Do amor aos pets ao bife sangrento: é a nossa era dos paradoxos*

Vamos imaginar, num exercício de ficção, qual será a imagem que a nossa era deixará para o futuro? Eu digo futuro mesmo, daqui a uns cem anos. E, é claro, contando com a possibilidade de a humanidade permanecer como espécie no planeta.

Os shih tzus Bidu e Fred correm soltos na grama. A foto é de 2005 e o flagrante foi conseguido por Nena

Algumas imagens me veem à mente, mas pensando sobre o paradoxo que nos rodeia, um retrato se destaca. Nele, um homem acaricia docemente seu cão com uma das mãos enquanto, com a outra, segura um garfo que o ajuda a levar à boca um naco sangrento de carne de boi.

Sem julgamento. O convite aqui é para a reflexão.

Alguns sites dão conta de que a pandemia fez crescer ainda mais o afeto dos brasileiros aos bichos de estimação.  Quem já tinha, passou a dar mais atenção, a pesquisar mais sobre seu comportamento, a tentar melhorar sua qualidade de vida. Atualmente, o Brasil tem a segunda maior população de cães, gatos e aves canoras e ornamentais em todo o mundo, e é o terceiro maior país em população total de animais de estimação. São 54,2 milhões de cães, 23,9 milhões de gatos, 19,1 milhões de peixes, 39,8 milhões de aves e mais 2,3 milhões de outros animais. O total é de 139,3 milhões de pets (dados do site da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação – Abinpet).

É possível que o primeiro lugar em número de pets fique com os Estados Unidos, que tem mais de 83 milhões só de cães. Em toda a Europa estima-se que haja 75 milhões de cães.

E adivinhem quem farejou esse crescimento como uma oportunidade e tanto para seguir à risca um dos mandamentos do capitalismo, acumular? O mercado, claro. O mercado pet já representa hoje 0,36% do PIB brasileiro, à frente dos setores de utilidades domésticas e automação industrial. Em 2018, a indústria de produtos para animais de estimação faturou R$ 20,3 bilhões. Em 2006, esse número era de R$ 3,3 bi. Num recentíssimo pronunciamento, o presidente Bolsonaro garantiu que, em 2020, o faturamento do setor passou para R$ 40 bilhões.

Há exageros, consumismo. E nem sempre é divertido, para o cão, ser vestido como gente, usar sapatos (eles PRECISAM pisar no chão, na grama, na terra) e ser medicado em excesso. Roupinhas para ocasiões especiais, brinquedos de último tipo, tapetes, travesseiros, colchas, quitutes dos mais variados… e o dono do pet pode acabar deixando na loja uma soma em dinheiro que, no fim das contas, pode pesar no orçamento. Resultado direto disso: a relação com o bicho começa a ficar desgastada. E o bicho nem pediu aquilo tudo…

 O problema é humanizar os animais:

“Tratar seu cachorro como um bebê não é bom para ele, nem para você”, dizem os especialistas. E, vamos combinar, com razão.

Existem algumas boas sugestões que podem ajudar na relação com os pets. A mais importante é que, antes de adotá-lo, ou comprá-lo, o humano pense bastante, pese prós, contras e, sobretudo, converse com todos que vão conviver com o bichinho em casa. Se tudo der certo, esta relação vai durar cerca de dez a 15 anos. E o pet existe para dar alegria, não para trazer problemas e discussões. Sendo assim, o contrato entre os humanos para receber o bicho em casa é fundamental.

Quando a pessoa mora sozinha e trabalha fora, tem que levar em conta a quantidade de horas que o bicho ficará sozinho em casa. E deve abrir mão da vontade de ter um pet, caso não possa fazer companhia a ele. Um apartamento, ou mesmo uma casa, é confinamento para qualquer animal.

Mas, no geral, os cuidados exagerados são melhores, para o bicho, do que ser abandonado à noite numa rua escura e deserta por donos covardes que se justificam dizendo que não podem mais cuidar dele.

Mesmo evitando os excessos, porém, o que ocorre é que os preços de remédios veterinários, por exemplo, sobem muito e, aparentemente, sem regulação. De um mês para o outro, o medicamento que precisa fazer parte da rotina de um cão idoso, pode subir sem que você tenha sido avisado. A surpresa aparece na hora de pagar a conta. O mesmo com os preços das consultas, exames e tais.

Numa entrevista bem interessante que deu ao jornalista Breno Altman, do site OperaMundi (assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=amE253akFd0) , a também jornalista Silvana Andrade, presidenta da Associação de Noticias sobre o Direito dos Animais (Anda) (https://anda.jor.br) lembra que dar atendimento adequado aos animais que se tutora é uma questão de cidadania, portanto os governos deveriam ser instigados a ajuda, fornecendo, por exemplo, saúde pública para os bichos:

“Muitas pessoas me dizem: ‘Silvana, vc é louca! Não há saúde nem para as pessoas, quanto mais para bichos’. Mas é preciso exigir. Uma pessoa em situação de rua deve ter o direito de cuidar de seus animais, por exemplo”, disse ela, lembrando que em São Paulo já há quatro hospitais desse tipo e que a luta é para que se abram farmácias populares.

Já que começamos o texto com lembranças sobre nossa era dos paradoxos, não custa lembrar que cobrar coerência nessa hora – “não tem nem para pessoas, quanto mais para animais” – é mais uma contradição. Sabemos a importância dos bichos, valoramos sua companhia, mas na hora de oferecer-lhes lugar em nossa civilização, eles acabam ocupando um degrau abaixo. Sem medo de estar sendo exagerada, digo que esta atitude corrobora a onipotência do homem, que sempre considerou a natureza como algo a ser dominado.

Sempre? Não, nem sempre com relação aos bichos. No pequeno vilarejo chamado Saint-Julien, no século XVII, seus habitantes abriram um processo contra uma colônia de gorgulhos – espécie de besouros – que teria invadido vinhedos causando estragos consideráveis na colheita. O pedido, feito ao vigário-geral, era para que ele prescrevesse medidas convenientes para “aplacar a cólera divina e a proceder dentro das regras, por intermédio da excomunhão ou qualquer outra censura apropriada”, à expulsão definitiva dos insetos.  Foi, como lembrou Luc Ferry, provavelmente a primeira ocorrência de um “contrato natural, de um pacto com seres da natureza”.

(P.S.) – Enquanto escrevia este texto li a notícia de que o ator Alan Cumming pediu que os organizadores da próxima cúpula do meio ambiente, COP-26, que vai acontecer em novembro na Escócia, não sirvam carne de animais aos participantes. Para ele, seria o mesmo que servir cerveja numa reunião de Alcoólicos Anônimos. Ponto para Cumming. Assim podemos ir aparando as arestas do nosso retrato de paradoxos.

*Este texto foi publicado originalmente no site da Revista Entrenós.

Em dupla é sempre mehor, sobretudo para raças pequenas e que ficam em apartamento

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s