Conversa sobre o mundo caótico que nos cerca

Não tenho Jamil Chade e Ruth Manus em minhas algo descuidadas listas de contato em redes sociais. Mas, neste fim de semana, foi como se eu estivesse conversando com os dois em longos e proveitosos e ricos diálogos por WhatsApp. Recebi da Editora Sextante o livro “10 Histórias para tentar entender um mundo caótico”, escrito pelos dois, e só despreguei os olhos do texto para dar conta de afazeres domésticos de fim de semana e para assistir a live do Festival Livmundi (https://www.youtube.com/watch?v=AIuNr3SU_FU ) com a imperdível conversa entre Pepe Mujica e Noam Chomski. Ou seja: foram dois dias em que mergulhei fundo na proposta que o título do livro apresenta.

Chade e Manus não têm pretensão alguma de encerrar o complexo tema ao qual dedicaram seu livro. Vê-se isto pelo título: eles vão “tentar” entender um mundo assombroso como o nosso. Para isso, partem de conversas entre os dois, que foram atravessadas pela pandemia. Ela mora em Portugal e é advogada, escritora, professora e mestra em Direito do Trabalho.  Ele mora na Suíça, é jornalista que já cobriu eventos internacionais de causar inveja a qualquer colega (a viagem do Papa Francisco ao Brasil entre eles). Em comum têm o olhar que vê além e muita, muita estrada.

Na entrevista que deram ao sociólogo, escritor e professor Jessé Souza em seu canal (https://www.youtube.com/watch?v=38ebuElnscs) (que, aliás, também recomendo), explicaram o método de criação. A ideia foi elencar dez temas sensíveis e, a partir de histórias vividas por cada um, ampliar pensamentos num diálogo possível por conta da internet.

Não é fácil apontar trechos prediletos do livro para fazer uma resenha porque são todos muito ricos e com muitos dados. Sério: é um livro imprescindível à estante de qualquer um que não queira passar por este momento a ver navios ou colhendo amoras fictícias num jardim florido artificialmente. Considerando o momento tenso que estamos vivendo por conta da pandemia, o diálogo sobre Saúde que os dois descrevem no livro deixou-me verdadeiramente impressionada.

A capa do livro, editado pela Sextante

 A pandemia do coronavírus, que paralisou o mundo por um tempo e continua deixando em pânico os habitantes da base da pirâmide social, já era prevista pela Organização Mundial de Saúde (OMS), conta Jamil Chade.  Mas não era uma previsão assim, sem substância. Os membros da instituição, cuja sede fica em Genebra, cidade que Chade escolheu para morar, já temia, há anos, “o desembarque de uma doença que poderia ter um impacto devastador”. Fato é que o alerta foi dado. Fato é que ninguém escutou, que não chegou, por exemplo, aos meus ouvidos.

Seria diferente se eu soubesse, em 2018, que dois anos depois o país e o mundo enfrentariam uma crise deste tamanho? Talvez eu pudesse ter feito outras opções, guardado algum dinheiro. De qualquer forma, como lembra Ruth Manus, “Nós tínhamos o direito de saber”.

Chade conta que existem 1,6 milhão de vírus desconhecidos no planeta, dos quais até 800 mil poderiam atingir as pessoas. Este afinco jornalístico por dados é o que mais me orgulha da profissão que escolhi. E sabem quanto os cientistas conhecem desses vírus plenamente? Apenas 0,4%.  Por causa disso, para tentar ampliar um pouco este portfólio de conhecimento científico, a OMS decidiu reunir uma elite de profissionais  em volta de uma mesa com a nobre função de encontrar caminhos que possam livrar a humanidade de tantos males.

Um dos cientistas que fez parte da reunião foi Peter Daszak, que se tornou fonte de Chade e contou-lhe que aquele debate levou à escolha de áreas prioritárias de pesquisa e à definição de uma lista das maiores ameaças ao planeta. Febre Hemorrágica Crimea-Congo, Ebola, Lassa (vírus que causa febre na Nigéria), Mers-CoV, Sars e até o Zika.

“Mas havia ainda outra ameaça: a de uma pandemia a partir de um agente desconhecido. Ao final de uma das reuniões em Genebra, um dos membros do grupo sugeriu um nome para essa ameaça: ‘Doença X’”, relata Chade.

E no dia 7 de fevereiro de 2018, o alerta foi dado a todos (eu disse todos) os governos do mundo. A ideia era que houvesse uma grande estratégia, assim como fazem os países que se sentem ameaçados por guerras, mas desta vez em torno da vida dos habitantes do planeta. Afinal, no cenário desenhado pelos cientistas, a Doença X seria letal para uma parcela da população. E proliferaria justamente pelo fato de não ser tão violenta e rápida como o Ebola. Muita gente, sem sintomas ou com um leve mal-estar, continuaria trabalhando e contaminando outros que, por terem um sistema imunológico menos forte, poderiam ser fatalmente infectados.

Como se sabe, a mobilização internacional jamais ocorreu. Num outro encontro com Daszak, já com a pandemia instalada, Jamil Chade puxou o assunto e ficou sabendo que a Covid-19 não é a Doença X:

“Ela é apenas a primeira Doença X. Outras virão. Será que desta vez vamos dar ouvidos à ciência?”, pergunta-se ele.

Já que me senti conversando por zap com os dois, ouso dar um pitaco neste diálogo. Minha resposta é não. Afinal, há uma onda, entre os governos populistas, de negação da ciência. Como lembra o professor Luiz Marques, de “Capitalismo e Colapso Ambiental” , a ciência só é ouvida quando traz boas notícias, quando anuncia uma nova droga ou leva o homem ao espaço.

 O negacionismo se estende também às questões climáticas, outro tema elencado no livro. Mas, como lembra Chade neste quesito, “o negacionismo não é só daqueles que não acreditam na ciência. Há quem recorra a ele para sobreviver economicamente”.

Aqui, deixo-me levar pelos pensamentos de Noam Chomski e Pepe Mujica, na live que assisti no sábado, como já contei a vocês. Para o ex-presidente uruguaio, a doença maior se chama “o sucesso do capitalismo”. Temos que mudar o conceito de felicidade, lembra ele. O diálogo é perfeito também com a definição de felicidade no capítulo cuja história principal é contada por Ruth Manus.

Numa viagem a Tam Coc, no Vietnã, Manus contrata um remador para levá-la num passeio pelo rio sob uma paisagem deslumbrante. O nome dele é Lam. Com um único dente na boca, possivelmente Lam passou grande parte dos seus quase 70 anos no mesmo local, remando rio abaixo, rio acima. E quando Manus decide, com a ajuda do tradutor do Google, perguntar se ele é feliz, sua resposta foi com um simples e significativo gesto: “Levantou o braço direito e, com ele, percorreu a paisagem”. E como não ser feliz ali?

O livro não desconstrói, mas compõe dados e a vivência dos autores a uma necessidade de romper com a narrativa presente e criar outra. Mais ampla, que considera, inclusive, a individualidade, as diferenças, como parte desse mundo caótico. Corrupção, violência, desigualdade, racismo, também compõem a narrativa, que inclui o amor. Não o sentimento hollywoodiano, tampouco aquele que é cooptado pelos populistas – amor à Pátria, lealdade a identidades construídas! Mas a sensação necessária para se ter o desejo de defender direitos básicos. Nossos e dos outros.

Poderia escrever telas e telas sobre o livro, trazer dados que chocam, analisar algumas falas. Mas prefiro sugerir que comprem. E termino o texto com outra provocação de Pepe Mujica na linha que nos leva a cumprir esta nova caminhada que a pandemia está exigindo. Com um olhar mais humano do que financeiro, mais solidário do que isolacionista:

“Temos que mudar o conceito de felicidade. Ser feliz é ter tempo livre para você usar como quiser”.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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