Sonhar não custa nada

 

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Esta foto foi publicada na coluna Nova Ética Social, assinada por mim no portal G1 em março de 2016. A foto é de Elke Wetzig/Creative Commons

Já que o agronegócio está no centro dos holofotes, este vai ser nosso assunto de hoje.  E, para variar um pouco, trago boas notícias. Não sem alguma reflexão, claro, afinal tem sido meu papel.

A primeira notícia é que ontem houve uma reunião entre governadores da Amazônia e grupos de empresários, incluindo Abag (Associação Brasileira de Agronegócio), em que foram listadas algumas ações objetivas que eles exigem do poder público. Não vou listá-las aqui para não cansar vocês. Basta dizer que faz parte de um pacote de quem ainda valida a percepção de que é possível desenvolver e preservar, sem debater a envergadura do desenvolvimento. Mas já é bom, porque ficou claro, segundo o release que recebi do Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), que há uma forte preocupação do empresariado com a imagem negativa do país no exterior. E estamos falando, aqui, só na questão de negócios e meio ambiente.

Bem, a reunião aconteceu antes da notícia-bomba que saiu hoje, dando conta de que a prefeitura de Shenzen, na China, detectou coronavírus no frango importando do Brasil. A imagem do país ganhou tons negativos ainda mais fortes, pelo que imagino.

Mas, já que estou em dias de boas notícias, vamos continuar falando sobre a reunião de ontem, entre empresas e poder público, e sobre o que pode vir de bom deste encontro.  Os mais céticos podem dizer que, no fim das contas, é apenas mais uma reunião como tantas. Não deixa de ser, mas não se pode enquadrá-la na seção de retórica inútil. É bom lembrar que … “As 500 empresas multinacionais privadas têm 52% do PIB do mundo (todos os setores reunidos, bancos, serviços e empresas). Elas monopolizam um poder econômico-financeiro, ideológico e político que jamais um imperador ou papa teve na história da humanidade” (ZIEGLER, Jean, no site outraspalavras.net em 24/05/2019).

Considerando todo este poder, não se pode achar pouca coisa que as corporações estejam preocupadas com o combate ao crime organizado ligado à grilagem e ao desmatamento ilegal na Amazônia. Se o governo se empenhar e fortalecer a segurança na área, isto poderá beneficiar também os indígenas que estão denunciando massacres em massa por lá.

Bem, mas já que as empresas estão se unindo em prol de mudanças, não custa trazer aqui um caso de sucesso que pode validar a teoria de que não é preciso desmatar tanto ou usar tantos pesticidas para alimentar a população mundial. E, quem sabe, pode servir como exemplo a ser replicado.

O nome dele é Ernst Götsch, um suíço que tem atraído a atenção da mídia que cobre assuntos relacionados ao ecodesenvolvimento. Sua história apareceu há uma semana no site Mongabay, mas eu já o conheço há uns três anos, quando falei sobre ele na coluna que eu mantinha no portal G1.

Ernst Götsch criou, na fazenda de soja Invernadinho, perto de Mineiros, Minas Gerais,  um modelo de agricultura orgânica capaz de substituir a Revolução Verde impulsionada desde os anos 50 pelos avanços da agroquímica. Também conhecida como agrofloresta, baseia-se num conceito fácil de entender: é preciso deixar a terra respirar e respeitar a diversidade da natureza.

Fácil não é.

“Nós somos a girafa, os agricultores têm que aparar regularmente as fileiras de árvores que ladeiam as plantações. A poda estimula o crescimento das plantas, cria biomassa que é adicionada ao solo como fertilizante e faz entrar a luz que estimula a fotossíntese e, portanto, absorve mais dióxido de carbono”, explicou o suíço à jornalista Sandra Weiss, que assina a reportagem do site.

Este ponto – a facilidade ou não do trabalho de produção, qualquer que seja ele – é muito importante e faz parte das reflexões que quero compartilhar com vocês. A partir de minha experiência pessoal, ando pensando que compramos, meio sem refletir muito, a praticidade que as máquinas nos garantiram. Não me interessa eleger vilões. Prefiro a impertinência de trazer para cada um de nós a responsabilidade – “Seja a mudança que você quer ver no mundo”, diz Mahatma Gandhi. De certa forma, torna também mais fácil provocar as variações. Já que os hábitos são nossos, nós podemos alterá-los a qualquer momento.

Tenho uma amiga, Martha Neiva Moreira, que me conheceu numa época em que eu me nutria à noite com shake emagrecedor e sanduíche de pão de forma light com algo que se compra às pencas nos supermercados, costuma-se chamar de queijo, mas que não se sabe bem como é feito. Ela gosta de lembrar disso quando, hoje, trocamos receitas sobre pães sem glúten, doces sem açúcar feitos com frutas, refogados interessantes para tornar os legumes mais apetitosos com temperos indianos, e por aí vai. Minha mudança foi bem radical, mas lenta, fez parte de um processo que ainda se arrasta.

Esta é a questão. Parei de comer carne vermelha há mais de uma década, e hoje não salivo mais por um pedaço de picanha, garanto a vocês. Parei de comer frango há quase dois anos, e o porco saiu completamente da minha dieta assim que começou a pandemia. Sim, tem uma ideologia que me conduz, mas eu consegui, acima de tudo, perceber a diversidade de alimentos que estava perdendo ao me concentrar na prática solução de arroz, feijão, carne e saladas. Sem falar no shake, cuja fórmula eu prefiro nem me lembrar…

Vandana Shiva é uma física, indiana, que conheci enquanto editava o “Razão Social” (caderno sobre ecodesenvolvimento que editei no O Globo de 2003 a 2012) e que passou a fazer parte de meus estudos. Volta e meia eu dou uma olhada no site do instituto criado por ela, o Navdanya. Vandana criou o banco de sementes na Índia, e isto revolucionou o cenário de fome na região. Ela traz, de uma forma simples, direta e muito inspiradora, a ideia de que a diversidade de alimentos foi sendo destruída quando a grande indústria de alimentos tomou para si, grande parte com nosso consentimento, a tarefa de nutrir a população mundial. Vale a pena vocês conhecerem, se já não conhecem, as ideias de Vandana Shiva.

Há muitos grãos e sementes que a gente nem imagina que existem e que podem nutrir nosso corpo com eficácia. Mas são mais difíceis de achar, às vezes é preciso debulhar, não têm gosto conhecido… enfim, dá mais trabalho comer. A ideia é que eles podem ser descobertos. E deixemos ao agronegócio a tarefa de gerenciar o estrago que já foi feito na natureza por causa de tanta monocultura. Aos poucos, à medida em que formos indicando outros desejos, pode ser que ele se adapte e trabalhe mais a favor da diversidade.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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