Relatório da Oxfam alerta sobre o vírus da desigualdade: ricos ficam mais ricos e pobres ficam mais pobres

Quando não tira vidas, quando não deixa sequelas incômodas em todos que contraem a Covid-19, o vírus Corona, atualmente atuando em todo o globo, também consegue trazer uma inusitada situação:  os mais ricos viram sua riqueza aumentar em meio trilhão de dólares (alguém consegue imaginar isso?) desde o início da pandemia. E os mais pobres, aqueles que só ganham dinheiro com a força do seu trabalho, estão enfrentando a pior crise de desemprego em mais de 90 anos. São centenas de milhões de pessoas subempregadas ou desempregadas.

Terminou há pouco a coletiva de imprensa do World Economic Fórum (WEF), que está acontecendo desde 21 de janeiro na cidade suíça de Davos, em que a ONG Oxfam tradicionalmente apresenta seu Relatório anual sobre Desigualdade no mundo. Dessa vez o Relatório se chama “O vírus da desigualdade”.  A coletiva foi virtual, como todas as outras conferências do Fórum, justamente porque não foi possível, num ambiente pandêmico, criar tantos deslocamentos mundo afora para levar os painelistas à Suíça.

Um fato surpreendente foi o tempo dado aos painelistas que discutiram a desigualdade com base no relatório da Oxfam: muito curto. Tanto que foi visível a surpresa da colombiana Gabriela Bucher, diretora executiva da organização, quando a mediadora anunciou o encerramento da apresentação. Gabriela foi contundente ao anunciar uma prévia do relatório, que pode ser lido no site da Organização (www.oxfam.org.br):

“Assistimos ao maior aumento da desigualdade desde o início dos registros. A profunda divisão entre ricos e pobres está se mostrando tão mortal quanto o vírus”, disse ela.

Fato é que, segundo o relatório, o choque da Covid-19 foi desigual em seu impacto nas sociedades, mas foi sentido em todos os países do planeta ao mesmo tempo.  É provável que a Covid-19 aumente a desigualdade em praticamente todos os países do planeta simultaneamente. E esta será a primeira vez que isso acontecerá desde o início dos registros de desigualdade, há mais de um século.

Mas a Oxfam avisa: a pandemia já pegou um mundo extremamente desigual, onde um pequeno grupo de dois mil bilionários tinham mais riqueza do que poderiam gastar em mil vidas.

“Um mundo onde quase metade da humanidade foi forçada a sobreviver com menos de US $ 5,50 por dia, onde, pode quarenta anos, o 1% mais rico ganhava mais do que o dobro da renda da metade inferior da população global, onde o 1% mais rico consumiu duas vezes mais carbono do que os 50% mais pobres para o último quarto de século, levando à destruição do clima”, diz o relatório.

O número total de bilionários quase dobrou dez anos após a crise financeira de 2008 e, entre 2017-2018, um novo bilionário foi criado a cada dois dias. Neste cenário, as pessoas mais pobres não tinham nenhum recurso ou apoio para enfrentar a tempestade econômica e social que se instalou. Mais de três bilhões não tinham acesso à saúde; três quartos dos trabalhadores não tinham acesso a políticas de proteção social e, em países de renda baixa e média-baixa, mais da metade dos trabalhadores sobrevivia com trabalhos precários.

Nos primeiros seis meses de pandemia, no entanto, houve sim um revés para os mais ricos. Mas isso durou pouco. Em nove meses, segundo ainda o relatório da Oxfam, os mil maiores bilionários ganharam de volta o que haviam perdido porque os governos deram apoio ao mercado de ações.

O resultado foi que, em todo o mundo, a riqueza dos bilionários aumentou em impressionantes US$3,9 trilhões entre 18 de março e 31 de dezembro de 2020. Sua riqueza total agora é de US$ 11,95 trilhões.

“Os dez bilionários mais ricos do mundo viram sua riqueza aumentar coletivamente em US$540 bilhões durante este período. Mukesh Ambani, o homem mais rico da Índia, dono da empresa Reliance Industries, especializada em petróleo, varejo e telecomunicações, mais que dobrou sua riqueza entre março e outubro de 2020, fazendo-o ocupar a 6ª posição de pessoa mais rica do mundo, quando anteriormente ocupava a 21ª posição”, exemplifica o relatório.

Ao mesmo tempo, a pandemia começou a fazer estragos na vida dos mais pobres: centenas de milhões perderam seus empregos e enfrentam miséria e fome.

“Esse choque deve reverter o declínio da pobreza global que testemunhamos nas últimas duas décadas. Estima-se que o total de pessoas que vivem na pobreza pode ter aumentado entre 200 milhões e 500 milhões em 2020. O número de pessoas que vivem na pobreza pode não voltar ao nível anterior à crise por mais de uma década”, diz o relatório.

A Oxfam considera cedo ainda para se falar em aumento significativo da desigualdade, mas para aprontar o relatório a tempo de ser divulgado no Forum Econômico Mundial, como é de praxe, os pesquisadores da organização fizeram uma entrevista com 295 economistas de 79 países. Suas respostas puderam conduzir algumas reflexões: 87% dos entrevistados acreditam que a desigualdade de renda em seu país aumentará fortemente como resultado da pandemia, percepção de economistas de 77 dos 79 países participantes.

Mais da metade dos entrevistados também acredita que a desigualdade de gênero irá subir, e acima de dois terços pensam o mesmo para a desigualdade racial. Um exemplo dessa desigualdade entre raças vem dos Estados Unidos onde, segundo o relatório, enquanto as taxas de pobreza entre os brancos devem aumentar em 4,2 pontos percentuais devido à pandemia, os negros enfrentarão um aumento de 12,6 pontos percentuais e os latino-americanos um aumento de 9,4 pontos percentuais.

Dois terços dos entrevistados também avaliam que seus governos não têm um plano em vigor para combater a desigualdade.

Fato é que o vírus mexeu com a vida de todos, mas não de forma igual. Haverá aumento de desigualdade, e vai depender das escolhas feitas pelos governos do mundo todo se ela será muito extensa e com que velocidade isso se dará. A pandemia afetou muito mais os pobres do que os ricos, isto também é fato notório, e muito mais mulheres e negros do que os brancos. Aqui no Brasil, por exemplo, a população negra tem 40% mais chance de morrer pelo vírus do que os brancos.

Como sempre faz nos relatórios sobre a desigualdade social que apresenta anualmente, a Oxfam dá sugestões para os governos. Dessa vez, a organização não está sozinha: tem muita gente preocupada com o nível de desigualdade que o mundo pode atingir. Kristalina Georgieva, a diretora-geral do FMI, disse que “o impacto será profundo […] com a desigualdade crescente levando a agitações econômicas e sociais: uma geração perdida nos anos 2020 cujos efeitos serão sentidos nas décadas por vir”. Antônio Guterres, secretário-geral da ONU, afirmou: “Estamos todos flutuando no mesmo mar, mas é evidente que alguns estão em super iates, enquanto outros se agarram aos escombros à deriva.”

E por que se preocupar com a desigualdade num momento em que a crise é sanitária, de saúde? Porque não é só a doença que mata, mas também a injustiça social:

“A pandemia expôs os piores efeitos dos sistemas públicos de saúde cronicamente negligenciados, especialmente para pessoas que vivem na pobreza e comunidades marginalizadas”, conforme mostra o relatório da Oxfam.

É importante lembrar que a reunião do Fórum Econômico de Davos, este ano, tem um título bastante carregado de simbologia: “O Grande Reinício”. Se a turma que está lá, líderes empresariais e chefes de estado, realmente quiser levar a sério essa proposta, já tem por onde começar. Até porque, mesmo com a vacina, se não houver um olhar cuidadoso para a desigualdade, haverá um risco de que imunizantes eficazes sejam monopolizados por países e indivíduos ricos e poderosos. Um pequeno grupo de nações ricas, representando apenas 14% da população mundial, já comprou mais da metade do suprimento dos principais produtores da vacina. As farmacêuticas já obtiveram enormes lucros durante a pandemia e provavelmente serão as que mais ganharão com as vacinas eficazes, a menos que seja introduzido um limite de preço.

Vale a pena ler o relatório. E refletir.

Foto por Guduru Ajay bhargav em Pexels.com. Homem pobre na Índia

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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