Muvuca de sementes no jogo da urgência climática

Em entrevista à jornalista Daniela Chiaretti, no jornal “Valor Econômico” de sexta-feira passada (11/12/2020), o ex-primeiro ministro da França Laurent Fabius faz algumas considerações importantes para se entender a urgência climática. Fabius foi o principal articulador do Acordo de Paris, conseguido a duras penas em 2015. E agora está, claramente, e com apoio das Nações Unidas, tentando levar adiante o compromisso assumido por 194 países, ratificado por 147 e solenemente ignorado pelo atual e quase ex presidente dos Estados Unidos Donald Trump.

Com Trump fora do jogo, e considerando Joe Biden, democrata eleito no dia 3 de novembro, como parceiro na causa ambiental, é hora de tentar recuperar o que não foi feito nos últimos quatro anos. E às pressas, para se tentar chegar a algo próximo do que foi acordado em Paris há exatos cinco anos: baixar as emissões de carbono para que o aquecimento global fique, no máximo, entre 1.5 e 2 graus acima, tendo como base os níveis pré-industriais.  Para que isso seja factível, é preciso zerar as emissões antes de 2050. De preferência, até 2030.

Fabius deixa claro que todas as apostas para que o Acordo de Paris dê certo estão hoje com Estados Unidos, Europa e China. Aos países emergentes (pobres), entre eles o Brasil, restará se apegar às tecnologias, finanças e justiça para que não sejam vítimas de um vazamento de emissões, coisa bem possível de acontecer por causa do Mercado de Carbono. Como o próprio nome diz, essa ferramenta não inova muito, foca nos mesmos mecanismos que privilegia os méritos, os mais fortes.

O Mercado de Carbono é bem complexo, tem muitas firulas. Mas uma de suas faces é a seguinte: se uma empresa alemã, por exemplo, quiser contribuir para que seu país participe do esforço coletivo dos grandes blocos para zerar as emissões, ela pode produzir num país com legislação ambiental mais frouxa. Mais ou menos como acontecia quando a China tinha salários muito baixos e se tornou, assim, um bom mercado para muitas empresas que montavam lá suas fábricas. A China elevou os salários, ficando menos atraente. Os países que não quiserem ser quintal de vazamentos de emissões devem, então, fortalecer sua legislação ambiental.

Tanto Europa quanto China quanto Estados Unidos, no entanto, precisam se adequar aos novos tempos. De cinco anos para cá muita coisa mudou. Uma pandemia assola o mundo, e isso não é pouco.  A sociedade civil percebeu, à queima roupa, que nada será como antes. Até mesmo a vacina, embora muito bem vinda, não será a solução final para o problema, como bem se sabe. A pandemia mudou o mundo, descaracterizou os mercados, desmobilizou ainda mais os trabalhadores.

Quando Fabius fala em “sociologia da mudança do clima” talvez esteja se referindo a isso. A boa notícia é que, em seu discurso, há sempre a preocupação com os mais pobres, com a necessidade de os países ricos ajudarem a quem precisa, até mesmo, se adaptar a um clima mais quente.

“Precisamos de uma recuperação verde, de planos que sejam a favor, não contra o meio ambiente”, disse Fabius à jornalista. E conservar é a palavra mais usada. Conservar a floresta, que se chama de “sumidouro” de CO2, conservar os bichos, fundamentais para a existência da floresta. Mas… tenho uma dúvida crucial: será mesmo possível falar em conservação se o discurso continua sendo de “dinamizar as atividades econômicas”? É possível, verdadeiramente, esperar justiça nesse mundo das nações ricas, para com as mais pobres?

O ex-ministro, atual presidente do Conselho Constitucional, um dos cargos mais altos do judiciário francês, exerce muito bem seu papel diplomático quando alerta para a urgência das ações. Uma batalha que vem ganhando corpo, sobretudo nesse período já chamado de “pós-pandemia”. Para a ONU, começa agora a “Década da Restauração”. Para o World Economic Fórum, entraremos no período do “Grande Reinício”.

Fabius, assim como todos os executivos que refletem sobre um dos dois grandes desafios da humanidade atual (o outro é a desigualdade social que só faz aumentar), fala de um lugar distante do chão. Pisam sobre carpetes, defendem-se da temperatura quente ou fria com aparelhos, alimentam-se com comidas prontas, muitas vezes às pressas, como requer a vida de quem vive, praticamente, num mundo 24/7. E isso não é um julgamento de minha parte. Isso é assim, pronto.

Longe, muito longe dos escritórios aclimatados onde as decisões geopolíticas são tomadas, no chão, sob sol ou chuva, colhendo os alimentos na terra, há motivos para se acreditar que é possível.

 Aqui vai só um exemplo: distante da geopolítica e exercendo, na prática, a solidariedade que Laurent Fabius menciona ao falar sobre as nações, mulheres da etnia Yarang, no Xingu, saem de suas ocas diariamente, andando juntinho como formigas, descalças, para catar sementes. E vão felizes.  Elas participam de um projeto que tem por objetivo plantar 1 milhão de árvores em 27 milhões de Áreas de Preservação contínuas. Trata-se  da maior rede de sementes nativas no Brasil. E é uma prova de que há outras soluções possíveis para manter a floresta em pé, cuidar de nossos sumidouros de CO2.

Falo sobre a Rede de Sementes Xingu, projeto de geração de renda orquestrado pelo Instituto Socioambiental (ISA) na Amazônia. Carinhosamente a chamam de Muvuca de Sementes. O ISA é uma Oscip, tem 148 parceiros e atua com 24 povos indígenas em três biomas há mais de duas décadas. Rodrigo Junqueira, engenheiro agrônomo do ISA e um dos idealizadores da Rede, foi o último convidado a participar da Conferência Amazônia, evento online organizado pelo Itaú que terminou no dia 9 de dezembro.

Rodrigo mostrou um vídeo onde se vê a cena que descrevi acima, protagonizada pelas mulheres da etnia Yarang. Elas próprias se dão o nome de formigas cortadeiras, e já ajudaram o projeto a plantar 3,2 toneladas de sementes nos dez anos de existência da Rede de Sementes.

O mais interessante é que o projeto une as pontas da cadeia e faz dar certo um dos maiores desafios para se conseguir, verdadeiramente, capturar carbono da atmosfera. Simplesmente plantando árvores. Em vez de derrubá-las.

Representando o Grupo Agropecuário Fazenda Brasil, portanto a outra ponta da cadeia, Artemizia Moita foi convidada a dar seu depoimento no vídeo.  O grupo de Artemizia tinha um passivo ambiental: 800 hectares de áreas a serem recuperadas. Tentaram fazer a plantação com mudas, mas é um processo muito complicado, delicado, exige um acompanhamento constante. Depois do contato com o ISA, compraram as sementes da Rede e já têm 500 hectares completamente recuperados, com cerca de cinco mil árvores por hectare.

Quem quiser saber mais detalhes sobre a Rede de Sementes do Xingu pode acessar aqui:  https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-xingu/muvuca-que-vira-floresta. É um convite, também, para se refletir um outro mundo possível.

Preparando a muvuca de sementes. Foto de Tui Anandi/ISA. Em Canarana

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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