Por que não transformar palácios em hotéis?

Comecei meu dia com uma notícia. Bem, na verdade, para jornalistas isso não é novidade, portanto nem deveria estar na primeira linha do meu texto. Vou escrever, então, de outra forma: comecei meu dia com uma notícia que me chamou a atenção. Assim fica melhor, embora nesse momento que vivemos, em que é preciso sempre tomar algum lado – um e outro – também não seja, exatamente, um início de texto que atraia os leitores.

Vou direto ao ponto, portanto: uma amiga, num grupo de amigos jornalistas, mandou-me um “zap” com um tópico da coluna do Lauro Jardim, no Globo, em que se lê que o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, quer transformar o Museu do Jardim Botânico em hotel-boutique.

Pronto. A notícia veio endereçada a mim, no grupo, e eu imediatamente me senti na obrigação de opinar. Essa é outra das reações recorrentes de nossa era pandêmica, do gueto dos isolados com máscaras. Em vez de cafezinho no corredor, debatemos online. Se antes já era difícil criar um hiato, uma hesitação, um tempo para resposta, agora ficou muito mais. Ansiosa como sou, vou logo respondendo, buscando uma posição contra ou a favor, para não ficar fora da onda. Nesse caso, lembrei-me de quão predatório pode ser o turismo, pensei naquelas lindas plantas do Jardim Botânico sendo pisoteadas por crianças, adultos e jovens em férias. Fui além, fantasiei até as toalhas de piquenique com quadradinhos vermelhos e brancos sobre a grama de um território criado no início do século XIX.

Aqui vale contar rapidamente que o Jardim foi fundado em 1808 com uma decisão de D. João XVI: ele quis erguer naquele território uma fábrica de pólvora (?) e um “jardim para aclimatação de espécies vegetais originárias de outras partes do mundo”. Esta última citação que pus entre aspas está no site do próprio Jardim Botânico. E o ponto de interrogação é meu, porque realmente não consigo entender o que se passou pela cabeça do regente, ao misturar pólvora e plantas. Logo, logo, ficou claro que o que ele queria, obviamente, era lucrar. Trouxe chineses para ajudá-lo e começou a plantar chá… numa terra dos trópicos, quentíssima. Ninguém gostou, e o plano foi abortado.

O Jardim Botânico de hoje é um território cuidado, um oásis no barulho da cidade, local de lazer de famílias, mas um lazer que tem regras. O Museu do Meio Ambiente, que corre risco de virar boutique, é um espaço para exposições e já foi muito usado para programas educativos. No tempo em que Samyra Crespo era diretora do Jardim, fui a várias palestras sobre o Rio de Janeiro, aprendi muito sobre urbanização, sobre memória urbana, sobre a história da cidade.

São valores intangíveis. Não será transformado em dólar, não vai atrair divisas como um hotel, mas ajuda a ampliar o hábito de pensar, instiga a curiosidade. É como um alimento. Não custa lembrar, sobretudo num momento como o que estamos vivendo. Entendo que é preciso lucrar, mas gosto da provocação que o célebre Noam Chomsky faz num de seus livros: vamos privilegiar o lucro ou as pessoas? O que seria de um sem o outro?

Sou contra, portanto, trocar um museu por um hotel.

Mas, no próprio “cafezinho online” da minha turma, alguém lembrou que um bom hotel traria muitas divisas. E não é disso que essa nossa tão combalida cidade anda precisando nesse instante? Não importa muito se estamos à míngua por conta de tantos maus feitos, não importa muito, nesse debate, que já se prendeu o sexto governador do estado. O que importa é o hoje.

Pois, justamente! Não é que me deu uma ideia que pode acomodar a real necessidade de lucro com a revitalização do Centro – proposta da nova prefeitura, descrita numa bela reportagem do repórter Luiz Ernesto Magalhães no Globo de hoje? Darei aqui, assim, minha modesta colaboração ao novo prefeito e sua equipe.

Em vez de trocar um Museu por um Hotel, e considerando que o propósito do ministro seria oferecer aos turistas um lugar bucólico e arborizado para passar alguns dias na cidade praiana, por que não lhes dar mais do que isso? Por que não presentear os turistas com dois palácios?

O primeiro deles é o local de trabalho do prefeito, fica ali na Rua São Clemente, coração da Zona Sul da cidade, chama-se Palácio da Cidade. É bem mais novo do que o Jardim Botânico, por isso pode aguentar mais os trancos da turistada. Pertence à Prefeitura mesmo, a quem foi vendido em 1974.

Agora, o melhor da história: para revitalizar o Centro, o prefeito Eduardo Paes pode ocupar um dos prédios que hoje estão praticamente às moscas. Dia desses, li uma nota dizendo que a Vale estaria devolvendo o prédio que ocupava, na Avenida Graça Aranha, já que seus funcionários continuarão trabalhando em casa. Acabou-se a hora do cafezinho na mega empresa, e isso não é nada bom, mas é conversa para outro post.

O outro local que seria excelente para abrigar turistas em busca de uma paisagem bucólica, é o Palácio Guanabara, na Rua Pinheiro Machado, hoje ocupado pelo governo do Estado. O local já foi até residência da Princesa Isabel, mas recebeu várias reformas antes de ter sido definitivamente doado pela União ao governo do Estado.

 Já que o prefeito Paes chegou com discurso de conciliação e diálogo, não custaria nada tentar convencer o ministro Salles a renunciar a um museu para ocupar dois palácios. A troca parece até mais lucrativa.

O governo do Estado também poderia ser transferido para outro prédio no Centro. Já imagino aquelas ruas, hoje fantasmas, depois da vacina, pulsando novamente, com funcionários procurando restaurantes à hora do almoço, com bares e seus happy hour, com o Metrô funcionando a contento… Como em qualquer grande cidade que não tenha virado fantasma.

Fica a sugestão. Não é nada, não é nada, mas, como diria Hannah Arendt, nunca se deve jogar fora um pensamento.  

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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