Ser solidário

Pensador de muitos quilates, reconhecido como o maior  geógrafo brasileiro, Milton Santos morreu em 2001 deixando dezenas de publicações, a maioria com um forte tom crítico ao sistema econômico vigente. Em “Por uma nova globalização”, publicado um ano antes de sua morte, ele vai além. Critica a falta de compaixão, critica a competitividade, sente falta da palavra solidariedade. E responsabiliza um sistema que se fortalece com o acúmulo e privilegia a competitividade pelo estado atual das coisas.

 “Nos últimos cinco séculos de desenvolvimento e expansão geográfica do capitalismo, a concorrência se estabelece como regra. Agora, a competitividade toma o lugar da competição. A concorrência atual não é mais a velha concorrência, sobretudo porque chega eliminando toda forma de compaixão… Comportamentos que justificam todo desrespeito às pessoas são, afinal, uma das bases da sociabilidade atual”, escreveu ele.

Na entrevista que concedeu aqui para o blog no mês passado, o pensador Noam Chomsky, um dos mais lúcidos da atualidade, foi claro quando se referiu à necessidade de as nações serem solidárias num momento como o que estamos passando:

“Somente através de uma solidariedade internacional podemos pensar em ter alguma esperança de superar as crises que nos confrontam hoje e, assim, poderemos nos mover para um futuro melhor”, disse ele.

Não há como escrutinar qualquer coisa boa nesse vírus que decidiu assolar o planeta e nos afundar numa pandemia. Mas, sim! Há a solidariedade. Eis que este sentimento começa a dar sinais, aqui e ali, nesse ou naquele grupo.

Vale um parênteses, para que vocês não me julguem alheia ao que está acontecendo. Há, e não são poucos, aqueles que trilham o caminho contrário da solidariedade, sobretudo no campo das vacinas. Sabe-se que está faltando vacina no mundo, mas que os países ricos estão tendo atitudes egoístas, comprando o máximo sem olhar para o lado, sem ajudar as nações pobres.

 Mas, hoje, aqui neste espaço, vamos focar no positivo para liberar boas energias.

Há um alento no ar que chega sob forma de cuidados. E esses cuidados, que também precisam ser consigo, andam se estendendo de humanos para humanos. O subtítulo do livro de Milton Santos parece dar o tom certo ao que anda ressurgindo: “Do pensamento único à consciência universal”. Reparem, por favor, que não estou entrando no aspecto político, cuja atmosfera está tão cheia de fuligem que não dá para acessar sem nos deixar com um muxoxo de impotência. O que se pode fazer, afinal?

Em entrevista recente, o Padre Júlio Lancellotti deu uma receita clara, que ando seguindo: “Não discrimine ninguém, sobretudo as pessoas que estão morando nas ruas. E, sempre que possível, ajude. Com uma garrafa de água, com roupas, com um pouco de dinheiro. Ajude”.

 É por ser solidário com o drama daqueles que não têm o que comer, por exemplo, que Jorge Luiz Fernando dos Santos, o rapper Shackal, criou a campanha “Tropa contra a Fome”, um financiamento coletivo para distribuir quentinhas e kits com itens de prevenção ao Covid. Mesmo antes de ter o financiamento, Shackal já distribuiu cinco mil quentinhas na cidade. Anteontem, o rapper foi ao Centro, e se abalou de verdade com a situação das pessoas:

“Vi pessoas numa fila, às 7h da manhã, esperando o ticket para não perder o almoço. Não tem nem mais café da manhã. Pessoas olhando para o nada, sem dignidade. É crueldade, igualzinho aconteceu na Guerra Fria: o mesmo que botar um monte de gente numa cela de gás. Eles continuam matando as mesmas pessoas, só que de uma outra forma. Falar de amor agora é dar comida para essas pessoas. O método da Tropa é este: tentar levar comida o mais urgente possível. Para que aquelas pessoas consigam fazer uma revolução interna, de fora para dentro. A revolução é estar digno, bem, saudável. E voltar a ser humano”, disse Shackal.

O rapper Shackal: “Eles continuam matando as mesmas pessoas, só que de uma outra forma”.
Foto: Divulgação: Tropa da Solidariedade

Se quiser ajudar a Tropa, acesse aqui: https://www.tropadasolidariedade.com/.

No site de notícias G1, leio uma reportagem que conta histórias lindas, de pessoas que saem de barco, pelo Brasil recôndito, levando livros e contando histórias para as crianças que moram à beira dos rios e estão sem escola. Há também uma ONG que está arrecadando tablets e computadores para as crianças que necessitam, em São Paulo. É bom lembrar que, no Brasil, um em cada quatro cidadãos não tem acesso à internet, por isso não é garantido resultado do ensino à distância. Acesse aqui a reportagem e, se for possível, ajude: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2021/03/23/na-pandemia-projetos-sociais-levam-material-escolar-cestas-basicas-e-computadores-para-alunos.ghtml.

Grandes corporações também estão se mexendo. Mas, no macro cenário, há menos ações do que necessário, como lembra Boaventura de Sousa Santos em seu livro “O Futuro começa agora”:

“Ao longo dos últimos quarenta anos, o neoliberalismo […] promoveu com tal intensidade a ideologia do individualismo que ela voltou a ser o senso comum das elites, tal como no século XIX”. 

Mas, de novo, voltemos nosso olhar para o que pode dar certo. Assim será.

Há muitas campanhas encabeçadas por grandes corporações. Instituto Ethos, organização que aglutina empresas que têm o objetivo de seguir uma linha socialmente responsável, a ONG Oxfam – que se articula pela igualdade social – a Redes da Maré e outras lançaram uma campanha também de ajuda aos desvalidos. Quem quiser e puder ajudar, é só acessar aqui (https://doe.oxfam.org.br/umpaismaisjusto/single_step) .

Já estava finalizando este texto quando recebi uma mensagem com a história de Priscila da Silva Olegário, 34 anos, moradora do Morro de São Carlos. Priscila conta sua história no vídeo, uma história de privações, semelhante à de tantos outros cidadãos, brasileiros e não brasileiros. Mas Priscila tem um diferencial: um sorrisão no rosto, enorme, de felicidade por estar recebendo uma desta básica, doação do pessoal do Circo Crescer & Viver. Desde o início da pandemia, essas pessoas vêm arrecadando alimentos, roupas, tudo o mais necessário para quem está precisando.

“Mas agora, eles, do Circo, estão precisando de ajuda, da sua ajuda”, diz a atriz Malu Mader no vídeo que pode ser acessado aqui: https://benfeitoria.com/nossoterritorioprotegido?ref=benfeitoria-home.

Não há muito mais o que fazer, senão gestos solidários. Que seja.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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