Um banho de saúde em tempos de amargura

Há quem sonhe com uma viagem sem volta a Marte. Sensibilizados pelas recentes fotos que mostram o planeta bem pertinho de nós, muitos criaram essa válvula de escape. Abandonar o planeta Terra, atualmente tão inóspito aos humanos, e ir para muito longe em busca de sossego, paz. Talvez, não se sabe, lá cometêssemos os mesmos erros. Carregaríamos nos ombros a mesma postura superior, que nos credita o equivocado direito de invadir bens comuns da natureza ao redor, surrupiá-los, sem deixar nada em volta, só devastação.

Pois eu, já penso diferente. Ando cabisbaixa como todo mundo, com os ombros pesados, sentindo nas células de meu corpo o horror de viver num tempo de pandemia, miséria, desacertos intensos. Um tempo em que, como diz o historiador Yuval Noah Harari, nós humanos tivemos condições de mostrar total sabedoria e sucesso no campo científico e absoluto fracasso no campo político, humanitário. Mas, embora com as perspectivas aparecendo para mim como luzes distantes numa estrada escura, não sonho com outro planeta. Meu lugar é aqui.

Minha válvula de escape está ao redor, nas plantas e nos bichos. Há tempos eu vi, no documentário “Para onde foram as andorinhas”, com roteiro de Paulo Junqueira, do Instituto Socioambiental (ISA) (https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/premiado-curta-lancado-para-internet-alerta-para-mudancas-climaticas-no-xingu) , que os indígenas do Xingu costumam aferir se vai chover pelo canto das cigarras. Para mim, cantam os bem-te-vis quando querem me dizer que o calorão vai desabar em águas dos céus.

É dessa forma, caminhando e olhando para cima, para os lados, fazendo contato com pássaros e plantas, que vou tamponando minhas tristezas (ouvi isso hoje, de uma amiga, gostei e estou repetindo). Mas não sigo só. Convido – obviamente não no sentido literal, mas virtual do termo – alguns autores a caminhar comigo. Ultimamente o italiano Stefano Mancuso, da obra “Revolução das Plantas” (pode ser lido aqui em PDF: file:///C:/Users/Amelia/Downloads/Revolucao_das_plantas_um_novo_modelo_par.pdf) virou meu livro de cabeceira. O cientista Mancuso detalha nele experiências feitas com plantas que levaram os pesquisadores a concluir que elas apresentam comportamentos interessantes, estão bem mais perto da cognição animal do que supomos, ainda que sem cérebro.

Eis um pensamento que me acolhe, distrai.

O livro não sugere que as plantas sejam sencientes, ou seja, elas não sentem dor, o que exime de culpa os vegetarianos. As pesquisas levam, principalmente, ao entendimento de que as plantas têm memória. É delicioso o relato do estudo que chegou a essa conclusão, encabeçado pelo biólogo Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, cavaleiro de Lamarck, no século XIX.

Monet se interessou em desvendar o mistério do mecanismo de fechamento das folhinhas da Mimosa pudica, folhinha que muitos conhecem pelo nome de Dormideira. Ela fecha delicadamente as folhas quando é submetida a algum estímulo externo, por exemplo, se forem tocadas.  Outros estudiosos já haviam atinado para o fenômeno, tentaram desvendá-lo, e é preciso dizer que até hoje continua sendo um mistério.

Mas Lamarck observou um detalhe que mudou o rumo dos estudos e agregou uma informação que interessa muito a Mancuso e a todos nós, amantes das plantas e do planeta Terra.

  É que, depois de algum tempo sendo estimulada e se fechando, a planta para de responder. No início o cientista interpretou assim: é cansaço. Depois de muitas vezes, no entanto, em que o fenômeno foi repetido pela plantinha (que se fechava a cada estímulo), a dormideira não teria mais energia para fazer isso.  Só que, em algumas situações, Lamarck observou que a planta parava de responder mesmo antes de ficar cansada.

Daqui por diante, quem vai contar a história para vocês é o próprio Mancuso:

“O botânico francês elaborou um experimento inédito. Pediu a um de seus alunos que transportasse muitas plantas em uma carruagem para um agradável passeio por Paris e, escrupulosamente, verificasse o comportamento delas. Ele deveria, sobretudo, observar com atenção quando elas fechassem as folhas. O estudante, cujo nome não sabemos, evidentemente acostumado aos pedidos extravagantes de seu mestre, não titubeou. Colocou nos assentos de um cupê vários vasos de Mimosa pudica e ordenou ao condutor que desse uma volta pelos lugares mais interessantes da cidade, com um trote moderado e, se possível, ininterrupto. No entanto, enquanto continuavam passeando, algo inesperado aconteceu. Primeiro uma, depois duas, depois outras cinco, finalmente todas as mudas começaram a abrir as folhas, apesar de as vibrações da carruagem terem continuado com igual intensidade. Foi um fato interessante. O que estava acontecendo? O aluno desconhecido teve um estalo e anotou no caderno: as plantas estavam se acostumando”.

Conclusão: as plantas têm uma forma especial de memória, sem cérebro.

Este é somente um exemplo, que ocupa algumas das quase cem páginas do livro de Mancuso. Ele também discorre sobre a capacidade de as plantas se mimetizarem com outras, o que venho observando aqui na minha janela. Pode ser que eu esteja sendo influenciada pela leitura de Mancuso, mas ando percebendo que as folhas da minha lavanda estão parecidíssimas com as folhas do meu alecrim… Tirei foto para vocês servirem de testemunhas.

E assim consegui escapar um pouco de nosso presente comum e angustiante, sem precisar usar foguetes. Fazer contato com o mundo ao redor, com a natureza que nos cerca, ao contrário de servir como fuga, é uma incursão em saúde. E vale a pena.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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