Câmara dos Deputados pode decidir por Acordo que torna mais barato o custo do ar-condicionado

Kigali é a capital de Ruanda, pequeno país africano com cerca de 12 milhões de habitantes, sem costa marítima.  No relatório 2020 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Ruanda ganhou uma classificação de baixo desenvolvimento humano – ficou em 160º lugar.  A nação teve um importante papel na epidemia, contendo o vírus com ações severas de isolamento social desde o início.

Em 2016, Kigali foi sede de uma reunião, convocada pela ONU, que resultou no compromisso, assinado por 193 países, de reduzir o uso do gás hidrofluorcarbonetos (HFC), que causa mais danos à atmosfera do que o CO2. Assinado em outubro de 2016, o tratado passou a se chamar Acordo de Kigali, e propõe que o emprego de HFC, usado como fluido em equipamentos como geladeiras, freezers e aparelhos de ar-condicionado, seja reduzido entre 80% e 85% até meados do século.

Acordo feito, acordo apenas cumprido parcialmente, como sói acontecer nas questões climáticas. Até 2019, ou seja, três anos depois de terem firmado o compromisso, somente os países desenvolvidos tinham tomado providências para diminuir o uso de HFC. Com a entrada do negacionista Donald Trump em cena, até mesmo Estados Unidos, que chegou a assinar o Acordo de Kigali, não se movimentou neste sentido.

Mas, aparentemente, as coisas estão começando a mudar. Quando tomou posse, o novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, assumiu, no discurso oficial, o compromisso de pôr seu país novamente à mesa das negociações para conter o aquecimento. E conclamou a parceria com outros países que tentam reverter as mudanças do clima para não se chegar ao fim do século com um aquecimento maior do que 1.5 a 2 graus.

Uma das primeiras providências de Biden foi colocar os Estados Unidos novamente no Acordo de Paris, conseguido a duras penas em 2015 justamente com esse objetivo. E um pouco depois, no dia 21 de janeiro, Biden deu ordens para que sua equipe recupere o papel dos Estados Unidos no Acordo de Kigali, até agora ratificado por 112 nações.

Nos países que já ratificaram o compromisso de Kigali – como Japão, Coreia do Sul, União Europeia, Austrália, Canadá, Reino Unido – estão algumas sedes das maiores empresas de refrigeração do planeta. Há também parceiros comerciais do Brasil entre os signatários, como Chile, Uruguai e Paraguai.

 Para adicionar uma informação, aqui faço um parêntese: o primeiro país que assinou a ratificação do Acordo de Kigali foi Marshall, uma das nações-ilha do Pacífico. Trata-se do lugar mais ameaçado do planeta pelos eventos extremos causados pelas mudanças climáticas.  Seus 62 mil habitantes já tiveram que conviver com o terror das bombas nucleares norte-americanas, pois os Estados Unidos fizeram do local uma espécie de laboratório para testar suas armas nucleares. Hoje os marshalleses ainda não estão livres desse pesadelo, já que há riscos de vazamento radioativo com a subida do nível do mar. E seu território pode desaparecer do Pacífico se a pequena faixa de terra que habitam for cada vez mais submersa pelo mar. Fecha o parêntese.

É óbvio que a atitude de Joe Biden, trazendo o resgate da agenda de mudanças climáticas no debate internacional, está sendo comemorada. Com a volta da nação mais poderosa às negociações, será possível a países como as Ilhas Marshall sonharem com subsídios para poderem enfrentar seu maior inimigo atual, a elevação do nível do mar. E o Acordo de Kigali está intrinsecamente ligado a essa questão.

Na esteira do resgate de Joe Biden, outros chefes de estado podem estar se mexendo para voltar a dar importância às negociações climáticas. É dessa forma que está voltando à cena o Acordo de Kigali, que aqui no Brasil está há um ano na pasta de projetos a serem analisados pelos deputados em Brasília.

Está nas mãos do presidente da Câmara, deputado Artur Lira, portanto, botar em votação a ratificação do Acordo de Kigali. Entre outras coisas, isso poderá liberar US$ 100 milhões – parte dos recursos do Fundo Multilateral para Implementação do Protocolo de Montreal para o período de 2021-2023 – destinados à adaptação de processos produtivos em favor de sistemas de refrigeração com uso reduzido de gases HFCs.  Esse dinheiro, que será tomado como empréstimo a fundo perdido, pode ser utilizado pela indústria para adaptar os aparelhos de ar-condicionado, o que também contribuirá para reduzir o consumo de energia. Um esquema win-win.

A nova tecnologia já está sendo usada na China, Estados Unidos e Inglaterra. Se ratificado o Acordo pelo Brasil, e se a indústria brasileira tiver acesso a esse dinheiro, é possível que o país possa dar alguns passos em direção a uma sinalização positiva aos investidores sobre seu compromisso com a economia de baixo carbono. Vamos combinar que estamos precisando disso.

Um detalhe também relevante: segundo um estudo feito pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS), em cooperação técnica com o Lawrence Berkeley National Laboratory (LBNL), aparelhos de ar condicionado mais eficientes produziriam um impacto de R$ 57 bilhões na economia nacional até 2035. Desse total, R$ 30 bilhões deixariam de ser gastos pelo governo na geração de energia elétrica. Outros R$ 27 bilhões seriam economizados pelos consumidores na conta de luz.

A ratificação da Emenda de Kigali – um acréscimo ao Protocolo de Montreal – já passou por todas as comissões da Câmara dos Deputados. Fica a torcida para que o  presidente da Casa perceba a importância do gesto. Que, como é obvio, não poderá vir sozinho. É preciso que o Brasil volte a ser protagonista na história do clima, como já foi.

Para conscientizar a população algumas entidades formaram a Rede Kigali, que lançou a campanha “Se liga na conta do ar-condicionado: bom para o seu bolso, bom para o planeta”.

Uma vista de Kigali, cidade sede do Acordo feito em 2016

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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