A história de Nel, sertanejo que criou as cisternas que mudaram a cena do Sertão

Apolonio

Capa do Razão Social de 2004: Nel mantém a revista até hoje em sua casa

O ano era 2004. Eu editava há cerca de um ano o caderno “Razão Social”, no “O Globo”, que, como muitos de vocês já sabem, tinha o propósito de informar sobre ações que davam certo na construção de uma sociedade mais justa para todos. Vivíamos então, no mundo, no Brasil, uma época diferente da que vivemos agora. Não havia um debate tão polarizado sobre a se a atuação do Estado deveria ser forte ou não. As políticas sociais se amontoavam, estavam dando certo. ONGs até se queixavam de que o Estado estava tomando o lugar delas. Enfim, como em tudo na vida, havia um lado, outro lado, não necessariamente opostos, mas diferentes.

De qualquer modo, havia no ar uma energia nova, que o Razão Social acompanhava. E eu, como repórter que nunca deixei de ser, fazia todo o possível e o impossível para estar nos lugares, registrando de perto os projetos. Não queria contar aos leitores apenas dados que os assessores me enviavam. Eu precisava estar presente, reportariando.

Foi assim que aceitei o convite para ir ao Nordeste participar da solenidade que marcava o início da parceria entre governo, empresa privada (um banco) e a Articulação Semiárido (ASA) para a produção de um milhão de cisternas rurais, meta alcançada dez anos depois. Até hoje me lembro: foi um bate-volta, porque não podia ficar longe da Redação, tinha muito trabalho a fazer. Mas gostei de ter ido porque entendi a extensão e a importância daquele Programa.

Era uma coisa simples: construir um tanque gigante feito de cimento para captar a água da chuva por um mecanismo ainda mais comum: calhas, com um filtro para depurar a sujeira. Agregar uma pequena bomba, para retirar a água quando necessário. Ou seja: a época da chuva servia para armazenar a água neste tanque, uma quantidade que bastasse para cozinhar, lavar, até beber. Havia cisternas de até 60 mil litros. Cada uma levava cerca de cinco dias para ficar pronta e custava, na época, R$ 1 mil.

Saí do evento de lançamento com um nome da cabeça: Pedro Damião, apelido Nel. Em sua palestra, Frei Betto, então assessor especial do governo Lula, citou Pedro Damião como o grande idealizador da cisterna. E fiquei com muita vontade de ouvir a história daquele sertanejo que tinha revolucionado, de forma simples, a história de sua terra, até então entregue a políticos oportunistas que trocavam caminhões-pipa por votos.

Não foi fácil encontrá-lo. Na época ainda não tínhamos internet tão veloz e cheia de dados como hoje. Eu tinha fontes, ONGs que me ajudaram na busca.  Com a ajuda da Articulação do Semiárido (ASA), consegui descobrir Nel e, de quebra, desvendei o mistério, porque fora tão difícil chegar a ele. Frei Betto cometera um equívoco: o apelido estava certo, mas o nome era outro. Manoel Apolônio de Carvalho, e não Pedro Damião.

As meninas da ASA fizeram a ponte e Nel combinou de ir à pracinha principal de Simão Dias, cidade sergipana onde vivia, às 20h em ponto para falar comigo a partir de um telefone público. Assim foi feito.

Ele tinha 17 anos quando pegou o rumo de São Paulo, para fugir da seca no sertão. Como era analfabeto, só arranjou viração numa obra, como assistente, a quem foi pedido que construísse a piscina de um clube. Nel conheceu ali o cimento, ficou extasiado com a mágica proporcionada por aquele pó cinza, que misturado com água endurecia e ficava forte. Nas horas vagas ele assumia a postura de pensador: em sua terra, aquele tanque imenso podia ter outra serventia. No período das chuvas, era só guardar a água ali, tapar e usar na seca.

Nel contou-me seu sonho e de como, ao ser demitido – porque, afinal, dono de obra não quer sonhador como funcionário – voltou para sua terra, em Jeremoaba, na Bahia, e começou a erguer cisternas, por “dois merréis” cada uma. Foi assim que conseguiu se casar, criar família, ter uma casa. As cisternas passaram a se espalhar, muita gente copiou o invento, e a confusão foi tanta que, no fim das contas, ninguém mais sabia que Nel fora o primeiro. Contei a ele, pelo telefone, que Frei Betto o havia homenageado (omiti a confusão do nome).

“Moça, então alguém reconheceu o que eu fiz? Eu fico com os olhos cheios d´água, sabe? Porque eu tenho certeza de que fiz uma coisa de grande autoridade para a humanidade”, disse-me ele.

Busquei na internet notícias atuais de Nel e descobri uma reportagem feita pela repórter Isabela Assumção para o Globo Rural há três anos. Desta vez, quem ficou emocionada fui eu: está lá, pendurada na parede da casa de Nel, a capa do Razão Social em que sua história foi contada. Coisas boas desta profissão que abracei e da qual tenho muito orgulho.

Por que estou trazendo esta história hoje? Porque recebi da ASA, organização com a qual continuo mantendo contato, uma triste notícia: o Programa Cisternas estagnou.

“Não há nenhum investimento de recursos públicos novos neste ano de 2020 neste programa”, diz a mensagem que recebi por e-mail.

Busquei contato e Veronica Pragana Ferraz, uma das pessoas que cuida da comunicação da ASA, contou-me que perdeu o acesso a Nel. Mas que hoje no Semiárido há “milhares de Nel”:

“Não só homens, como mulheres, todos(as) cisterneiro(a)s, que já construíram 1,2 milhão de cisternas de primeira água para a população dispersa do Semiárido”, contou-me Veronica. Mas, infelizmente, disse-me ela, ainda tem 350 mil famílias sem acesso a esta água. Por isto o Programa deveria continuar.

Por outro lado, a ONG conta que está empenhada em novo projeto – que será realizado na America Latina, ou seja, Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai e nos países do Corredor Seco, região subúmida que corta vários países da América Central, entre eles El Salvador.  Este novo projeto não substitui o Cisternas, mas tem a proposta de “identificar e sistematizar experiências locais que trazem impactos positivos com relação ao aumento da adaptação das famílias agricultoras às áreas secas, cada vez mais afetadas pelos eventos extremos climáticos”.

Sim, é preciso olhar para o sertão. Um estudo recente lançado pela Fiocruz dá conta de que metade das 800 milhões pessoas que passam fome no mundo são pequenos agricultores e agricultoras que vivem em áreas secas do planeta. Não é de se estranhar, claro.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s