Vá ao Museu e viaje pela Amazônia

Do Deserto de Saara à Amazônia. No dia 16, pela manhã, foi inaugurada a exposição “Fruturos – tempos amazônicos”, no Museu do Amanhã, e lá estive, no evento para convidados.   Em sete ambientes, o curador Leonardo Menezes convida o visitante a se sentir parte da maior floresta tropical do mundo, que já tem 20% de seu território desmatados. Entre fotos, textos explicativos, objetos da cultural local, desenhos e estruturas, o tempo é o protagonista.

Viagem pelo Rio Araguari, vizinho do Rio Amazonas., em direção ao Arquipélago do Bailique, em 2015.
Foto Amelia Gonzalez

Mas o Deserto de Saara, logo na entrada da exposição, chama também para outra reflexão: sobre o espaço. E sobre como estamos todos, globalmente, enfrentando tempos sombrios por conta das mudanças climáticas.  Em resumo: o vento leva as areias do Saara para a Floresta Amazônica, as areias são ricas em ferro e fósforo, nutrientes inexistentes na Floresta. Logo, o Deserto de Saara, a cinco mil quilômetros de distância, ajuda a fertilizar a Amazônia. Estão interligados.

Eis a proposta, portanto, para pensarmos. Se existe esta ligação entre forças da natureza, é difícil entender como desprezamos a ligação entre nós, humanos. São 30 milhões de pessoas que vivem na Amazônia e, segundo Índice de Progresso Social, IPS Amazônia 2021, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado no dia 6 de dezembro, não há progresso social na Amazônia. E as áreas desmatadas, que em tese serviriam para levar o desenvolvimento local, já que são riquezas vendidas, são as menos favorecidas.

Ainda no evento pré-abertura da exposição, as falas das pessoas envolvidas na produção da “Fruturos – tempos amazônicos” foram todas no sentido de alertar para a importância de se conhecer a Floresta. É uma ótima proposta, já que não se consegue falar, com propriedade, sobre temas que não conhecemos de verdade.

 Vanda Ortega, líder indígena dos Witoto  – povo transfronteiriço entre Brasil, Colômbia e Peru – foi uma das personalidades que falou, e foi muito aplaudida. Como todos os outros, seu depoimento também foi num tom de alerta. Se fosse pintura teria cores fortes. Vanda pediu licença a seus antepassados e contou a história do seu povo, que até 1999 vivia dentro da mata, indígenas ainda não identificados. Só depois que ela entrou para a escola, onde cursou enfermagem, os Witoto foram mapeados.

Vanda contou ainda que hoje seu povo está vivendo na lama, sem água potável – “Mas ninguém está preocupado com isso”, afirma ela.

São muitos os malfeitos que os humanos têm espalhado em sua trajetória. E não começou agora. Grilagem, garimpo, atividades ilegais que deixam a Amazônia à mercê do desmatamento, são temas recorrentes, no mínimo, desde que os líderes se reuniram na Rio-92 para debater o tema. Como se sabe, a floresta degradada é um perigo real, não só porque as árvores servem como sequestradoras de carbono, como porque o solo, revirado de maneira irresponsável, tende a mandar o carbono para a atmosfera. Mas, como diz Vanda, quem se preocupa, verdadeiramente? A exposição traz para a mesa o debate, e isto é importante, sobretudo porque será visitada também por crianças e jovens em idade escolar.

 Paulo Artaxo, cientista e integrante do Comitê Científico e de Saberes do Museu do Amanhã, foi sucinto em sua fala: “O futuro da Amazônia é o futuro do planeta. São 120 bilhões de toneladas de carbono: se isso for para a atmosfera, acaba.”

A exposição é bastante informativa. Artaxo ressaltou exatamente a “importância de levar os temas de um dos ecossistemas mais ricos do mundo para um público amplo de maneira bonita, lúdica e simplificada para que qualquer pessoa possa entender. São aspectos relevantes e estratégicos para a sociedade brasileira como um todo”,

 “Fruturos” será a exposição com o maior número de objetos da história do Museu do Amanhã. Foi construída a partir do reaproveitamento de peças de outras mostras que já passaram pelo equipamento cultural, e vai apresentar também objetos confeccionados a partir do trabalho de artesãos indígenas de diferentes regiões do país.

No caminho entre minha casa e o Museu, segui pensando sobre a Amazônia que conheci, onde estive algumas vezes.  É muito bom vê-la representada para pessoas que vivem tão distante dela. Melhor ainda se a exposição conseguir acender a vontade de visitá-la. Não faltam incentivos na Mostra, já que, segundo o curador Leonardo Menezes, nos diferentes cenários mostrados ali, a exposição traz a perspectiva atual do bioma. Não só no meio ambiente, mas também no campo social e cultural.

Como ressaltou Luiz Eduardo Osorio, vice-presidente executivo de Relações Institucionais e Comunicação da Vale e presidente do Conselho do Instituto Cultural Vale – instituição que apresenta a exposição – há muito o que aprender com a “Fruturos”. Osório destacou, por exemplo, detalhes sobre o Círio de Nazaré, manifestação religiosa católica instituído em Belém do Pará no século XVIII. Hoje o Círio, que acontece no Pará, no Amapá  e no Acre, portanto três dos nove estados que compõem a Amazônia Legal, é Patrimônio Cultural da Humanidade, declarado pela Unesco.

Vale a pena visitar “Fruturos”. E estender a visita em conversas, discussões, sobre o nosso momento.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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