimento “Smart Village”. São cidadãos preocupados com os 3,4 bilhões de pessoas rurais no mundo e incentivam seu empreendedorismo. Mas não abrem mão da ajuda de governos, empresas grandes e pequenas, o que pode acabar sendo um leopardismo a mais dentre tantos os que nos cercam hoje.

E por falar em leopardismo, em dias e datas, lá vamos nós caminhando céleres para uma nova Conferência  de Cúpula conclamada pela ONU para tentar debater ações em prol de uma qualidade de vida para o mundo. Em maio do ano que vem vai acontecer, na China (nenhuma surpresa, já que este país tem aumentado sua participação nas Nações Unidas) a COP 15, ou seja, Conferência das Nações Unidas sobre a Biodiversidade.

Como viram, um tema se liga ao outro, já que nas cooperativas e comunidades documentadas no filme a relação com os seres vivos – animais e plantas – que os rondam é de respeito. O tempo todo. Até mesmo quando uma moça se dedica a ensinar cavalos. Ela usa um pequeno chicote, o que me impressionou, mas se explicou, para meu alívio, dizendo que o usa somente como símbolo de poder. Somente para fazer o animal segui-la.

Como se sabe, o vírus Corona que hoje nos ameaça pode ser fruto da relação abusiva e predatória que temos com a natura. “Não devemos temer os mísseis, e sim os vírus”, disse Bill Gates há cinco anos, numa palestra. A jornalista Soledad Barruti reproduz este sentimento num belo artigo publicado no site da Editora Elefante: “Nuggets e morcegos: como cozinhamos as pandemias”.

Desde muito vimos sendo levados a crer que somos mais poderosos e potentes porque temos inteligência racional. Isto nos levou a subjugar, matar e comer os bichos, esquecendo-nos das outras tantas matérias – vivas também, mas que não sentem dor, como os animais – que podem nos servir de alimento.

Não sei se a Conferência de Cúpula da Biodiversidade conclamada pela ONU vai expor este tipo de debate. Desde que o presidente Donald Trump assumiu o comando dos Estados Unidos (ex principal mantenedor da ONU) e abriu a possibilidade de se considerar o negacionismo climático uma hipótese viável, tais reuniões têm sido, em geral, uma tremenda oportunidade de se pôr holofotes sobre tal descalabro. É possível que, se não tivéssemos assinado um Acordo de Paris em 2015, comprometendo-nos a baixar emissões de carbono, a fala do ministro Salles sobre “deixar a boiada passar” passasse despercebida.

Criar uma consciência mais ampla do que os limites dos ativistas ambientais, portanto, é uma função importante. E que faz com que as Conferências do Clima e da Biodiversidade sejam mais do que uma reunião de retórica inútil. Uma semana atrás, na 4ª Sessão da Conferência Ministerial sobre a Ação Climática, a secretária executiva da ONU, Patrícia Espinosa, deu o tom quando falou aos ministros dos países aliados:

“Peço-lhes que considerem a possibilidade de que, longe de estarmos à beira do apocalipse, estaremos à beira de um momento de transformação na história humana … um momento que as gerações futuras identificarão como crucial; marco para uma nova era. Vamos escolher ‘voltar ao normal’? O normal em que o aumento da temperatura global chega a mais do dobro até o final deste século? O normal em que nossos oceanos se acidificam a um ritmo alarmante? O normal que faz desertos de terra desmatada e solo sobrecarregado?”

Foi uma senhora puxada de orelhas, né? Sinto dizer a vocês, porém, que não foi a primeira. E, provavelmente, não será a última. Essas belas falas engrossam a parte da retórica inútil. Mas é bom para puxar manchetes, acender os holofotes e chamar mais pessoas para a causa.

Conversa que vai, conversa que vem. Sem perder o fio da meada, volto à questão da mudança radical de vida. E devo dizer que, já que é segunda-feira, decido… continuar morando em cidade. Gosto das cidades. Não gosto é do que fizeram delas. No excelente “A cidade no século XXI” (Ed. Consequência), de Álvaro Ferreira, li pela primeira vez a expressão “cidade vitrine”. E descobri a raiz do (meu) problema.

É bom poder andar num bairro que eu conheço, conversar com vizinhos. É bom poder visitar a livraria, a biblioteca, ir ao cinema, pensar em criar uma horta comunitária, descobrir alguém que está vendendo um produto orgânico, um artesanato. Não é bom ver tanta gente sem teto, numa clara demonstração de incompetência do sistema que nos rege e exclui. As “cidades vitrines” (moro numa) são aquelas que se tornam produtos à venda. Com o dinheiro dessa venda, faz-se… mais eventos para vender. Não se pensa em acomodar os cidadãos, em dar qualidade de vida a todos.

Não é uma questão de superpopulação, portanto. É questão de como esta população está distribuída.

Pensando assim, o documentário “Que estranha forma de vida”, que me inspirou este texto, pode ser também ideia para se viver em cidades. Buscar mais contato com a natureza, cuidar da nutrição, são atitudes que se consegue num bairro. O problema é o barulho. Bem, mas para isto a tecnologia criou os fones de ouvido…

 

 

 

 

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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