Crise inspira debates, e todos falam em urgência

Ando em busca de perguntas. Pode parecer estranha posição para uma jornalista, mas os tempos andam exigindo mudanças de paradigma. Em busca de perguntas, me arrisco mais a ampliar pensamento, não me prendo a respostas prontas. Sou instigada a pesquisar, ler, estudar.

Há, no ar, um movimento que inspira a pensar em novas variantes para a peleja em que a humanidade está inserida. Oitocentas milhões de pessoas com fome; mais de 30% de terras no mundo estão degradadas; eventos extremos causados pelas mudanças do clima causadas pelo uso excessivo de combustíveis fósseis solapam territórios e atingem, sobretudo, os mais pobres são alguns pontos que demonstram nossa vulnerabilidade. Tudo isto, mais uma pandemia que já infectou mais de 27 milhões de pessoas.

Se é verdade que os riscos oferecem oportunidade, estamos então no momento ideal para ouvir quem pode, verdadeiramente, promover as mudanças necessárias. E há um movimento forte neste sentido. Semana passada os três donos dos maiores bancos brasileiros se reuniram numa live com a jornalista Miriam Leitão. Pincei duas chances para ficar otimista: a preocupação deles com as terras degradadas e o desejo de investir na recuperação delas. E a menção direta aos indígenas, entendendo-os como pessoas que precisam ser ouvidas e ajudadas. Alvíssaras!

Também há poucos dias empresários se juntaram, uma grande força para declarar ajuda à emergência climática, sobretudo na Amazônia.

Hoje estive, neste novo modo online, em outro encontro, chamado Action4Climate, que reuniu empresários também preocupados e interessados em mudar o cenário. Falou-se numa nova Lei do Carbono. Na verdade, ideia antiga, que ainda não pegou mas que, ao que parece, tem se tornado frequente nas rodas de conversas entre os empresários. Quer seja por conta da expansão do Corona vírus, quer seja porque, no fim das contas, está mesmo na hora de rever posições.

 À tsunami de impactos causados pela nossa civilização segue-se, então, uma onda de encontros, fóruns, para descobrir a saída, ou melhor, as saídas, porque são várias e precisam mesmo elencar vários pontos. Tenho visto pouca parceria com as ONGs, fundamental neste processo.

Em busca de perguntas, conversei com Ricardo Gravina porque a organização da qual ele é membro efetivo, o Sistema B, enviou-me uma mensagem comentando sobre o Dia da Sobrecarga da Terra, que aconteceu em 22 de agosto. O Sistema B trabalha em rede, certifica empresas que se inspiram por propostas que vão promover uma organização econômica diferente, com mais respeito pela natureza, pelos humanos, com vistas a um mundo mais igualitário. Enfim, tudo isto que se quer e que, nos tempos atuais, se tornou uma “urgência”.

Gravina aceitou minha provocação, de fazer praticamente uma revisão histórica. Há tempos vimos falando sobre esta tal “urgência”.

“Nos anos 80, 90, começamos a perceber que o caminho do desenvolvimento não podia ser aquele que se tinha imaginado. Houve um processo de conscientização social que aumentou muito com a internet. Agora temos uma consciência grande nossa interdependência, aquela frase do Bob Marley que gosto de repetir: ‘Se tem injustiça no mundo, a gente não está no lugar certo ainda’. A pandemia provocada pelo Corona Vírus, parece que tem provocado um grande despertar e, sim, cria um sentido de urgência muito maior. À consciência de que é preciso uma mudança drástica de comportamento, se juntam os questionamentos sobre impactos ambientais. O Corona vírus é, assim, um grande acelerador. Precisamos falar sobre isto”.

Perguntei a Gravina se ele acredita que as empresas estão, realmente, preparadas para enfrentar este debate. Do Papa Francisco e outros grandes pensadores, como o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, o discurso sobre a necessidade de baixar produção para pavimentar este novo mundo possível parece utópico para uns e necessário para outros. Sendo assim, nas mesas de debate onde estão pessoas que se afetam por esta proposta, ela ganha um peso. Em outras situações, porém, não se faz nem menção ao conselho dos que professam esta ideia.

Minha pergunta é: será que as empresas podem mudar seu ritmo, sua quantidade de produção, será que elas estão preparadas para pensar a respeito?

“As empresas estão desenhadas dentro de um modelo de geração e governança feito para evitar qualquer ruído sobre produção. O negócio da empresa é produzir o máximo possível, e ela cria toda uma estrutura para garantir que isto aconteça. Ela é amarrada para preservar o acionista, os donos do capital. Mas o que ando percebendo é uma mudança clara nos atores que trabalham nesta engrenagem. Converso com líderes empresariais, altos executivos, e percebo neles uma clara intenção de um diálogo mais profundo       . Mas há muitos desafios. É preciso redesenhar o sistema para que ele abrace este nível de complexidade”.

Perfeitamente. Entendo que os grandes líderes também estão em perspectiva de ter mais perguntas do que respostas, e isto é bom. Considerando, portanto, que o desafio está, pelo menos, na mesa de debate, o sentido de urgência precisa atuar no que está posto agora. Gravina me apresentou, com alguns detalhes, o caminho de criação do Sistema B, em 2006, nos Estados Unidos.  

“Ele nasceu tentando ser um movimento, considerando que a realidade é como ela é. A pergunta foi: como o processo de desenvolvimento pode deixar de gerar tantos malefícios? O Sistema B está tentando respondê-la. E começa com um viés muito grande para os pequenos negócios, mas acaba abraçando também os grandes. Ele busca criar este espaço de diálogo e experimentação sobre o que pode ser o futuro. É uma discussão que precisa ser feita de forma adulta, coerente, alinhada com a perspectiva de que é preciso andar para a frente. Sim, precisamos ter lucro, mas a que custo? Quais são os impactos disto?”

A conversa girou sobre a precificação de carbono, o que Gravina entende como necessário. A pergunta que fica a respeito, especificamente, deste tema, é: como se vai mensurar este preço?

E tantas outras perguntas podem entrar nesta espécie de catálogo sobre o desenvolvimento, ou sobre o ecodesenvolvimento, ou sobre o ecosociodesenvolvimento. Seja lá o nome que se dê, o que importa é juntar mais pessoas para fomentar o debate e, claro, para que não se fique só no debate. Hoje à tarde assistirei a outra live, organizada por ONGs ambientalistas, onde será debatida a Riqueza da Floresta em Pé.

Vou contar para vocês o que foi discutido lá, em outro post aqui. Como estamos vendo, o momento está bem rico. Que bom.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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