O que vai acontecer na COP26

Semana passada eu participei de um encontro virtual que tinha como objetivo abrir espaço de debate para os jornalistas que vão cobrir a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP 26). A iniciativa foi do Instituto ClimaInfo junto com o Instituto Clima e Sociedade (ICS), e é bem-vinda. A Conferência vai acontecer entre os dias 1 e 12 de novembro em Glasgow, na Escócia, e vai ser num sistema híbrido, ou seja, parte presencial, parte online, essa novidade que a pandemia nos legou. Seguirei cobrindo online.

O logo da Conferência, conseguido do site da UNFCCC

Este é um assunto que tem muitas vertentes, a cobertura pode ser bem complicada. Por isso, foi muito bom poder dividir algumas questões, ouvir comentários de quem está há mais tempo na estrada das conferências do clima.

A complexidade da cobertura se explica pelo seguinte: quando se fala em desenvolver de maneira sustentável, o que é um mantra para os ativistas ambientais, é preciso que haja um olhar cuidadoso não só para o meio ambiente, mas também para o social e para o econômico. Isto quer dizer que é preciso envolver profissionais de diferentes áreas.

  Lembro-me bem que, quando eu editava o caderno “Razão Social” no jornal O Globo (de 2003 a 2012), totalmente dedicado ao tema, eu nunca sabia, ao certo, em qual editoria do jornal eu poderia encaixar chamadas para as reportagens que editávamos no caderno. Era um caderno de notícias muito variadas. O que não variava era o senso crítico que buscávamos, uma visão aguçada para evitar noticiar greenwashing, e a vigilância sobre os projetos que duravam pouco tempo.

O maior interesse dos jornalistas que compareceram ao convite do ClimaInfo e do ICS na na semana passada era a agenda econômica da COP26. É um interesse legítimo porque, em geral, é mesmo a parte mais forte da Conferência ou, pelo menos, é de onde saem as notícias mais quentes.

Neste ano, parece que o debate vai ser sobre um acordo feito na COP-15, realizada em Copenhague em 2009, em que se previu que os países ricos ofereceriam US$ 100 bilhões por ano até 2020 para ajudar países pobres a lidarem com os impactos da mudança climática. Só que, desse total, segundo o diretor do Climainfo, Delcio Rodrigues, há controvérsias se já se chegou perto de US$ 90 bilhões ou se ainda estão no patamar de US$ 40 a US$ 60.  Seria preciso uma pesquisa muito profunda para checar onde esse dinheiro foi empregado.

Foi muito bom constatar, na conversa entre meus colegas, o que já estava ficando claro, para mim, nos últimos tempos: a questão do mercado de carbono não é relevante para a COP26. Digo muito bom porque essa é uma questão bem polêmica. Ativistas ambientais mais críticos defendem que a economia verde, muitas vezes, é um disfarce verde para o business as usual. Tendo a concordar. Ontem mesmo, ouvindo a entrevista coletiva do atual ministro do meio ambiente, não sei quantas vezes ouvi essa expressão. A economia verde aparece como a solução de todos os males.

 Não é, como sabemos. Existem muitos cálculos que precisam ser feitos para se chegar ao preço do carbono e que ficam sempre no campo das promessas. E, no fim das contas, precificar é mais do mesmo modelo econômico. E não ajuda a promover a mudança civilizatória que até o Papa Francisco já disse ser necessária. E não ajuda, também, a incluir pessoas.

Neste sentido, vocês vão entender por que, para mim, a melhor notícia, na reunião, foi dada por Cristina Amorim, coordenadora de comunicação do Instituto    de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Segundo ela, a COP26 não será apenas uma Conferência do Meio Ambiente. Ela será também sobre inclusão e exclusão de pessoas.

Cristina Amorim lembrou que a questão da justiça climática tem crescido muito nos debates pré-conferência dos quais tem participado. E, sim, os representantes dos indígenas e os movimentos sociais têm sido cada vez mais ouvidos. Não é para menos. Cada vez mais se tem certeza de que os povos indígenas são os que mais preservam a floresta. É absurdo deixá-los no segmento “eventos paralelos” da Conferência.

Um estudo divulgado pelo site MapBiomas em agosto deste ano, mostrou que nos territórios indígenas o desmatamento e a perda de floresta foram de apenas 1,6% no período de 35 anos. Para mim, é clara a motivação: os indígenas precisam da floresta para viver, por isso dão valor a ela, por isso respeitam cada pedaço de terra, curva de rio.

 Mas, apesar dessa constatação, apenas 13,8% de todas as terras do Brasil são reservadas aos povos originários. No país, segundo o Instituto Socioambiental (ISA), há725 terras indígenas em diferentes etapas do processo de demarcação). Dessas, somente 487 foram homologadas(quando o processo de demarcação foi concluído) desde 1988. O governo de Jair Bolsonaro é o primeiro, desde a redemocratização do Brasil, a não demarcar nenhuma terra indígena.

Gosto sempre de lembrar que este ano de 2021 começou com a reunião dos líderes empresariais e de nações, em Davos, no World Economic Forum, conclamando para um Grande Recomeço. E que vai terminar com outra grande reunião, a COP26, que está sendo considerada fundamental para propor mudanças civilizatórias.

Vale a pena ler “O futuro começa agora”, de Boaventura de Sousa Santos (Ed. Boitempo) porque, no fim do livro, escrito durante a pandemia, ele faz muitas sugestões para essa mudança. Nenhuma delas passa por mercado de carbono, com certeza. Mas, segundo lembra o professor, é preciso abolir a ideia do “one size fits all”.

“Impõem-se decisões globais e a criação ou o reforço de instituições globais para as levar a cabo, mas as soluções concretas e os seus ritmos devem ter em atenção a diversidade dos contextos e das culturas do mundo”.

Neste sentido, será preciso reformar a própria ONU, assim como outras instituições, “para deixarem de ser instrumentalizadas ou neutralizadas pelos grandes interesses capitalistas globais e dos Estados a seu serviço”, é uma das sugestões do sociólogo português.

Vou acompanhar a COP.  Na verdade, pretendo me concentrar nos side events, onde estarão os debates com os indígenas e com os movimentos sociais. Ainda que mais bem posicionados estrategicamente do que em outras COPs, eles ainda não terão assento nas discussões do mainstream. Quem sabe, um dia?

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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