O trem fantasma

 

sete-de-setembro-17-agosto-2020

Foto atual da Sete de Setembro, tirada hoje de manhã

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Foto da época das obras para o VLT, julho de 2016

Durante dois anos e oito meses de minha nem tão longa existência eu decidi ouvir o canto da sereia. E comprei um ponto de um restaurante popular, bem popular, ali na Sete de Setembro, importante rua do Centro da cidade que é o segundo polo econômico do país. Para isto, investi todo o dinheiro que tinha. E o dinheiro que eu tinha, era fruto de uma vida inteira de trabalho como jornalista.

Bem, a história desses 970 dias – eu não quero chamar de aventura, mas é quase isto – vai ser detalhada num livro que estou escrevendo. O que trago hoje, aqui neste espaço, é a minha indignação. E, quem sabe, algum pensamento que possa servir como adjutório aos candidatos a se sentarem na cadeira de quem administra a cidade. As eleições, no fim das contas, vão acontecer. E, como cidadã, sinto-me impelida a botar holofote sobre aquele canto da cidade. Que não é um canto qualquer, como já disse, e que precisa muito de um estudo urbanístico, social, ambiental. Precisa de régua, compasso, óleos essenciais, velas, orações, mantras… seja lá o que for. Mas não pode continuar como está.

Para falar do presente, preciso dar uma rápida pincelada do que foi aquele momento, em maio de 2016, quando assinei o contrato e tornei-me dona de 80% do restaurante. A Sete de Setembro estava em obras para abrir canal ao Veículo Leve sobre Trilhos, o famoso VLT. O dono do restaurante que me vendeu o ponto – preciso dizer que fica no trecho mais pobre da rua, entre a Uruguaiana e a Praça Tiradentes – não suportou os quase dois anos de barulho, poeira e poucos clientes. Vendeu-me por um preço que, para ele, era muito baixo. E deu para eu comprar.

Alimentei-me da esperança que estava no ar. Eu era a sócia majoritária, e tive ajuda de um amigo, que se tornou o segundo sócio, que já tinha outro restaurante no local. Era um momento penoso para os comerciantes, mas todos acreditavam que a bonança estaria próxima. A Sete de Setembro, até então uma rua praticamente tomada por carros – estacionados e circulando – se tornaria um boulevard. Teria vasos, flores, plantas. O VLT iria atrair turistas, os turistas se sentiriam atraídos pelos restaurantes, a clientela faria filas nas portas.

Meu projeto era ter um local bonito, confortável, oferecer boa comida por um preço que pudesse ser pago por trabalhadores. Camelôs, funcionários de lojas, iriam se sentar para comer num lugar com quadros de Tarsila do Amaral, pequenos textos contando a história da Semana da Arte Moderna. E fariam contato com alimentos com os quais estavam pouco familiarizados, já que eu queria tornar prática a teoria que estudo, sobre um ecodesenvolvimento, sobre a necessidade de se diversificar nossos hábitos alimentares.

O sonho foi se desmoronando como marshmallow em fogo. As obras terminaram, o trenzinho começou a circular e, em poucos meses, viu-se que o boulevard não saíra das pranchetas dos urbanistas e das propagandas. A rua foi virando um deserto. E o que é pior: árido. Passei lá três verões. E era um sacrifício fazer o trajeto entre o Metrô Carioca e meu restaurante sob um sol que, já de manhã, me desnorteava de tão forte. Quem mora nesta  cidade sabe a ilha de calor em que ela se transforma.

Tentei, juro que tentei. Fiz contato com a Fundação Parques e Jardins, que me dizia que a empresa do VLT (Alstom) era obrigada a fazer a urbanização como contrapartida. Ofereci-me para ajudar, na época ainda sobravam-me alguns tostões. Sugeri que eu pudesse levar alguns vasos, enfeitar de alguma forma e trazer algum verde para tanta aridez.

“A senhora vai acabar sendo multada por atrapalhar o caminho dos pedestres”, disse-me uma voz fria do outro lado do telefone.

À medida que os clientes iam desistindo, não só por falta de incentivo para atravessar o deserto e ir almoçar,  como por falta de dinheiro – sim, a crise foi comendo também a vontade de ir a restaurantes e eu via, desesperada, aumentar o número das tais bolsinhas de marmitas nas mãos de usuários no Metrô – a minha energia ia baixando. E o meu caixa ia se esvaziando. Até que, em janeiro de 2019, dei por finda a minha vida de empreendedora. Mas meu coração, é claro, continua ligado ao lugar onde vivi tão intensamente.

Salto para agosto de 2020. Mesmo nos meus mais atormentados pesadelos, à época que me vi como dona de restaurante, pude imaginar o que estamos vivendo. A pandemia, o isolamento social, acirraram o desterro. A Sete de Setembro, naquele trecho, está proscrita. O VLT ganhou um apelido: o trem fantasma. Que leva ninguém a canto nenhum, dizem os comerciantes guerreiros que sobrevivem ao caos.

Lição de casa para o governante que ganhar as eleições. E lição de vida para nós, que vivemos aqui nesta cidade. Acreditar demais em quem se dá o direito de redesenhar a trama urbana oferecendo garantias de progresso e bem estar aos cidadãos parece ser a nossa marca.  Atraso o relógio da história e vou mais além, para o início do século XX. Em 29 de fevereiro de 1904, Rodrigues Alves, então presidente da República, deflagrou aqui uma revolução urbana.

“A mudança na cidade exigia que os prédios tivessem fachadas e que os projetos fossem previamente aprovados. Remodelou-se, também, a rua do Ouvidor e a avenida Beira-Mar, revelando a beleza da orla, pouco aproveitada … Impuseram-se normas de civilidade: tornou-se proibido cuspir no assoalho dos bondes…” (Mary del Priore, em “Histórias de gente brasileira”, volume 3) .

Olavo Bilac, num texto reproduzido pela historiadora, invejava a sorte dos “que agora estão nascendo, dos que vão viver numa cidade radiante – quando eu, e os da minha geração, pela estupides e pelo desleixo dos enfunados parlapatões que nos governaram, tivemos de viver numa imensa pocilga de dois mil quilômetros quadrados, como um bando de bácoros fuçando a imundície”.

Ah, meu caro Bilac, se me permite me dirigir a você com tanta intimidade, quero lhe dizer que aquela cidade radiante de seus sonhos anda precisando de muitos cuidados, em todos os setores. Que não tenhamos, a nos governar, mais um parlapatão. A gente não conseguirá sobreviver…

 

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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2 respostas para O trem fantasma

  1. Lucila Soares disse:

    Sou testemunha ocular da saga da Amélia à frente do restaurante. O relato dela reflete um drama que atinge milhares de empreendedores, uma categoria que é estimulada no discurso liberal e vive jogada às feras na vida real.
    O abandono do Centro foi a pá de cal num projeto bacana, que já sofria com impostos, burocracia, desemprego.

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