Na pandemia, a ética de fazer escolhas a favor da vida

Imagem de travelphotographer por Pixabay

Vamos aos fatos internacionais, já que no nosso território o que temos de notícias sobre meio ambiente é a situação já vista, muito analisada e, aparentemente, sem solução a curto prazo. O desmatamento de sempre sendo, como sempre, contestado pelas autoridades governamentais de Brasília. E o eterno imbróglio entre preservação e desenvolvimento.

Internacionalmente, porém, o que mais me chamou a atenção no noticiário da semana passada foi a informação, incluída no meio de uma reportagem no site Climate Home News, contando que existem 64 milhões de indianos sem acesso à energia elétrica. Aqui no Brasil, há quase um milhão de pessoas nesta situação*, o que nos põe, proporcionalmente, numa situação bem melhor: enquanto, na Índia, são 4,92%, no Brasil são 0,45% da população vivendo sem energia elétrica.

Mas vou me focar no número absoluto, que foi o que mais me impactou: 64 milhões!!! São muitos indianos vivendo como se estivessem ainda no século XIX! Levando em conta que aquele país tem um “Vale do Silício” em Bangalore, ao Sul do território, com 250 empresas globais de tecnologia e informática, dá para perceber o tamanho do fosso de desigualdade por lá. Este é apenas um dos problemas.

Os dados vieram à tona porque o secretário-geral da ONU, António Guterres, mandou um recado direto, semana passada, ao primeiro-ministro indiano Narendra Modi. Para Guterres, se Modi aumentar o investimento em painéis de energia solar em seu país – a Índia está fornecendo sete vez mais subsídios a combustíveis fósseis do que a energia limpa –  vai conseguir resolver duas das principais prioridades de desenvolvimento da Índia: aliviar a pobreza e levar energia para os indianos que ainda não têm acesso a ela.

Mas Modi está raciocinando numa linha diferente daquela proposta por Guterres. O político acabou de liberar 41 blocos de mineração de carvão no país para investidores privados e declarou estar certo de que, com esta atitude, vai ajudar a criar centenas de milhares de empregos num momento de tanta sensibilidade econômica para seu país. Durante a pandemia – a Índia registrou, até ontem, quase três milhões e setecentos mil casos de pessoas infectadas pelo Corona vírus – o PIB do país caiu 23,9% e teve o pior desempenho global no segundo semestre.

As estimativas dão conta de que 500 mil mineiros de carvão ficariam sem emprego se o primeiro-ministro seguisse a recomendação da ONU. Não há plano B para essas pessoas, simples assim. E, mesmo tendo em conta que seria necessário também muita gente para ajudar a implementar a energia solar, como a capacidade local continua limitada,  não seria possível absorver tanta gente, segundo a consultora de energia Swati Dsouza disse ao site.

O que fazer?

“Devemos abandonar a economia da ganância e do crescimento sem limites que nos levou a esta crise existencial. Devemos perceber que somos membros de uma família terrestre e que a verdadeira economia é a economia do cuidado, para a Terra e para cada um de nós”.

Reproduzi acima um trecho de um artigo de Vandana Shiva, física, ecofeminista, ativista ambiental indiana. Não responde à pergunta, mas aponta um caminho que está sendo pensado nesta época de tantos e tão intensos desafios. Na verdade, não há resposta pronta para o imbróglio que se impõe: salvar os empregos dos mineiros ou salvar a saúde de todos ao não poluir o meio ambiente com carvão?

A única certeza é que algo precisa ser feito. E com base em valores diferentes do que aqueles que vêm norteando nosso sistema até aqui. Escolhas precisam levar em conta a vida humana, não apenas o lucro. Este caso, da Índia, serve como um emblema para se repensar o modelo. E para se repensar, também, sobre as prontas respostas.

Será que a Índia, ao optar pela energia solar,   conseguiria realmente levar luz para os 64 milhões, e em tempo hábil?  O que poderia ser feito para incluir essas pessoas num prazo mais curto do que será necessário para que todo o sistema de fonte de energia seja trocado?

Nunca se falou tanto em ética, palavra que vem acompanhando as atitudes ESG (Environmental, Social and Governance) das empresas. Nunca se falou tanto  também em bem viver, em qualidade de vida, em felicidade. São valores intangíveis, com os quais o duro mundo do mercado financeiro e do trabalho não têm o hábito de lidar. Pois um pequeno vírus, que vem matando tanta gente, talvez possa nos ajudar a refletir nosso sistema sob outros parâmetros, acredita Vandana Shiva:

“Um pequeno vírus pode nos ajudar a dar um grande passo à frente para fundar uma nova civilização planetária ecologista, baseada na harmonia com a natureza. Ou, então, podemos continuar vivendo a fantasia do domínio sobre o planeta e continuar avançando até a próxima pandemia. E, por último, até a extinção”.

Fui à estante buscar subsídios sobre ética. Tenho o “Tratado sobre Ética”, de Baruch Spinoza, em tradução de Tomaz Tadeu (Ed. Autêntica). Revisitei a história de Spinoza, filósofo que viveu na Holanda de 1632 a 1677 e foi ousado o bastante para contestar o Deus que “está” em todas as coisas. Para ele, Deus “é” todas as coisas. Esta é uma diferença fundamental para quem quer pensar sobre o poder “acima de tudo”. Spinoza não explicou a ética, ele demonstrou a ética, quase geometricamente. Peguei ao acaso um Axioma da quinta parte do livro, à qual ele deu o título “A potência do intelecto ou a liberdade humana”.

Termino este texto com as palavras de Spinoza, que talvez se prestem a reflexões nesta era em que a gente precisa se fazer mais perguntas do que ter as respostas prontamente:

“Se, em um mesmo sujeito, são suscitadas duas ações contrárias, deverá, necessariamente, dar-se uma mudança, em ambas, ou em apenas uma delas, até que deixem de ser contrárias.

A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, à medida que sua essência é explicada ou definida pela essência de sua causa”.

*Informação obtida no site da revista Página 22

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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