A humanidade frente a seu maior desafio: união

Quase tão certo quanto o fato de termos Natal todos os anos é o vazamento de informações confidenciais contidas nos relatórios feitos pelos cientistas do IPCC (Intergovernmental Panel of Climate Change). São estudos publicados a cada seis, sete anos, muito aguardados porque costumam traçar uma espécie de perfil do que podemos esperar das mudanças do clima nos próximos anos. O quinto e último relatório foi divulgado em 2014 e trouxe importantes insumos para o Acordo de Paris assinado um ano depois. Agora os milhares de cientistas espalhados pelos 195 países membros das Nações Unidas estão trabalhando (voluntariamente, diga-se de passagem) sobre o Sexto Relatório, que deveria ficar pronto até o início da próxima Conferência das Partes sobre o Clima (COP) 26 que vai acontecer em novembro, em Glasgow, na Escócia.

Ocorre que o relatório não ficou pronto a tempo, mas os cientistas decidiram fazer, no próximo dia 9 de agosto, o anúncio de uma espécie de melhores momentos do estudo para ajudar os debates na COP. E, como eu disse acima, tão certo como o Natal, parte desses highlights vazaram para a imprensa. São dados que impressionam, como sempre são surpreendentes os anúncios do IPCC. O jornal britânico “The Guardian” foi um dos que publicou o vazamento.

“É provável que os impactos sejam muito mais próximos do que a maioria das pessoas imagina, o que irá remodelar fundamentalmente a vida nas próximas décadas, mesmo que as emissões de gases de efeito estufa sejam controladas”, dizem os jornalistas do “The Guardian”, concluindo com uma das frases que, ao que tudo indica, foi pinçada do relatório vazado: “A vida na Terra pode se recuperar de uma mudança drástica no clima evoluindo para novas espécies e criando novos ecossistemas … os humanos não podem.”

Acompanho há algum tempo os debates em torno dos impactos das atividades humanas sobre o clima, e posso lhes garantir que nunca o anúncio dos cientistas foi tão forte. Certo é que eles se assombraram com as informações colhidas que fazem parte das quatro mil páginas do relatório ainda em segredo. O Guardian ouviu Simon Lewis, professor de Ciência da Mudança Global na Universidade College London, que ressaltou a subida de tom dos cientistas.

 “Nada no relatório do IPCC deve ser uma surpresa, já que todas as informações vêm da literatura científica. Mas, em conjunto, a mensagem nítida do IPCC é que ondas de calor, incêndios, inundações e secas cada vez mais graves estão vindo em nossa direção, com impactos terríveis para muitos países. Além disso, há algumas mudanças irreversíveis, muitas vezes chamadas de pontos de inflexão, como quando as altas temperaturas e as secas significam que partes da floresta amazônica não podem persistir. Esses pontos de inflexão podem então se ligar, como derrubar dominós.”

Lewis mencionou a Floresta Amazônica, parte que nos cabe intensamente. E, sim, os dados mostram aquilo que mais tememos: é bem provável que a Floresta perca sua vegetação natural e vire savana, bioma que tem como característica arbustos pequenos, não árvores frondosas. O último relatório sobre desmatamento na Amazônia, feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), mostrou que, nos últimos 11 meses, foi 51% maior do que o registrado no período anterior, de agosto de 2019 a junho de 2020, quando o bioma apresentou 5.533 km² de devastação. Portanto, não é devaneio pensar que tudo pode ser diferente daqui a algum tempo.

O mundo estaria em queda livre?

Nicholas Stern, ex-economista chefe do Banco Mundial e especialista em mudanças climáticas, quando soube do vazamento do relatório do IPCC, disse à AFP:

“O mundo está confrontado com um conjunto complexo de desafios entrelaçados. A menos que você os enfrente juntos, não vai se sair muito bem em nenhum deles”.

Este é o ponto. Enfrentar juntos, como sugere Stern, significa deixar de lado querelas políticas, respeitar a multidiversidade, todas as culturas, costumes, focar seriamente no que interessa e ajudar quem já está sendo mais atingido. Dito assim parece um sonho, sobretudo para uma humanidade que há séculos vem se acostumando a tratar seus semelhantes com diferença.

No cargo desde 2013, a primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, não parece comovida com a causa. Tampouco dá sinais de que deseja se unir a seus pares, como sugere Stern, para enfrentarem juntos o problema. Em declaração recente feita à reportagem do jornal “Financial Times”, Solberg disse que seu país vai continuar explorando petróleo e gás.

“Há uma grande mudança acontecendo, e isso vai acontecer de qualquer maneira. A questão é quão rápido isso vai acontecer”, disse ela à reportagem. Importante dizer que Solberg está em campanha para sua reeleição, o que nos permite especular que, com esta declaração, ela vai angariar votos dos empresários de óleo e gás noruegueses. A questão é saber onde está, nessa altura, o sentimento de solidariedade tão necessário.

Enquanto escrevo este texto, o evento de abertura dos Jogos Olímpicos, em Tóquio, emociona todo mundo que teve tempo para assistir. Na fila dos atletas, na bela criação de drones iluminados, nas trilhas sonoras, no discurso do “banqueiro dos pobres” Muhammad Yunus, a palavra reintegração foi muito ouvida. Assim como paz, união.

Vamos ter que transformar discursos em prática. E não vai dar para esperar muito não.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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