Nós e os vírus

Na Petshop, a funcionária que me atendeu estava, visivelmente, gripada. Fala anasalada, nariz entupido e tosse bastante. Fiz o pedido, mas não consegui disfarçar um certo receio, mesmo usando máscara, e ela também.  Quando dei o cartão para pagamento, comentei:

Imagem do Corona Vírus

— Nossa, você está com uma gripe forte, hein?

A moça demonstrou, ligeiramente, ter ficado constrangida, e eu quase pedi desculpas. Mas ela negou:

— Não, começou agora uma tossezinha – disse.

Não estiquei a conversa. Tempos difíceis, esses que estamos vivendo. Por um lado, sim, fiquei incomodada porque, mesmo com as três doses da vacina, sei que posso ser infectada. Vou ter sintomas brandos, garantem os cientistas, mas vou ter sintomas. Amigos meus que estão vacinados com as três doses, mas se infectaram com a Ômicron, confirmam que os sintomas são brandos.  Mas dão conta de um mal-estar danado, muita preguiça, corpo pedindo cama. Não quero, nem posso passar por isso.

Por outro lado, sim, entendo que a moça fique preocupada, talvez não se sinta segura se faltar ao trabalho. Afinal, segundo os dados oficiais, há quase 14 milhões de pessoas sem emprego no Brasil, o que quer dizer que são poucas as chances de alguém ser demitida e conseguir colocação num curto prazo.

Eis a questão que se coloca hoje para uma grande maioria de brasileiros que não podem se dar ao luxo de cuidar da saúde. Sim, cuidar da saúde virou um luxo.

Visitei outra loja, a poucos metros daquela, dessa vez para saber o preço de um produto. A vendedora estava com uma máscara de pano que insistia em sair do lugar. Ela começava a falar, a máscara caía. De novo, pontuei o problema. Diferentemente da vendedora da Petshop, aquela não demonstrou nenhum tipo de constrangimento.

— Ih, pois é. Acho que preciso comprar outra máscara. Esta aqui está velha, caindo o tempo todo… – disse ela, sorrindo.

E, sorrindo, continuou a atender a clientela. Pensei em perguntar se a empresa não fornecia a máscara para ela trabalhar de forma segura – para ela e para os clientes – mas desisti. Depois me arrependi de não ter feito, mas já era tarde.

Nosso cotidiano pandêmico exige cuidado. Esta frase não é casual, não é clichê. Precisamos nos habituar a uma rotina que inclui máscara, higiene muito mais consciente e o afastamento social. Menos festas e eventos. Nosso convívio terá que ser mais familiar do que em sociedade. A pergunta é: isto é saudável para seres gregários, como somos?

A resposta é não, obviamente. Tanto que os profissionais de saúde mental mostram preocupação com os efeitos da pandemia no comportamento das pessoas. Há muito(a)s deprimido(a)s e o uso de drogas – lícitas ou não – está crescendo.

Em meio a tudo isso, ainda precisamos lidar com governos que tentam convencer que, para salvar a economia, é preciso correr o risco de sacrificar vidas.  Foi assim que vimos, durante o tempo em que, de fato, nos fechamos em casa, muitos trabalhadores arriscando-se, não só conduzindo transportes públicos, como buscando um frágil equilíbrio em motocicletas ou bicicletas para fornecer os alimentos que precisamos.

O mundo é injusto e não ficou menos injusto com a pandemia. Enquanto eu me preocupava com a minha saúde e com a possibilidade de ser infectada pela moça que me servia na loja, imaginava quantos outros funcionários estavam, naquele momento, enfrentando ônibus e trens lotados, com aglomeração que possibilita muito mais contágio. No entanto são pessoas que, talvez, não sejam vítimas de depressão, justamente porque estão se relacionando mais e mais ativas.

Há diversas soluções sendo apontadas por quem estuda o problema. Parte delas tem a ver com uma mudança estrutural da maneira que costumamos reagir às doenças. Quantas e quantas vezes não fomos trabalhar gripados? Agora já temos mais consciência do problema e dos perigos do contágio.

Parte das soluções, a maioria, no entanto, deve vir dos governantes. São eles que precisam se organizar para novos tempos. E esta organização tem que ser rápida. Há muito a ser feito, desde adaptação das cidades às pandemias, até criação de empregos que possam abarcar a quantidade de pessoas que foram demitidas, segundo uma nova ótica econômica. Menos tempo no emprego, semanas menores… são muitas as opções, e não faltam autores que se dedicaram a estudá-las. Kate Raworth, da economia Donut, é apenas uma delas. E sua teoria está disponível, já é realidade na cidade de Amsterdam, na Holanda.

Fato é que, assim como não dá para fechar os olhos à urgência de medidas contra as mudanças climáticas, também não se poderá fingir que voltaremos a um “novo normal” idílico depois da tormenta. Mas tem que encarar seriamente o problema, juntar os teóricos, promover estudos e, acima de tudo isso, botar em prática o resultado do trabalho.

“A guerra contra as pandemias recentes tem em comum com as outras guerras permanentes o fato de ser uma guerra irregular. O inimigo é elusivo, enganoso, não respeita as leis da guerra, não usa táticas convencionais, e o combate contra ele tem de pautar-se pelos mesmos meios para ser eficaz. Será a guerra contra a pandemia da Covid-19 uma nova guerra a acrescentar ao catálogo das guerras permanentes ou eternas? Sabemos que, enquanto não houver vacinas amplamente disponíveis, a guerra não termina. Até lá viveremos num período que caracterizo como de pandemia intermitente.”, escreve o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos em seu último livro “O Futuro começa agora”, escrito durante a pandemia e editado no ano passado pela Boitempo.

O pensamento de Boaventura de Sousa Santos está alinhado com os últimos números da pandemia que a ONU divulgou hoje, dia 12 de janeiro: entre os dias 3 e 9 do primeiro mês do ano surgiram 15 milhões de novos casos no mundo, um aumento de 55%. Este dado fez com que um grupo de especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) alertasse para o fato de que as atuais vacinas precisam ser adaptadas para continuarem eficientes contra a Ômicron e variantes futuras.  

E por último, mas não o menos importante nesta espécie de diário pandêmico, deixo registrada a fala da médica e Diretora-assistente da área de medicamentos e produtos de saúde OMS Mariangela Simão. Para ela, há motivos para se ter otimismo porque já há vacinas que nos protegem contra doenças graves e mortes. No entanto, uma rápida pesquisa feita no site que nos dá panorama sobre a vacinação no mundo mostra que um bilhão de pessoas ainda não receberam nenhuma dose. O que nos põe diante de um tremendo ponto de interrogação: a África é o continente que menos recebeu doses de vacina até hoje e, ao mesmo tempo, é o único que apresenta diminuição do número de casos de Covid.

A ciência saberá explicar. Voltando à Mariângela Simão, ela ressalta que é preciso muita cautela. E que o comportamento de cada pessoa tem um impacto na contenção da transmissão do coronavírus.  

“As medidas incluem evitar aglomerações, utilizar máscaras da maneira correta, higienizar bem as mãos e vacinar”, alerta a especialista.

Tudo aquilo que já sabemos. É só botar em prática.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s