‘Ninguém estará salvo até que todos estejam salvos’

Hoje tomei a primeira de duas doses da vacina contra o vírus Corona, nosso atual inimigo mais letal. A vacina que os funcionários do Sistema Único de Saúde (SUS) aplicaram no meu braço direito (não pode ser no esquerdo, fui alertada) foi desenvolvida pela empresa Sinovac Biotech, uma fornecedora mundial de vacinas contra influenza, hepatites A e B, caxumba e H1N1, conforme dados da pesquisa que fiz pela internet.

 Ela é também chamada de Coronavac, e já até recebeu outros apelidos pouco nobres por parte daqueles que ideologizaram e politizaram o drama que estamos vivendo. A Coronavac vem da China, mas é distribuída por  um conglomerado de empresas privadas que negociam com os países e lucram – muito, como se pode imaginar – com sua distribuição.

Fato é que, sim, estou um pouco mais aliviada. Fato, também, é que considerei minha vacinação como um ato cívico de solidariedade. Por mais que quem quer que seja julgue que pode se livrar de ficar doente porque leva uma vida saudável, não dá, simplesmente não dá, para esquecer que se vive em uma comunidade. E que é preciso que muitos se vacinem para criar uma barreira ao vírus.

“Ninguém estará salvo até que todos estejam salvos”. A frase, dita pela cientista Mariângela Simão durante a Conferência de Imprensa da OMS em março deste ano, resume nossa responsabilidade na era pandêmica.

No caminho até o posto onde eu tomaria a vacina, lembrei-me de entrar num supermercado para comprar alimentos. Há uma campanha, idealizada pela Prefeitura do Rio, que incentiva a doação de alimentos não perecíveis na hora da vacinação. Decidi apoiar.

Quase R$ 10 o quilo de fejão e quase R$ 6 o quilo do arroz: quem pode com isto?

Um quilo de arroz e um quilo de feijão no supermercado que fica em frente ao Museu da República, no Catete, Zona Sul do Rio de Janeiro, outrora um bairro nobre, hoje já não tão nobre assim, custam, no total, R$ 15,68. Talvez eu devesse grifar este valor. Vou especificar, para ficar mais claro: UM quilo de feijão custa R$ 9,88 e UM quilo de arroz custa R$ 6,99. Não é pouca coisa, gente. Sobretudo considerando a taxa de desemprego, que já atinge cerca de 13,5 milhões de pessoas no país.

Com os produtos em mãos, segui para o posto. Meu caminho foi interrompido por uma jovem com uma criança no colo. Vestida de maneira asseada, a moça tinha uma cicatriz no nariz e os cabelos recém-lavados. A criança usava um macacãozinho amarelo. Nada destoava, a miséria não era exposta. Jovem e bebê tinham as insígnias que as permitiam estar circulando entre os demais cidadãos sem perturbar a ordem.

— Moça, estou com fome, pode pagar uma comida para mim?

Não sei quantas vezes ouço essa frase ultimamente, nas raras vezes em que preciso me afastar de casa. Dói na alma. Causa indignação, é insuportável. O Brasil, de novo no Mapa da Fome. O Brasil, de novo entre os países que expõem o descalabro de um sistema que permite que pessoas passem fome! E não é por falta de alimento: o Ministério da Agricultura comemorou, no mês passado, a safra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos: 15,4 milhões a mais do que na safra 2019/2020.

O problema, portanto, está na má distribuição desses alimentos.

Qual foi meu primeiro movimento naquela hora em que a moça chegou perto? Disse a ela que acabara de comprar um quilo de arroz e um quilo de feijão para doar. E fui quase inocente: sugeri que ela fosse ali no posto.  Certamente iriam dar-lhe, talvez, até mais do que o arroz e o feijão, quem sabe uma cesta básica inteira.

— Não, eles não dão assim fácil não. A senhora não pode me dar direto?

Os olhos da jovem estavam cravados na bolsa que abrigava os alimentos que eu comprara. E, é claro, percebi ali que não faria sentido algum burocratizar o processo. Direto da doadora à consumidora. Assim foi feito.

Lembrei-me da fala do padre Júlio Lancelotti que ouvi, dia desses, numa dessas inúmeras lives que hoje são nosso meio de comunicação: “Como ajudar? Doe qualquer coisa a quem esteja na rua, necessitado, a quem lhe peça. Qualquer coisa”. Felizmente a jovem não parecia estar sem teto. Perguntei-lhe ainda se ela teria onde cozinhar os dois produtos e ela confirmou-me. Terá gás? Disse-me que sim, eu acreditei. Pode ser que ela faça outro uso dos produtos, quem sabe até venda para ter algum dinheiro. Eu não me importo.  

Ando preocupada além da conta. A pandemia foi apenas a pá de cal jogada para avivar ainda mais a sensação, que já vinha acentuada, de que vai ser preciso uma boa reviravolta no país, no mundo. Mais atos solidários, mas de maior monta, para que possamos dar a volta por cima.

Meu desassossego só faz aumentar quando busco informações em publicações estrangeiras. A pandemia já está ocupando a segunda dobra da primeira página dos sites de grandes jornais da Europa. Isto quer dizer que já não é a notícia mais importante, pois tem baixado o número de mortos globalmente, felizmente. O Brasil hoje ocupa o segundo lugar, superado apenas pelos Estados Unidos, em número de mortes e infectados pelo vírus. Não que o resto do mundo já tenha se livrado, mas com certeza o caminho já está mais livre com a vacinação em massa, o isolamento social, as medidas de higiene.

Meu medo é que, com o avanço da vacinação, que deve servir para diminuir o insano avanço do vírus, a situação se cronifique. E que se passe a naturalizar a doença e suas sequelas, assim como, hoje, a gente já está naturalizando a miséria e a fome. Falo do Brasil e do mundo. Geopoliticamente, imaginem, quando a maioria estiver vacinada e longe da possibilidade de adoecer, quem estará do lado daqueles que forem se infectando, que não conseguiram ser vacinados. E mais: daqueles que, por má ventura, desenvolvam sequelas funestas e paralisantes da doença?

Não, isso não pode acontecer, e tenho certeza de que não vai acontecer. A sociedade, ou seja, nós, estamos frente a frente com um desafio monstruoso: o de sermos solidários e de olharmos para o lado com indignação, de apontarmos o dedo e não nos calarmos diante de um cenário de fome, doença, falta de educação e de saúde. A hora é esta: vamos virar o jogo e vamos sair bem.

Termino este texto com a reflexão instigante do filósofo Harry Frankfurt, professor da Universidade de Princeton, que escreveu “On Inequality”, um pequeno livro que se propõe a mostrar que estamos diante de “um sério desafio para as crenças políticas acalentadas, tanto na esquerda quanto na direita”. Frankfurt acha ofensivo tanto a riqueza excessiva quanto a pobreza e a miséria.

“Se nos dedicássemos a ter certeza de que todo mundo tem o suficiente, nós reduziríamos a desigualdade como um efeito colateral. Mas é essencial saber que a última meta de justiça é acabar com a pobreza, não com a desigualdade”.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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