Mobilização social salva a Floresta de Camboatá

Até segunda ordem, a Floresta do Camboatá vai se manter onde está e como está. A boa notícia correu feito rastilho de pólvora nas redes sociais. Coube a uma mulher, a juíza Roseli Nalin, da 15ª Vara de Fazenda Pública do Estado do Rio de Janeiro, perceber o cheiro de maus feitos no afã avassalador de derrubar 200 mil árvores de floresta nativa, matar no mínimo 14 espécies de bichos e, enfim, destruir uma área equivalente a duas vezes o Jardim Botânico para construir um empreendimento imobiliário e um autódromo. Cinza em vez de verde. Ar poluído em vez de ar puro. Matando, também, a chance de drenar água da chuva. De quebra, aumentando sensivelmente a temperatura da região. A geringonça que querem construir fica em Deodoro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, que registra verões quentíssimos.

A pergunta que não quer calar é: por quê construir um autódromo? E por que ali? Não tenho a resposta na ponta da língua, ou seja, não tenho dados que me deem garantia para escrever. Vou seguir a moda criada pelos procuradores da Lava Jato quando apresentaram denúncia contra o ex-presidente Lula: não tenho provas, mas tenho convicção.

E a minha certeza é de que, ainda hoje, a humanidade não percebe o valor da vida. O lucro fala mais alto. Mesmo com nossa realidade atual, com mais de 600 mil pessoas mortas pela ação de um vírus que chegou mostrando que os cientistas falavam a sério quando diziam que o aquecimento global aumenta sensivelmente as ameaças sanitárias. Mesmo assim, derrubar árvores não parece, aos pretendentes àquele espaço, nada absurdo.

“À medida que o planeta se aquece (…) os animais deslocam-se para os polos fugindo do calor. Animais estão entrando em contato com animais com os quais eles normalmente não interagiriam, e isso cria uma oportunidade para patógenos encontrar outros hospedeiros. Muitas das causas primárias das mudanças climáticas também aumentam o risco de pandemias….” (Aaron Bernstein, diretor do Harvard University’s Center of Climate, Health and the Global Environment, em artigo publicado no site da Unicamp escrito pelo professor Luiz Marques em 05-05-2020).

Isto é fato. Mas o que me faz escrever sobre este tema hoje é o desejo de compartilhar com os leitores uma relativa dose de ânimo: a esperteza e rapidez da mobilização social em torno da Floresta de Camboatá.

Desde a semana anterior à decisão da juíza Roseli tenho recebido mensagens e vídeos com famosos alertando para a destruição que seria iminente. Já tinha sido marcada uma mega manifestação virtual, um abaixo assinado começou a recolher assinaturas e quase nove mil pessoas tinham assinado.

Por tudo isto, podemos dizer que, além de ter percebido que debaixo deste angu tem caroço – e dos grandes – a Justiça também deu ouvidos à grande parte da população interessada em preservar o que nos resta de verde e de saúde.

“A democracia funciona na medida em que os indivíduos possam ter uma participação significativa na arena pública, ao mesmo tempo que cuidam de seus próprios assuntos, individual e coletivamente, sem intromissões ilegítimas por parte das concentrações de poder” (Noam Chomski em “O lucro ou as pessoas?” Ed. Bertrand Brasil).

Em 2008 fui ao Chile fazer uma reportagem sobre o lançamento do Mapa Verde de Santiago para o caderno Razão Social, que eu editava no jornal O Globo com temas ligados ao desenvolvimento sustentável. A pauta mudou completamente porque tive a chance de conhecer e conversar com Lake Sagaris, uma mobilizadora social de primeiro time. Ela contou-me sobre o início da ONG Ciudad Viva, que estava ali fazendo parceria com a Natura no lançamento do Mapa. Vou resumir para caber aqui no meu objetivo de mostrar a importância dessas ações populares.

Um consórcio de empreiteiros decidiu fazer uma mega rodovia. Até aí, tudo bem, não fosse o fato de que uma parte da estrada passaria pelo meio de um bairro histórico, tradicional de Santiago. Foi este o mote que começou a juntar os moradores. Um trabalho intenso de mobilização, com passeatas e auxílio da grande mídia teve um resultado feliz: a rodovia foi construída em outro espaço, e o bairro manteve seus paralelepípedos que o constituíram como cenário urbano tradicional.

A festa de lançamento do Mapa Verde aconteceu num imóvel público, comunitário, bonito, que a empresa enfeitou para receber as autoridades e convidados. Estranhei o ineditismo, já que as ações solenes de grandes corporações costumam acontecer em auditórios de hotéis chiques. Minha curiosidade foi debelada por um executivo da Natura, que me explicou que o local da festa fora uma exigência de Sagaris: “Ela queria que fosse num lugar onde qualquer pessoa se sentisse à vontade para participar da festa”.

Busquei Lake Sagaris para uma entrevista, e fiquei encantada com a forma realista e sincera com que ela conduz o tema mobilização social. E lembrei-me dela quando soube que, pelo menos até agora, a Floresta de Camboatá está salva. Não dá para cochilar, porém. Porque, como já estamos cansados de saber, na luta entre a preservação e o desenvolvimentismo, a primeira anda perdendo feio.

lake sagaris

Foto de Lake Sagaris editada no Razão Social de agosto de 2008

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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