Está faltando algum sentido

Na hora de pagar a conta, a moça da caixa do supermercado fez a pergunta que já virou praxe nesses grandes estabelecimentos:

— A senhora quer sacola plástica?

— Quanto custa? – perguntei.

— R$ 0,05 cada uma.

— Então eu vou precisar de duas. Mas tenho saudades do tempo em que essas sacolas não eram cobradas – resmunguei.

— A senhora não pode reclamar. Lá perto de casa eu pago R$ 0,08.

Comprei duas sacolas plásticas, menos para carregar as coisas – eu carrego bolsas de pano por onde vou – mais para utilizá-las em casa, num ou noutro serviço. Mas a conversa com a moça do caixa puxou o fio da minha memória.

O ano era 2010. Estava em curso na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro uma lei que instituía a cobrança das sacolinhas plásticas usadas para transportar compras em qualquer estabelecimento comercial. Eu editava o caderno “Razão Social”, no jornal “O Globo”, e pedi à repórter Martha Neiva Moreira que fizesse uma reportagem ouvindo todos os lados. Sim, todos os lados. Quando a proposta é pensar sobre um novo tipo de desenvolvimento, o bom é ampliar pensamentos.

Quando Martha voltou com a apuração, o quadro era o seguinte: aqueles que encaram as sacolinhas como vilãs da poluição ambiental aplaudiram imediatamente a ideia porque seria uma forma de a gente se ver livre delas. Mas ouvimos também pessoas que se preocuparam com o outro lado, com os operários de fábricas das sacolinhas. E  a Plastivida, entidade que atua na conscientização da população para o uso consciente do plástico, disse que o problema do acúmulo das tais sacolas era que as grandes redes não seguiam uma regrinha básica da ABNT: para evitar que o consumidor tivesse que sair carregando dezenas de sacolas, elas precisariam ser mais fortes. Quanto mais produtos coubessem numa sacola, menos sacolas seriam necessárias.

Ficamos nos perguntando, afinal, como os consumidores lidariam com o fato de terem que começar a pagar por um serviço que era gratuito.  Os donos de supermercados se apressaram em dizer que o lucro seria repartido com projetos para pessoas de baixa renda.

Naquele ano fez-se muitas reportagens a respeito das sacolinhas plásticas. Muita gente começou a mudar seus hábitos, a carregar sacolas retornáveis. Mas muita gente também não mudou uma pena para acabar com as sacolinhas na hora da compra, já que elas têm mil e uma utilidades em casa.

No ano passado, a lei entrou em vigor. E, desde janeiro, as redes de supermercado podem cobrar pelas sacolinhas. O preço não pode ser mais do que oito centavos.

 No entanto, muita coisa continua a ser como era antes. Para facilitar a vida de pessoas que moram só, por exemplo, o comércio de alimentos inventou as porções fracionadas. Ótima ideia? Só que… para embalar as porções não se poupa o uso de plásticos.

Ou seja: o cidadão faz sua parte, carrega uma bolsa descartável para levar suas compras, mas o plástico continua sendo intensamente utilizado em várias embalagens.

Falta algum sentido. Os rumos dos acontecimentos de hoje exigem algum sentido.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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