‘Fora Corona vírus!’

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Foto por Torsten Dettlaff em Pexels.com

Todo santo dia a cena se repete. Ele se veste com a camisa de seu time de futebol predileto, pega uma bola e desce. Aqui do outro lado, em frente ao pedaço de cimento de seu prédio, que virou um campo de futebol em sua fantasia, eu ouço as batidas ritmadas da bola sendo chutada contra a parede. Uma após outra.

Se fossem outros os tempos, eu bem que iria reclamar da vida, da sorte, porque é um barulhinho prá lá de chato. Mas, hoje, não. O rapaz, sua bola e sua fantasia se tornaram, para mim, um símbolo dos nossos tempos.

Isolado! Deve ir aos 14, 15 anos. De vez em quando o pai desce com ele, às vezes é a irmã mais nova. Já vi até a mãe tentando agarrar a bola. Mas ninguém de sua idade, com a mesma porosidade que nos torna seres agrupáveis, gregários.

Não me perco pensando o que será do amanhã, como será o tempo pós-pandemia. Nem me iludo muito. A humanidade, pelo menos aqui neste hemisfério que eu conheço, ainda não está preparada para uma virada substancial, uma transformação radical em seu estilo de vida. E pode ser que tenhamos a má sorte de cozinhar pandemias daqui para a frente.

Restrita a meu território, a meu habitat, é daqui que colho eventuais fontes que alimentam minhas reflexões. O rapaz que joga sozinho sua bola contra o muro se junta, em meus pensamentos, à criança de 4 anos que divide parede comigo. Um vizinho querido, Pedro, sensível e doce, que certa vez já ouvi gritar, empunhando uma espada imaginária:

“Fora, Coronavírus!!!!”

Ah, Pedro, criança adorável. Que as forças do universo ouçam seu pedido e levem daqui todos os vírus que andam nos apoquentando a vida.

Foi Pedro quem me fez pensar em telefonar para uma amiga, Nuelna Vieira, que tem uma escola linda, super bem cuidada, para crianças de 0 a 6 anos. Lá tem arte, contato com a natureza, jogos, tudo sob os auspícios da psicomotricidade relacional, estudo que nos põe em contato.  Quis saber dela se a Casa Monte Alegre, sua escolinha, decidiu abrir as portas, como algumas têm feito.

“Não! Só abriremos quando a lei mandar e, mesmo assim, só para as famílias que realmente precisarem. Estou com saudades do futuro, sabe? Não vejo perspectiva alguma. As famílias não estão se sentindo seguras, e têm razão. Se eu volto a abrir as portas, quem voltará comigo?”, disse-me ela.

Nuelna é psicomotricista, portanto tem o olhar que mescla o de dona de escola, de empresário, ao da profissional que percebe o momento, que sente a situação de crianças e pais.

“Óbvio que ficar com pai e mãe é maravilhoso, muitas crianças estão adorando este momento. O que complica é que o ambiente em casa nem sempre é tranquilo. Muitos pais estão fazendo home office mas têm medo de demissão. Ou estão sendo super cobrados. Ou mesmo têm medo de pegar a doença. Fica um clima tenso em casa, não há uma zona de conforto. É diferente do que ficar em casa por opção. Estar com pai e mãe porque não há outra opção gera angústia”, disse Nuelna.

Como dona de negócio, Nuelna se sente muito perdida. Há a possibilidade de aceitar o empréstimo que o governo oferece, mas são tantas as exigências, que dá medo.

“Estou avaliando a possibilidade, mas percebo que vai me prender muito. Se eu aceitar o empréstimo, serei obrigada a manter toda a equipe pelo menos durante oito meses. Agora, imagine se eu perco 50% de minha capacidade, o que vou fazer? Como terei dinheiro para pagar os salários? A ajuda seria, de fato, diminuir nossos tributos, não dar um tempo para pagarmos. O governo está tentando evitar demissões. E acho isto bom, mas é preciso ter noção de que as empresas estão ficando menores, perdendo potência”.

Sim, isto é fato. E sim, isto não está sendo observado, muito menos cuidado pelo governo atual. Não foi o ministro Paulo Guedes que disse que preferia ajudar as empresas grandes?

Voltemos, pois, ao mundo das crianças e adolescentes. Para esmiuçar mais a reflexão sobre a rotina de Pedro e seus pais, sempre presentes, carinhosos, fulltime no reino da fantasia de uma criança de 4 anos, liguei para outra amiga, a psicomotricista Vitoria Bonaldi. Ela continua atendendo online, tanto adultos como crianças, e me contou que há muita tensão e, ao mesmo tempo, muita chance de ressignificar a vida em família.

“O sistema familiar está agora bem aberto, sem disfarces, para todos. O pai que é um alcóolatra disfarçado, a criança que é hiperativa, tudo isto vem à tona quando se está dentro de casa o tempo todo. É a chance de as pessoas olharem para isto e cuidar deste sistema para não adoecerem ainda mais. A criança aponta esta questão, e quando ela está na escola, fica mais diluído”, disse ela.

Por outro lado, vivia-se um exagero que poderá ser revisto, lembra Bonaldi. As crianças estavam fora de casa muitas horas por dia, com excesso de atividades. Na volta, que não se sabe quando será, é possível mudar esta necessidade tão premente de mantê-las o tempo todo ocupadas.

Fico pensando que esta mudança poderá puxar outras. Menos ocupação para as crianças, menos consumo, menos horas dedicadas a atividades que não nos dão prazer. E por aí vai a lista de transformações. Não ouso chamar de preparação para um novo futuro porque, como disse, nutro pouca ilusão de que haverá, de fato, esta transvaloração.

À geração que hoje se vira para ocupar o tempo de lazer sem ser em grupo ou à que já se volta com bravura contra os inimigos nada imaginários, minha total solidariedade. Deixamos para vocês um desafio e tanto, de reconstruir sua saúde sob seus próprios moldes.

 

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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4 respostas para ‘Fora Corona vírus!’

  1. NUELNA GAMA VIEIRA disse:

    Querida Amélia .

    Que bom escutar vc e mais um e mais um e ….

    Precisamos trocar mais e mais. Isso é saúde.

    Estamos recolhidos, mas não isolados.

    Seguimos!!!!!
    Bjs Nuelna Vieira

  2. Catia disse:

    Adorei, Amélia! Texto irretocável! Que reflexão sensível a partir do barulho desagradável do chute intermitente de uma bola na parede!!! Sim , como disse a sua amiga , “há muita chance de ressignificar a vida …” , pois temos uma enorme lista de transformações … que venha um futuro, se não de todo melhor , pelo menos mais consciente !
    Bjsss

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