Relatório mostra que máscaras descartáveis vão aumentar o lixo plástico no mundo

Estamos vivendo tempos bem complexos. O trabalho em casa, a falta de liberdade nas ruas, a necessidade de usar máscaras, de higienizar as mãos todo o tempo, de cuidar para não entrar em lugares aglomerados. São novos hábitos que precisam ser incorporados à rotina, e nem sempre é fácil.

Nesse lufa lufa, é normal que se procure o mais prático. No caso das máscaras, as descartáveis são a melhor opção, sobretudo para quem tem crianças. Mas… se você, caro(a) leitor(a), é uma pessoa que se incomoda com a quantidade de lixo que o mundo está produzindo além de sua capacidade, essa notícia vai lhe interessar:

Recém lançado, um relatório preparado pela Fundação Heinrich Böll,  chamado “Atlas do plástico” (aqui na íntegra: file:///C:/Users/Amelia/Downloads/Atlas%20do%20Pl%C3%A1stico%20-%20Funda%C3%A7%C3%A3o%20Heinrich%20B%C3%B6ll%20Brasil.pdf) , mostra que “Se todas as pessoas utilizarem máscaras faciais descartáveis, necessitaríamos, de acordo com estudos, de consumir 129 bilhões de máscaras faciais por mês para atender toda a população mundial. No Brasil, o consumo mensal de máscaras seria de 3,5 bilhões por mês. Levando em conta que cada máscara descartável pesa por volta de três gramas, isto levaria a uma dispersão de mais de 387 mil toneladas de plástico, o equivalente ao peso de 338 estátuas do Cristo Redentor por mês! Só no Brasil, seriam 10,5 mil toneladas de plástico, o equivalente ao peso de nove estátuas do Cristo Redentor”.

É claro que há soluções. As máscaras de pano são as que mais se adequam à ocasião. A situação é bem parecida com as fraldas de pano versus fraldas descartáveis. Não há mais condições de se convencer uma jovem mãe que trabalha fora, a gastar parte dos seus dias de licença maternidade em tanques cheios de fraldas, certo? Pois é. Mas as fraldas descartáveis que facilitam tanto a vida, quando não são devidamente descartadas, aumentam e muito o lixo plástico no mundo.

O mesmo vai acontecer com as máscaras. E, pelo que se tem observado no cenário global, certamente será um acessório que vai nos acompanhar por muito tempo ainda, infelizmente. De cepas em cepas de vírus.

Vale a pena destrinchar um pouco mais sobre o relatório da Fundação Böll, já que pode ajudar a tomar uma decisão a favor das máscaras de pano (na comparação com as fraldas, as máscaras ganham e muito, já que são muito mais fáceis de lavar).

Para começar, a informação de que os países que mais produzem lixo plástico, segundo o Atlas, são: em primeiro lugar, os Estados Unidos, com aproximadamente 70,782 milhões de toneladas ao ano; depois a China, com 54,740; em terceiro lugar a Índia, com 19,311 milhões. O quarto lugar, com 11,3 milhões de toneladas de plástico produzidas ao ano é do Brasil, que recicla apenas 1,28% de seu lixo. Nesse total ainda não estão contabilizadas as máscaras.

Elenquei alguns pontos do Atlas que reproduzo aqui, como informações importantes:

. Nos oceanos, o plástico vira micro plástico, que vai para a barriga dos peixes que consumimos;

. Se não mudarmos o jeito de produzir e consumir, a expectativa, segundo os pesquisadores, é adicionar 40% a mais de plástico no comércio até 2025;

. Entre 1950 e 2017 foram produzidas 92 bilhões de toneladas de plástico em todo o mundo. Desse total, menos de 10% foram reciclados;

. Nossa maior preocupação tem sido com a poluição que o plástico está causando nos oceanos, mas a poluição plástica do solo pode ser entre quatro e 23 vezes maior. A agricultura usa 6,5 milhões de toneladas de plástico em todo o mundo;

. Os quatro países mais exportadores de plástico são Estados Unidos, Japão, Alemanha e Reino Unidos.

Os pesquisadores da Fundação Böll traçaram a história do plástico, e é possível descobrir como as embalagens são as grandes vilãs do lixo plástico que se deixa no planeta.  E isso também aumentou em tempos de Covid, quando, em casa, fomos cada vez ficando mais dependentes de produtos que nos chegam pelo sistema delivery. Eles perceberam, também, como não podia deixar de ser, um aumento no consumo de plásticos de curta duração nesse período.

“Entre janeiro e maio deste ano houve um aumento de quase 95% no gasto com aplicativos de entrega comparado a 2019, de acordo com a startup de finanças Mobilis. Se, antes da pandemia, pouco mais de um terço do consumo de plásticos era daqueles com até um ano de vida útil, como embalagens plásticas, estima-se que este percentual aumentará significativamente”, diz o relatório.

Têm razão aqueles que se queixam de que muitas empresas continuam fazendo tudo como antes, produzindo as mesmas quantidades de plástico, e que acaba sobre os ombros dos cidadãos comuns a mudança necessária. Têm razão também, no entanto, aqueles que perceberam que não dá mais para manter os mesmos hábitos como se nada estivesse acontecendo ao nosso redor.

Vai ser preciso um grande esforço de mudança. A pandemia, o isolamento, nosso medo da morte, convidam a, finalmente, fazer contato com essa necessidade. A boa notícia é que, em grande medida, essa mudança depende de nós.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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Uma resposta para Relatório mostra que máscaras descartáveis vão aumentar o lixo plástico no mundo

  1. Sandra disse:

    Fraldas, máscaras, seringas, agulhas, garrafas Pet, vidro, pneus, latas de alumínio, isopor e metal. O “inofensivo” chiclete que o guri mastiga e cospe fora, vai ficar por aí por cinco anos. É pouco, se comparado ao vidro que sobreviverá por dez mil anos (!) após ser displicentemente descartado. Depois a gente reclama que a Casa Planetária está a porcaria que está. Pudera, coitada.
    https://varievo.com/quanto-tempo-alguns-materiais-levam-pra-se-decompor/

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